Contos

Um fiapo de sangue escorre na solidão da noite

quinta-feira, 6 de março de 2014 Texto de

Atrás do bal­cão, o dono do pe­queno café sente uma certa ten­são ao ob­ser­var o cli­ente da mesa cinco. Está sen­tado ereto, como al­guém trei­nado a manter-se em po­si­ção ade­quada para pre­ser­var a co­luna, a ca­beça le­ve­mente vol­tada à es­querda, para a rua, onde uma chuva leve faz os pou­cos pe­des­tres se pro­te­ge­rem sob os tol­dos. Tem meia idade, no má­ximo cin­quenta anos. Um so­bre­tudo cá­qui incha-o além da conta. Os ócu­los às ve­zes em­ba­çam, mas ele não os tira. O es­ta­be­le­ci­mento já se en­con­tra va­zio a esta al­tura. Passa um pouco das onze da noite. 

Revezando-se em olha­res para a rua e para as duas xí­ca­ras va­zias, aquela fi­gura es­tra­nha­mente imó­vel torna-se a cada mi­nuto mais per­tur­ba­dora. Ao me­nos para o dono do café, que já apa­gou as lu­zes do lado oposto de onde está sen­tado seu único cli­ente. E agora co­meça a inquietar-se pra va­ler. Ao aper­tar o in­ter­rup­tor, olhou des­ca­ra­da­mente para o ho­mem ereto, como a dizer-lhe “já es­tou fe­chando, é hora de am­bos ir­mos em­bora”. Mas o ou­tro nem mesmo se deu ao tra­ba­lho de mo­ver a ca­beça. Per­ma­ne­ceu qui­eto, fi­tando a rua cada vez mais de­serta.

Re­ce­ando es­tar di­ante de al­guém que po­de­ria es­con­der qual­quer arma na­quele pe­sado ca­saco, o dono do café aproxima-se da mesa e re­tira cui­da­do­sa­mente as duas xí­ca­ras, en­quanto de es­gue­lha per­cebe que uma das mãos do su­jeito esconde-se de­baixo do te­cido. Uma breve ar­rit­mia ataca-o e pro­voca em suas mãos um pe­queno tre­mor que ba­lança as xí­ca­ras so­bre os pi­res le­va­dos ao bal­cão.

Uma vi­a­tura da po­lí­cia passa em frente, bem de­va­gar, re­pleta de sol­da­dos. O co­mer­ci­ante gos­ta­ria de gri­tar para que en­trem to­mar algo de graça. Mas pre­fere fi­tar no­va­mente seu cli­ente. Este, com um mo­vi­mento tí­pico das co­ru­jas, faz gi­rar a ca­beça le­ve­mente e en­cara seu an­fi­trião, tal­vez um olhar co­mum não fosse o es­tado de es­pí­rito do dono do café. Sorri para o cli­ente como sor­riem os per­so­na­gens de de­se­nho ani­mado quando são fla­gra­dos e já sa­bem que vão se dar mal.

A chuva pa­rou. Um vento frio as­so­bia por en­tre as frin­chas da porta de ma­deira e vi­dro. O aroma de café espalha-se com o so­pro. Do ou­tro lado da rua, al­guém acena em di­re­ção ao café. O co­mer­ci­ante aperta os olhos ao mesmo tempo em que ouve o cli­ente erguer-se dei­xando a ca­deira cair atrás de si num ba­que surdo. O co­ra­ção gela. Sob o bal­cão há uma faca grande e ele pousa a mão so­bre o me­tal frio com a in­ten­ção de defender-se. O cli­ente, vindo em sua di­re­ção, põe uma nota so­bre o caixa, vira-se brus­ca­mente e sai sem di­zer pa­la­vra. Um pouco an­tes de ver duas si­lhu­e­tas abra­ça­das na cal­çada oposta, o ho­mem cheio de re­ceios sente um fi­apo de san­gue es­cor­rer en­tre os de­dos e um fio de ver­go­nha escapar-lhe em meio às lem­bran­ças que in­sis­ten­te­mente lhe re­cu­sam a ima­gem do úl­timo abraço de amor que ele ex­pe­ri­men­tou, isto é certo, mas já não sabe quando.

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