Crônicas

Uma força estranha

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014 Texto de

Eu o en­con­trei ou­tro dia, já nesta época de tem­pe­ra­tu­ras além da conta etc. Fa­zia um bom tempo que não o via. Pra di­zer a ver­dade, não é um amigo, amigo. É, di­ga­mos, um co­nhe­cido que eu res­peito. Sem­pre me pa­re­ceu ser boa gente, além de car­re­gar con­sigo uma enorme in­te­li­gên­cia. Ao me­nos essa é mi­nha im­pres­são.

Na cal­çada, sob o so­lão pós-almoço, convidei-o para to­mar um café. Mas sem um café por perto, re­sol­ve­mos en­trar num bar. Pe­di­mos só água ge­lada. Não ha­via de mi­nha parte o me­nor in­te­resse num papo mais longo do que uma gar­ra­fi­nha de 500 ml. Foi quando eu fiz a per­gunta ine­vi­tá­vel como vai a vida?

E ele me disse.

“Olha, ra­paz, nada é fá­cil, não é mesmo? Ou­tro dia en­con­trei um amigo de longa data que eu não via fa­zia um bom tempo”, diz-me, “pra di­zer a ver­dade, não é um amigo, amigo. É, di­ga­mos, um co­nhe­cido que eu res­peito. Papo vai papo vem”, con­ti­nua ele, “ele me diz que tudo es­tava muito com­pli­cado, nada es­tava dando muito certo na vida dele, es­sas coi­sas cha­tas de se ou­vir. Até que dali a pouco a gente se des­pe­diu e eu vi que ele en­trou num baita car­rão, sabe?”, diz-me ele, “Aí fi­quei me per­gun­tando, porra, se ele tá mal, e eu en­tão?”.

“Bom”, diz ele de­pois de rir­mos um pouco, “a ver­dade é que pouca gente pa­rece es­tar con­tente com a vida que leva, você está?”, pergunta-me, mas não me dá tempo de res­pon­der, “Não, acho que nin­guém está”, diz ele, “acho que são pou­cos os que es­tão re­al­mente fe­li­zes, mas isso é pró­prio do ser hu­mano, isso não quer di­zer que nunca es­te­jam fe­li­zes”.

“Eu?”, ele bebe meia gar­ra­fi­nha de água de­pois que eu lhe per­gunto você, ele, está? “Márcio, é uma ques­tão com­pli­cada, sabe por quê?”, pergunta-me, mas só mesmo para con­ti­nuar sua tese, “Por­que eu po­de­ria te con­tar um monte de coi­sas ruins que me acon­te­ce­ram” e em se­guida conta um monte de coi­sas ruins que lhe acon­te­ce­ram.

E são coi­sas ruins, mesmo! Vá­rios pro­je­tos pro­fis­si­o­nais não em­pla­cam, está de­sem­pre­gado, cheio de dí­vi­das, vive quase à custa de em­prés­ti­mos, al­guns ban­cá­rios, ou­tros fa­mi­li­a­res. Mas o cu­ri­oso é que ao nar­rar tais me­an­dros de sua vida nos úl­ti­mos anos, ele pa­rece não en­tre­gar os pon­tos, pelo me­nos não tanto como quando diz ter tra­ba­lhado desde cedo, “sem­pre tendo em vista a cor­re­ção, a ética, o pro­fis­si­o­na­lismo, en­fim, sem­pre bus­cando dar o me­lhor que al­guém pode dar. E pra quê?”, pergunta-me e con­ti­nua, “Às ve­zes eu me per­gunto pra quê?”. 

Mas, de­pois de um mo­mento de he­si­ta­ção, ele diz algo que me chama ainda mais a aten­ção, digo ainda mais por­que eu já me sen­tia so­li­dá­rio di­ante de suas di­fi­cul­da­des.

“Márcio”, diz ele um se­gundo após en­go­lir o res­ti­nho de água de sua gar­rafa, “é in­crí­vel nossa ca­pa­ci­dade de re­sis­tên­cia, você não acha?”, pergunta-me só para ele mesmo res­pon­der. “So­mos uns bi­chos re­sis­ten­tes. Veja mi­nha si­tu­a­ção, cheio de pro­je­tos fra­cas­sa­dos, de­sem­pre­gado, sem di­nheiro, com dí­vi­das, e mesmo as­sim há dias em que eu sinto uma força in­te­rior tão in­tensa que fico im­pres­si­o­nado. Claro”, diz ele, “eu gasto mui­tas ho­ras com la­men­ta­ções, com re­fle­xões a res­peito des­ses fra­cas­sos, com pes­si­mismo, com uma ideia per­sis­tente de que nada mais vai dar certo na mi­nha vida, mas vou te di­zer uma coisa”, e ele me diz, “às ve­zes vem de al­gum lu­gar aqui den­tro”, e toca o peito com uma das mãos, “essa força que eu te disse, não é que eu a chame ou mesmo à queira, por­que quando a gente está de­pres­sivo pa­rece que nada vale a pena, muito me­nos re­cor­rer a um ânimo es­con­dido em al­guma parte de nosso corpo ou de nossa alma, mas as­sim mesmo essa força vem”, ele me en­cara, “as­sim mesmo ela vem, Márcio, não sei de onde, mas ela vem”.

Fa­la­mos mais al­gu­mas ba­na­li­da­des etc. Saí­mos à rua e nos des­pe­di­mos. Na mai­o­ria dos dias saio a pé. Não sei se é bo­ba­gem, mas pro­curo evi­tar o uso cons­tante do carro. Acho que é sau­dá­vel. Para o corpo e para o meio am­bi­ente. Co­me­cei a ca­mi­nhar pela cal­çada e na mi­nha ca­beça não ha­via a cal­çada. Ha­via o ca­mi­nho do sí­tio onde nasci e vivi até os sete anos, ha­via as ár­vo­res e o pé de jas­mim em frente à va­randa da casa da mi­nha avó, che­guei até a sen­tir seu aroma, ha­via a es­trada que leva à ci­dade, a ro­do­via que liga a Bauru, as ro­do­vias que li­gam a São Paulo e a ou­tras tan­tas ci­da­des onde tra­ba­lhei, ha­via uma es­trada des­co­nhe­cida tam­bém. Tal­vez para me mos­trar que ainda haja tempo de en­con­trar pelo ca­mi­nho essa mesma força es­tra­nha da qual ele me fa­lou.

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