Contos

Dona Deusinha

terça-feira, 1 de abril de 2014 Texto de

A fu­maça en­tope o ar. Na pla­ta­forma 12, en­costa a pri­meira li­nha do li­to­ral. A tampa do ba­ga­geiro range até tra­var com o so­la­vanco do Bor­ges. O co­bra­dor já manda as ma­las ao chão. No acesso pela ave­nida, aponta o carro que desce de Belo Ho­ri­zonte, en­quanto os pas­sa­gei­ros que vi­e­ram da praia se­guem em fila ner­vosa que se es­tende até às ba­ga­gens. Bem ao lado, o bê­bado dá a úl­tima cus­pa­rada an­tes de vol­tar ao sono in­qui­eto, res­mun­gando o que nunca se en­tende. O de Mi­nas en­costa. Desce o Mathias com h. Este é mais cui­da­doso: es­pera pe­los vi­a­jan­tes an­tes de dis­tri­buir os per­ten­ces. Ao con­trá­rio do Bor­ges, acena e até canta um bom-dia sin­cero. Ela res­ponde. Ela sem­pre res­ponde a to­dos eles. En­quanto o Mathias en­trega, uma a uma, de mão em mão, as ma­las que vi­e­ram de Belo Ho­ri­zonte, deixe-me con­fiar aos bons cui­da­dos do lei­tor quem é ela, a mu­lher que aos sá­ba­dos de ma­nhã se­gue para a ro­do­viá­ria, onde es­pera pelo fi­lho ope­rá­rio.

To­dos a co­nhe­cem ali, em meio à agi­ta­ção cres­cente das pri­mei­ras ho­ras, como a ve­lhi­nha do lenço preto. Mas vou con­tar em bre­ves li­nhas seu nome e seu ca­rá­ter. Dona Deu­si­nha – veja que nome! – é mãe de fi­lho único, o Mi­guel, de São Mi­guel, ou, como ela diz, o Mi­gue­zi­nho, que se lê com o “e” aberto, sendo en­tão o Migu(é)zinho, mas ape­nas por efeito so­noro da le­tra “e” e não para mar­car sí­laba tô­nica. Este aí, vindo de es­cola onde pouco apren­deu, pre­ci­sou sujeitar-se ao que lhe so­brou fa­zer na hora de bus­car o sus­tento dele e da mãe. Pouco tempo de­pois de ter-lhe mor­rido o pai, dei­xou pelo meio o apren­di­zado das le­tras e foi enfiar-se nas cons­tru­ções. Sabe-se como é isso. Um dia cá, ou­tro acolá. Na São Paulo ou na Bahia, o di­nheiro é que vale para a vez da com­pra, diz a mãe em con­for­mi­dade com a digna es­co­lha do fi­lho.

Dona Deu­si­nha é da­que­las que não ten­dem ao de­sa­lento. Veio de longe, en­fren­tou do­en­ças de fa­mí­lia, per­deu vi­das em par­tos, o ma­rido foi-se mais cedo do que se su­pu­nha, mas ela não de­sa­nima. O Mi­gué­zi­nho dá jeito. En­quanto o fi­lho emprega-se nas re­don­de­zas, não se deixa en­ga­nar: vai ela pró­pria, de ôni­bus ou de trem, com a mar­mita para o al­moço. Quando vi­aja dis­tante, ela manda-lhe as re­co­men­da­ções. Le­vanta às cinco, lava roupa para fora, limpa as ca­sas das pa­troas e faz as co­mi­das que vende de porta em porta. Divide-se em dez para aju­dar com as des­pe­sas e, vai ver, mais pra frente com­prar uma casa de­les mes­mos.

Em parte, vai as­sim no dia após dia a Dona Deu­si­nha. O fi­lho sai em vi­a­gem e quando volta há um so­bres­salto nos três co­mo­do­zi­nhos com ba­nheiro ane­xado. O sá­bado e o meio do­mingo, an­tes que ele se vá de novo, têm muito va­lor. Faz do bom e do me­lhor para ele, chama uns ami­gos para a con­versa da tarde, avisa as duas ou três pre­ten­den­tes para os pas­seios da noite, guarda na ge­la­deira o al­moço e a janta que co­me­çou a co­zi­nhar na vés­pera. A tudo isso ela prende-se com o co­ra­ção cheio de amo­res. E o Mi­gué­zi­nho a tem nas me­lho­res con­tas. Diz a um e a ou­tro, do fundo da alma, que sem a mãe não sabe o que se­ria, se um an­da­ri­lho ou um ban­dido. Nos dias em que fica, seus abra­ços e seus bei­jos seguem-se num in­ter­mi­tente ri­tual que co­move os que vi­e­ram para as con­ver­sas de beira mesa. 

