Crônicas

A vida num instante

terça-feira, 3 de junho de 2014 Texto de

Faz tem­po que co­nhe­ço o M. A gen­te se en­con­tra por aí de vez em quan­do, tro­ca umas idei­as, ba­te um pa­pi­nho rá­pi­do e até mais. Ho­je eu es­ta­va no ca­fé, nu­ma me­sa que dá pa­ra a rua, e o vi pas­sar na cal­ça­da.

- Gran­de M! Vem cá to­mar um ca­fé co­mi­go.

- Bom, se vo­cê es­tá pa­gan­do.

O M. é um des­ses su­jei­tos que pa­re­cem es­tar sem­pre de bem com a vi­da, mas des­ta vez eu o per­ce­bi de­sa­ni­ma­do lo­go que aper­tou mi­nha mão e se sen­tou.

- E aí, ra­paz? – ele dis­se co­mo se não ti­ves­se na­da me­lhor pa­ra di­zer.

- Dois ca­fe­zi­nhos – pe­di à gar­ço­ne­te. – E as no­vas? – olhei pa­ra ele em se­gui­da.

- São ve­lhas – co­çou a ca­be­ça. – Tu­do na mes­ma.

Da úl­ti­ma vez que a gen­te se viu, o M. es­ta­va com al­guns pro­je­tos em an­da­men­to, mas to­dos meio que pa­ti­nan­do, se­gun­do su­as pró­pri­as pa­la­vras.

- As coi­sas me­lho­ra­ram? – per­gun­tei.

- Na­da – ba­lan­çou a ca­be­ça por um tem­pão. – Acho que pi­o­ra­ram, is­so sim.

- Que acon­te­ceu?

- Olha – ele abai­xou a ca­be­ça, – quan­do o di­nhei­ro não en­tra, meu ca­ro, é fo­da.

- Âni­mo, ca­ra!

- Quan­do as dí­vi­das co­me­çam a te co­çar – ele olhou amar­ga­men­te pa­ra mim, – tu­do de­sa­ba. Már­cio – ele pen­sou um pou­co, – vo­cê acre­di­ta que pre­ci­so tro­car o col­chão e não te­nho di­nhei­ro?

- Pu­xa, eu la­men­to – des­pe­jei o açú­car no ca­fé fu­me­gan­do. – Tem al­gu­ma coi­sa que eu pos­so fa­zer por vo­cê?

- Se vo­cê ti­ves­se gra­na, sim – ele fi­nal­men­te riu, – mas co­mo eu sei que vo­cê não tem... – riu ou­tra vez.

- A coi­sa não es­tá fá­cil pra nin­guém, meu ca­ro.

- A gen­te pen­sa em ca­da bes­tei­ra... – ele es­ta­va de ca­be­ça bai­xa ou­tra vez.

- M. – eu pe­guei no bra­ço de­le, – vo­cê tem a vi­da pe­la fren­te, as coi­sas uma ho­ra me­lho­ram, vo­cê vai ver.

- Não sei – ele cru­zou os bra­ços. – Mas não te­nho uma vi­da pe­la fren­te, não; mi­nha vi­da es­tá to­da aí atrás, já che­guei aos 50!

- En­tão so­mos dois.

To­mei o ca­fé sen­tin­do um gos­to amar­go. A ver­da­de é que, co­mo dis­se, co­nhe­ço o M. faz tem­po. Sei que tra­ba­lha des­de ce­do. Ca­ra de­di­ca­do, es­for­ça­do, to­dos que o co­nhe­cem di­zem que é óti­mo pro­fis­si­o­nal e que tem ta­len­to. Se­rá que es­te país não tem es­pa­ço pa­ra su­jei­tos ex­pe­ri­en­tes que pas­sam dos 50 anos? O mer­ca­do se­rá as­sim tão cru­el?

- Quan­do vo­cê olha pa­ra trás – ele me dis­se – e vê quan­to tra­ba­lhou, é di­fí­cil acei­tar que na­da dê cer­to pra vo­cê.

Fi­ca­mos nos olhan­do por al­guns ins­tan­tes.

- Bom – ele fez um mo­vi­men­to com o bra­ço, – dei­xa pra lá. E vo­cê o que tem fei­to de bom?

Con­ti­nu­ei olhan­do pa­ra o M. O ca­be­lo pen­te­a­do com gel, uma meia-lua es­cu­ra sob os olhos, os lá­bi­os aper­ta­dos, uma ex­pres­são pe­sa­da.

- Ho­je ce­do, fui bus­car mi­nha fi­lha no es­tá­gio... – de re­pen­te, me pe­guei fa­lan­do is­so.

- Es­tá­gio? Ca­ram­ba, ela já es­tá na fa­cul­da­de?

- Sim, es­tá no ter­cei­ro ano de psi­co­lo­gia.

- Pa­ra­béns, ra­paz!

- Bom, eu es­ta­va lá es­pe­ran­do mi­nha fi­lha, e bem à mi­nha fren­te, na cal­ça­da, um ca­chor­ro pre­to des­ses vi­ra-la­tas brin­ca­va com um ca­ra que de­via ser ali do bair­ro. O ca­chor­ro se em­pi­na­va nas per­nas de­le, cor­ria fei­to lou­co pa­ra lá e pa­ra cá, gi­ra­va ao re­dor do ca­ra, o ca­ra fa­zia ca­ri­nho em seu fo­ci­nho, o ca­chor­ro vol­ta­va a cor­rer, pu­la­va so­bre uma tou­cei­ra de ca­pim e de­sa­pa­re­cia atrás de um mu­ro, de­pois lá es­ta­va ele de no­vo, uma ener­gia im­pres­si­o­nan­te. Re­pe­tiu es­sa cor­re­ria por vá­ri­as ve­zes, acho que fi­cou ali por uns dez mi­nu­tos, até pa­re­cia sor­rir. En­gra­ça­do is­so, né? Co­mo é fá­cil per­ce­ber um ca­chor­ro fe­liz.

- Is­so é ver­da­de – riu o M. – Te­nho dois vi­ra-la­tas...

- Quan­do mi­nha fi­lha saiu, dei par­ti­da no car­ro. O ho­mem que brin­ca­va com o ca­chor­ro já não es­ta­va mais lá. E o ca­chor­ro ti­nha de­sa­pa­re­ci­do atrás do mu­ro. Quan­do, di­ri­gin­do, ul­tra­pas­sei o mu­ro, vi uma ca­sa de ma­dei­ra mui­to po­bre fin­ca­da no lu­gar, as pa­re­des ju­di­a­das, a ba­se da cons­tru­ção com vá­ri­as par­tes apo­dre­ci­das. O ca­chor­ro mo­ra lá.

- É... – o M. cru­zou os bra­ços de no­vo. – E ama­nhã ele vai fa­zer tu­do de no­vo, po­de acre­di­tar.

- É... – eu tam­bém cru­zei os meus. – E com a mes­ma fe­li­ci­da­de, in­de­pen­den­te­men­te de tu­do, né?

- Sem nem se lem­brar de ho­je.

- Sem nem se lem­brar que ho­je ele deu mais es­pe­ran­ça a uma ma­nhã de ou­to­no.

- Vo­cê pa­ga? – o M. per­gun­tou.

- Cla­ro, vai lá.

O M. saiu e eu fi­quei mais um pou­co ali apro­vei­tan­do um sol­zi­nho gos­to­so das du­as e meia. Só en­tão me dei con­ta que o M. não be­beu seu ca­fé. Es­ta­va to­do na xí­ca­ra. E lá fi­cou. Quem é que be­be ca­fé frio, afi­nal?

Palavras-chave

Compartilhe