Crônicas

O exorcismo do Simca Chambord

quarta-feira, 26 de novembro de 2014 Texto de
Anúncio do Simca Chambord de 1961

Anún­cio do Sim­ca Cham­bord de 1961

Es­ta noi­te, ele vol­tou.

Mas va­mos con­tar des­de o iní­cio.

Há vá­ri­os epi­só­di­os que con­si­de­ro so­bre­na­tu­rais em mi­nha vi­da. O pri­mei­ro de­les se pas­sou ain­da na in­fân­cia. Eu de­via ter uns qua­tro ou cin­co anos. Mas me lem­bro per­fei­ta­men­te.

Foi as­sim.

Mo­rá­va­mos no sí­tio e a no­tí­cia de que um la­drão ha­via aca­ba­do de es­pa­lhar o pâ­ni­co ao en­trar em vá­ri­as ca­sas cor­reu as ime­di­a­ções. Se­gun­do se sou­be, ele te­ria fu­gi­do pa­ra a es­tra­da.

Quan­do che­ga­mos à es­tra­da, sou­be­mos que o ho­mem ha­via en­tra­do num ma­ta­gal ali per­to. To­dos fi­xa­vam seus olha­res na di­re­ção das moi­tas. Já ti­nham ido bus­car a po­lí­cia.

De mãos da­das com mi­nha mãe, olhei pa­ra trás, pa­ra o al­to da es­tra­da. E foi quan­do acon­te­ceu.

Nos­sa es­tra­da ru­ral de­via ter mais ou me­nos se­te me­tros de lar­gu­ra. Al­tos bar­ran­cos mar­ge­a­vam o tri­lho fun­do. Eu ti­nha o olhar vol­ta­do pa­ra o mor­ro, que­ria ver sur­gir o car­ro da po­lí­cia lá em ci­ma.

Mas o que vi foi um ho­mem pu­lar a es­tra­da, de um bar­ran­co ao ou­tro, da di­rei­ta pa­ra a es­quer­da. Um úni­co sal­to! Se­te me­tros de dis­tân­cia so­bre uma al­tu­ra de três me­tros com um úni­co sal­to! Bas­tou que ele abris­se as per­nas e a ven­ces­se.

Con­tei es­se ca­so ape­nas trin­ta anos de­pois. Tal­vez por­que eu mes­mo não acre­di­tas­se ou ti­ves­se re­ceio de ser to­ma­do por lou­co. Ho­je, após des­co­brir que pro­va­vel­men­te sou mes­mo lou­co, eu o con­to li­vre de qual­quer pre­o­cu­pa­ção quan­to aos re­fle­xos de mi­nha sa­ni­da­de.

Pas­sei por vá­ri­as si­tu­a­ções des­se gê­ne­ro, in­ve­ros­sí­meis pa­ra a ra­zão. Às ve­zes, de­mo­ram a acon­te­cer. Em ou­tras, en­ca­dei­am-se em sé­rie.

A dé­ca­da de 1990, por exem­plo, foi bas­tan­te “pro­du­ti­va”. O ca­so do Sim­ca Cham­bord tal­vez se­ja o que mais se apro­xi­ma do que cha­ma­mos de re­a­li­da­de. Pa­re­ce-me ser o mais pró­xi­mo do pal­pá­vel.

Em 1997, a ave­ni­da Ge­tú­lio Var­gas, em Bau­ru, era qua­se um tri­lho de ga­do a par­tir da ro­ta­tó­ria on­de ho­je fi­ca a Po­lí­cia Fe­de­ral. Da­li em di­an­te, prin­ci­pal­men­te em di­as de chu­va, tra­fe­gar de car­ro se tor­na­va um mar­tí­rio. Eu mo­ra­va um quilô­me­tro à fren­te.

Um dia, vol­tan­do pa­ra ca­sa, ul­tra­pas­sei os li­mi­tes do as­fal­to e en­trei no tre­cho de ter­ra ba­ti­da. Ha­via cho­vi­do. As con­di­ções não eram na­da bo­as. O sol aca­ba­ra de en­trar e so­bre Bau­ru pai­ra­va ape­nas uma ra­la cla­ri­da­de ver­me­lha.

Eu ti­nha fre­a­do e re­du­zi­do dras­ti­ca­men­te a ve­lo­ci­da­de por cau­sa dos bu­ra­cos e da la­ma. Atrás de mim, ain­da com as lu­zes apa­ga­das, vi um veí­cu­lo se apro­xi­mar. Era um Sim­ca Cham­bord.

O Sim­ca, pa­ra quem não sa­be, é um dos au­to­mó­veis mais char­mo­sos da his­tó­ria. Pe­lo que vi na in­ter­net, sua pro­du­ção co­me­çou em 1958 e foi até 1967. Na dé­ca­da de 1980, a ban­da “Ca­mi­sa de Vê­nus” o ho­me­na­ge­ou com a mú­si­ca “Sim­ca Cham­bord” (ál­bum “Cor­ren­do o ris­co”, 1986, WEA).

Pois bem, lá es­tá­va­mos na Ge­tú­lio, ano 1997. O Sim­ca no meu re­tro­vi­sor, for­çan­do a ul­tra­pas­sa­gem. Co­mo o ca­mi­nho era es­trei­to e es­ta­va em pés­si­mas con­di­ções, pro­cu­rei le­var meu car­ro até o má­xi­mo que po­dia pa­ra o la­do di­rei­to. E as­sim o fiz, aguar­dan­do que o mo­to­ris­ta apres­sa­do saís­se da mi­nha co­la.

En­tre­tan­to, nin­guém me ul­tra­pas­sou na­que­le iní­cio de noi­te. Num pis­car de olhos, o Sim­ca Cham­bord sim­ples­men­te ha­via de­sa­pa­re­ci­do. Pa­rei, abri a por­ta e des­ci. Não sei quan­to tem­po fi­quei ali com as mãos na cin­tu­ra, ten­tan­do com­pre­en­der a cha­ra­da. Na­que­le pon­to não ha­via por on­de sair a não ser se­guir adi­an­te. Não ha­via es­qui­na. Não ha­via rua a do­brar. O Sim­ca Cham­bord eva­po­rou no ar.

Um ris­co frio me per­cor­reu a es­pi­nha. De re­pen­te, ti­ve pres­sa. En­trei no car­ro e me man­dei da­li.

Ago­ra há pou­co, três da ma­nhã, de­zes­se­te anos de­pois, acor­dei so­bres­sal­ta­do. So­nhei com o Sim­ca Cham­bord. Já no as­fal­to da Ge­tú­lio, eu o ve­jo se apro­xi­mar pe­lo re­tro­vi­sor. Co­mo em 1997, eu tra­fe­go pe­la di­rei­ta, dou pas­sa­gem a ele.

E ele pas­sa. Ele­gan­te e, cla­ro, sem nin­guém ao vo­lan­te.

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