Na noite da vés­pera da che­gada, Dona Deu­si­nha mal pode dor­mir. De ma­dru­gada, acorda de quinze em quinze para ver no re­ló­gio o adi­an­tado das ho­ras. Às seis, olha ela já pronta com o ves­tido de dis­cre­tas es­tam­pas, o sa­pato preto, o lenço preto e a bol­si­nha que car­rega desde os tem­pos em que não era viúva. Toma a con­du­ção a cinco qua­dras de casa e se­gue até a ro­do­viá­ria num tra­jeto de hora. O ôni­bus do fi­lho vem às nove, às ve­zes atrasa um pouco. Ela sem­pre está lá, como agora. O Mathias já quase acaba de pôr as ma­las nas mãos dos pas­sa­gei­ros. Dona Deu­si­nha o co­nhece faz muito tempo. Em dias que o Mi­gué­zi­nho não vem por causa das ho­ras ex­tras, manda por ele o di­nheiro à mãe. É de con­fi­ança. A boa ín­dole nem mesmo per­mite o re­ce­bi­mento da gor­jeta que a mu­lher lhe dis­pensa em pa­ga­mento à aten­ção. Não, isso não é com ele. Tome lá, Dona Deu­si­nha. O di­nheiro é mesmo dela e só. 

O Mathias en­trega agora a úl­tima ba­ga­gem. Quando o ôni­bus en­trou na ro­do­viá­ria, de den­tro da ca­bine o Mathias avis­tou a Dona Deu­si­nha sen­tada no banco de sem­pre, o da pla­ta­forma 11. Como sem­pre faz, ela levantou-se com o sor­riso pre­gado. O ôni­bus en­cos­tou e o Mathias des­ceu. Quando pas­sou por ela, can­tou aquele bom-dia. Dali em di­ante, no co­ra­ção dele cor­reu um san­gue triste, com­pa­de­cido. O caso é que ele sabe que nunca mais Dona Deu­si­nha verá o fi­lho. Em Belo Ho­ri­zonte, os po­lí­cias de baixo soldo já fi­ze­ram o co­men­tá­rio: o Mi­gué­zi­nho en­trou na barra pe­sada e de lá não pôde mais sair. Vai ser um des­ses de­sa­pa­re­ci­dos po­lí­ti­cos, di­zem. E eles sa­bem que tam­bém é morto de nunca mais ha­ver mesmo o corpo. Tudo isso já dis­se­ram a Dona Deu­si­nha umas pes­soas de con­fi­ança. Mas as­sim mesmo, a mãe an­si­osa vem ali todo santo sá­bado. Acorda às seis, veste o ves­tido de dis­cre­tas es­tam­pas, calça o sa­pato preto, amarra o lenço preto, pen­dura a bol­si­nha do tempo em que não era viúva e toma a con­du­ção para a ro­do­viá­ria. Quando o ôni­bus en­tra, ela levanta-se e sorri à es­pera do Mi­gué­zi­nho que não vem mais. O Mathias, com o co­ra­ção an­gus­ti­ado, já foi di­zer a ela que não volte, que se um dia o Mi­gué­zi­nho apa­re­cer, ele mesmo, o co­bra­dor, corre para avisá-la. Mas que o quê? Dona Deu­si­nha não quer as­sim. Ela conta nos de­dos os dias da se­mana para que o sá­bado che­gue logo, para que ao me­nos na­quela ho­ri­nha, da casa à es­ta­ção, ainda possa lembrar-se da­quele sen­ti­mento de es­pe­rança, lembrar-se de um pe­daço que seja de sua única fe­li­ci­dade.

(Ima­gem que ilus­tra o conto está pu­bli­cada no en­de­reço:
http://wordsimages.blogspot.com/2007/07/tela-me.html)

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