Crônicas

A vida passando

sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Texto de

Acon­te­ceu ho­je, sex­ta-fei­ra.

Es­tá­va­mos sen­ta­dos, dois ho­mens e uma mu­lher, dis­cu­tin­do tra­ba­lho num lo­cal pú­bli­co no mo­men­to em que pas­sou uma ami­ga com a fi­lha. Fi­lha = uma be­la ado­les­cen­te que veio nos bei­jar.

A mu­lher da me­sa, ami­ga em co­mum, diz mo­men­tos de­pois em que mãe e fi­lha se fo­ram: “Eu me sin­to ve­lha”. Ela se sen­tiu ve­lha por­que viu a ami­ga com a fi­lha ado­les­cen­te = mu­lhe­rão. E eu con­fes­so: pen­sei o mes­mo.

Um dia, faz um ano ou dois, du­ran­te mi­nha ca­mi­nha­da diá­ria, à noi­ti­nha, er­gui a ca­be­ça e vi, vin­do em mi­nha di­re­ção, uma ga­ro­ta sor­rin­do. En­co­lhi a bar­ri­ga e es­tu­fei o pei­to. Is­so não acon­te­ce a to­da ho­ra. Bom, re­al­men­te, não acon­te­ce. Era mi­nha fi­lha.

Ou­tro dia, faz uns dois me­ses, mes­ma si­tu­a­ção: eu na ca­mi­nha­da, bo­tei o pé no cal­ça­dão da Ge­tú­lio e vi al­guns me­tros à mi­nha fren­te, de cos­tas, uma ga­ro­ta se­guin­do sua mar­cha. Que ma­ra­vi­lha, pen­sei. Bom, co­me­cei a an­dar no meu rit­mo e a al­can­cei. Pou­cos pas­sos an­tes de ul­tra­pas­sá-la, caí na re­al: mi­nha fi­lha de no­vo!

Sim, es­ta­mos ve­lhos.

É fi­lho do Tom Hanks aqui, é fi­lho de não sei quem lá, é a me­ni­ni­nha da no­ve­la que ho­je po­sa nua, é o Har­ry Pot­ter fa­zen­do se­xo! Ho­mens fei­tos, me­ni­nas que se tor­na­ram mu­lhe­res e não avi­sa­ram, mes­mo a gen­te, que foi no ani­ver­sá­rio de um ani­nho de­las, que gra­ci­nha!

Sim, so­mos as­som­bra­dos pe­lo fan­tas­ma do tio da Su­ki­ta. Por mais que Na­bo­kov nos en­co­ra­je, sem­pre pe­sa­rá so­bre nos­sas ca­be­ças a Nos­sa Se­nho­ra do Ri­dí­cu­lo, san­ta in­ven­ta­da pe­lo jor­na­lis­ta João Jab­bour.

Bom, ain­da so­bre a ami­ga que pas­sou com a fi­lha e dei­xou em nos­sa me­sa um que­zi­nho de ve­lha­ri­as (em­bo­ra a mu­lher que es­ta­va com a gen­te te­nha ape­nas trin­ta e pou­cos anos!!!), ali mes­mo, lem­brei-me que há uns vin­te anos (mais ou me­nos) eu fui num ani­ver­sá­rio de cri­an­ça na ca­sa de­la.

Só que era ani­ver­sá­rio de um ani­nho do fi­lho de­la. Que é mais ve­lho que a fi­lha de­la, o mu­lhe­rão de ho­je à tar­de. Mais ve­lho! Sa­be co­mo é?

Acon­te­ceu ho­je. E, sen­do Black Fri­day, pe­ço tam­bém um bom des­con­to. É, pa­ra a ida­de.

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