Crônicas

Gente folgada

segunda-feira, 24 de novembro de 2014 Texto de

A pou­cos me­tros de on­de ela es­tá, uma mul­ti­dão ati­ra-se à rua tão lo­go o ver­de acen­de pa­ra os pe­des­tres, uma pro­cis­são que se es­va­zia em se­gun­dos pa­ra dar no­va­men­te pas­sa­gem aos car­ros. Os mo­to­ris­tas já es­tão im­pa­ci­en­tes sob o sol es­cal­dan­te do meio da tar­de no cen­tro de Bau­ru.

Ela ob­ser­va a ce­na se­gu­ran­do um guar­da-chu­va.

Fi­ca ali, pa­ra­da. De re­pen­te, dá um pas­so à di­rei­ta e en­cos­ta-se a uma pa­re­de. O ca­lor su­fo­ca. Eu mes­mo, en­quan­to aca­bo de fa­zer o que es­tou fa­zen­do, sin­to cer­ta pres­são nas têm­po­ras, co­mo se dois ou três se­gun­dos ti­ves­sem pas­sa­do sem que eu os per­ce­bes­se.

De­ve ter mais de ses­sen­ta anos. Não che­ga ser cor­pu­len­ta, mas tem a cin­tu­ra lar­ga e re­chon­chu­da, on­de sus­ten­ta uma das mãos. A ou­tra se­gu­ra o guar­da-chu­va. Usa um ves­ti­do flo­ri­do. Con­ti­nua en­cos­ta­da.

- A se­nho­ra es­tá bem? - eu per­gun­to.

- O quê?

- A se­nho­ra es­tá se sen­tin­do bem?

- Ah, es­tou sim, só es­tou olhan­do...

O se­má­fo­ro de pe­des­tres já abriu e fe­chou no­va­men­te. Ago­ra abre ou­tra vez. A pro­cis­são con­ti­nua. Sor­ri­sos, an­gús­ti­as e ócu­los es­cu­ros mis­tu­ram-se so­bre o as­fal­to em bra­sa.

- Eu can­so quan­do an­do bas­tan­te - ela abre um sor­ri­so re­sig­na­do.

- Des­cul­pe, é que eu achei que a se­nho­ra es­ti­ves­se pas­san­do mal com es­se ca­lor...

- Eu vim a pé lá do bair­ro - ela diz com uma pon­ta de or­gu­lho.

- Nos­sa, com es­se sol?

- Ah, é bom an­dar de vez em quan­do... e a gen­te eco­no­mi­za um pou­co. Sa­be co­mo é, vi­da de la­va­dei­ra não é fá­cil.

- Mas a se­nho­ra vol­ta de ôni­bus?

- De­pen­de do sol - re­to­ma o sor­ri­so e o ca­mi­nho.

O ver­de es­tá aber­to pa­ra os pe­des­tres. Ela põe-se a atra­ves­sar. Quan­do es­tá no meio da rua, o ver­me­lho acen­de. A bu­zi­na de um car­ro gri­ta sem pi­e­da­de em sua di­re­ção. Ela aca­ba a tra­ves­sia e já na cal­ça­da, se­gu­ran­do o guar­da-chu­va, vi­ra-se e ace­na pa­ra o trân­si­to, co­mo se qui­ses­se des­cul­par-se.

- Gen­te fol­ga­da! - gri­ta, en­fu­re­ci­do, o mo­to­ris­ta de­pois de abai­xar por um ins­tan­te o vi­dro fu­mê de seu car­ro de lu­xo.

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