Contos

Beijo de moça

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Texto de

Na pri­mei­ra vez, ela des­ceu os dois lan­ces de es­ca­das ves­tin­do je­ans e blu­sa bran­ca co­la­da à pe­le, um fio mo­re­no cla­ro de cin­tu­ra à mos­tra. Nos pés, um sal­to mé­dio. Pen­du­ra­va bol­sa a ti­ra­co­lo. Abriu o por­tão, foi pa­ra a rua. Até do­brar a es­qui­na, trin­ta e cin­co pas­sos, con­ta­dos. Es­pe­rei.

Vol­tou eram seis e pou­co, dia cla­ro ain­da. Su­biu os de­graus, a cal­ça jus­ta con­tor­nan­do os glú­te­os bem de­se­nha­dos. – “Que pe­da­ço!”, tes­te­mu­nhou o Cór­do­ba. Fi­ca­mos olhan­do até ela fe­char a por­ta. O ar­gen­ti­no me fi­tou com ca­ra de ta­ra­do. – “Sai pra lá”, em­pur­rei meu co­le­ga de re­pú­bli­ca e fui to­mar ba­nho. De­mo­rei.

No dia se­guin­te, lo­go ao acor­dar, con­sul­tei mi­nhas fi­nan­ças. Res­ta­vam uns tro­ca­dos, su­fi­ci­en­tes pa­ra com­prar um bi­nó­cu­lo de ca­melô. Le­van­tei, me ves­ti e vi que o Cór­do­ba já ha­via saí­do. Não sei por que, mas foi um alí­vio, co­mo se ele pu­des­se des­co­brir mi­nhas in­ten­ções se­cre­tas. Saí.

Às seis e pou­co, ain­da so­zi­nho em ca­sa, fui pa­ra a vi­dra­ça, ajo­e­lhei no so­fá e afas­tei um pou­co a cor­ti­na. Pa­ra um bi­nó­cu­lo de ca­melô, até que aque­le não era mau. Na va­ran­da da ca­sa de­la, um ta­pe­te com de­ta­lhes apa­ren­te­men­te egíp­ci­os co­bria um re­tân­gu­lo de la­dri­lhos li­sos an­tes da por­ta. Sor­ri.

Da­li a pou­co, em fren­te à ca­sa, ela des­ceu do car­ro de ou­tra ga­ro­ta. Dis­se qual­quer coi­sa, sor­riu e fi­cou dan­do tchau. A mi­nis­saia era bran­ca, a ca­mi­se­ta, de uma ban­da de rock qual­quer, pre­ta. Uma pre­si­lha er­guia o ca­be­lo e re­ve­la­va o pes­co­ço per­fei­to, sem ser lon­go nem cur­to, cor­res­pon­den­te à sua es­ta­tu­ra mé­dia. Aper­tei os den­tes de ci­ma con­tra o lá­bio in­fe­ri­or. San­grei.

Não pos­so afir­mar com cer­te­za, mas quan­do ela pas­sou pe­lo por­tão, an­tes de es­ca­lar os dois lan­ces de de­graus, ti­ve a im­pres­são de vê-la se vol­tar na di­re­ção da mi­nha ja­ne­la. Le­vei um sus­to. Sem que­rer, afrou­xei a mão e o bi­nó­cu­lo caiu so­bre o so­fá. Dei­xei a cor­ti­na se fe­char in­tei­ra­men­te. Su­ei.

Mui­to rá­pi­do, vol­tei à mi­nha po­si­ção an­te­ri­or, de jo­e­lhos so­bre o es­to­fa­do, bi­nó­cu­lo em pu­nho, mas ago­ra no ou­tro ex­tre­mo da vi­dra­ça. Ela ain­da es­ta­va lá fo­ra, me­xen­do com al­go atrás da mu­re­ta da va­ran­da. Um ga­to ra­ja­do, meio ama­re­lo meio bran­co. Lo­go ima­gi­nei que aque­la ce­na de­ve­ria ser ma­ra­vi­lho­sa se vis­ta do pé da es­ca­da. Ex­ci­tei-me.

Tão lo­go ela en­trou, o que não de­mo­rou mui­to, de­sa­bei so­bre o so­fá, exaus­to, co­mo se ti­ves­se aca­ba­do de cum­prir uma pe­sa­da ati­vi­da­de fí­si­ca. Nis­so, bem ao la­do, o Cór­do­ba afa­gou meu om­bro, sor­rin­do: – “É sé­rio, hein?” Al­guém po­de me di­zer de on­de es­se ca­ra apa­re­ce nas pi­o­res ho­ras? Dor­mi.

Tar­de da noi­te, o ar­gen­ti­no de­cer­to nas ba­la­das, eu acor­dei to­do mo­lha­do de su­or. Por vi­as de dú­vi­da, abri de­va­gar a cor­ti­na e olhei a ca­sa de­la. Es­ta­va fe­cha­da, a luz da fren­te, ace­sa. Li­guei a TV e fi­quei za­pe­an­do. Lá pe­las du­as, o mes­mo car­ro da tar­de es­ta­ci­o­nou. Ela des­ceu e lo­go en­trou. O Gol se afas­tou. So­nhei.

Vol­tei da au­la, o Cór­do­ba sem­pre saía à tar­de. Ou­tra vez, fi­quei so­zi­nho em ca­sa. De­ci­di ser mais ou­sa­do, se é que al­go as­sim po­de ser con­si­de­ra­do uma ou­sa­dia. Es­pe­rei por ela. Quan­do a vi do­bran­do a es­qui­na, adi­an­tei-me, mui­to ágil, a por­ta já aber­ta, e atra­ves­sei a rua. – “Oi, es­tou mo­ran­do aí em fren­te. Se­rá que vo­cê tem açú­car?”. Ad­mi­rei.

Ela não se as­sus­tou, mas foi pe­ga de sur­pre­sa. Sa­be quan­do a ga­ro­ta dá aque­le sus­pi­ro an­tes do cum­pri­men­to? Pois foi as­sim que ela fez. Nis­so, vi­rou a ca­be­ça aos pou­cos so­bre meu om­bro. Acom­pa­nhei o mo­vi­men­to, até ver, se­guin­do a su­til in­di­ca­ção de seus olhos ver­des, a lo­ja de con­ve­ni­ên­cia es­can­ca­ra­da pa­ra cli­en­tes co­mo eu. Co­rei.

Vol­tei a en­ca­rá-la. Ela ria um pou­co. En­tão, ri mais ain­da. Ela se apre­sen­tou, a Jo­a­na. Mui­to sim­pá­ti­ca. E lin­da, lin­da mes­mo. Eu lhe dis­se meu no­me, Mi­guel. – “Vo­cê quer açú­car?”. Cons­tran­gi­do, eu dei uma des­cul­pa qual­quer, que ha­via me es­que­ci­do da lo­ja bem ao la­do de ca­sa, coi­sas as­sim, e fui sain­do. Vol­tei.

Quan­do fe­chei a por­ta atrás de mim, meu co­ra­ção co­me­çou a ace­le­rar, ca­da vez mais for­te. Da­va me­do a ve­lo­ci­da­de com que ba­tia. Per­ma­ne­ci es­tá­ti­co, os olhos fe­cha­dos, não sei por quan­to tem­po. Na mi­nha ca­be­ça, só ha­via o sor­ri­so da Jo­a­na. –“Es­tá apai­xo­na­do mes­mo, ca­ra?” O Cór­do­ba já ti­nha che­ga­do. Es­tou.

Eu fa­zia com­pu­ta­ção, o ar­gen­ti­no, ar­qui­te­tu­ra. Ele me dis­se: – “Vo­cê quer ar­qui­te­tar um pla­no ou ir di­re­to ao pro­gra­ma?” Meu co­le­ga era sem­pre bem-hu­mo­ra­do, em­bo­ra eu não es­ti­ves­se a fim des­sas ti­ra­das to­las. Eu só que­ria al­guém que me dis­ses­se o que fa­zer, na­da mais. – “Ca­ra, não per­ca tem­po, não per­ca tem­po!” Per­di.

Fi­quei dois di­as nes­se cho­ve-não-mo­lha, nu­ma ho­ra com o bi­nó­cu­lo es­tra­te­gi­ca­men­te ins­ta­la­do em meio à cor­ti­na, nou­tra, di­zen­do oi ou tchau, ape­sar de meu de­se­jo ser um só: se­gu­rar a Jo­a­na pe­la cin­tu­ra e bei­jar sua bo­ca, bei­jar co­mo nun­ca nin­guém a bei­jou, co­mo ja­mais eu bei­jei al­guém. Tre­mi.

À noi­te, es­ta­ci­o­na­ram em fren­te, a por­ta da ca­sa se abriu, vi quan­do ela bei­jou a mãe e des­ceu. En­trou num car­ro es­por­te, des­ses ba­da­la­dos, che­gou mui­to per­to do ca­ra que es­ta­va ao vo­lan­te e en­cos­tou a bo­ca na de­le. O na­mo­ra­do ou sei lá quem ace­le­rou e os dois se fo­ram. Ati­rei o bi­nó­cu­lo ao chão. Pi­sei.

O Cór­do­ba ou­viu, mais tar­de, meu la­men­to. “Vo­cê de­mo­rou, ca­ra. Eu te dis­se, não te dis­se?” Ele ha­via di­to. En­tre­guei-me ao de­sa­len­to. Eu só que­ria po­der bei­jar a Jo­a­na. Não di­zem que um bei­jo é ca­paz de re­ve­lar to­do o seu amor? Sei lá se di­zem is­so, mas eu acre­di­to. Cho­rei.

Fo­ram du­as se­ma­nas in­fe­li­zes. Qua­se sem­pre, lá es­ta­va o na­mo­ra­do pa­ra bus­car a Jo­a­na. A mim, res­ta­va ima­gi­nar pa­ra on­de eles iam to­dos os di­as, o que fa­zi­am, se es­ta­vam se dan­do bem. Con­fes­so que eu não pen­sa­va em ou­tra coi­sa, em ca­sa, na fa­cul­da­de ou on­de es­ti­ves­se. Pi­rei.

Ao fi­nal de du­as se­ma­nas, nem um dia a mais, o su­jei­to não veio. Quem a pe­gou foi a ami­ga, aque­la do Gol. Che­gou à noi­ti­nha, co­mo sem­pre, e saí­ram jun­tas. Acho que cur­sa­vam in­glês ou al­go as­sim, já que a fa­cul­da­de a Jo­a­na fa­zia de ma­nhã. No dia se­guin­te, foi o mes­mo, e no ter­cei­ro dia, e no quar­to. Eles ter­mi­na­ram. De­cre­tei.

Ti­nha de ser ago­ra. A Jo­a­na sem nin­guém, eu com­ple­ta­men­te apai­xo­na­do. Re­sol­vi cer­cá-la ou­tra vez. Ela foi su­per­sim­pá­ti­ca, um do­ce. Se eu ti­ves­se um pou­co mais de co­ra­gem, te­ria abra­ça­do aque­la cin­tu­ra de um­bi­go per­fei­to e me ar­ris­ca­do. Tu­do ou na­da. To­me meu bei­jo e ve­ja se gos­ta. Fa­lhei.

Quan­do mi­nha in­su­por­tá­vel ti­mi­dez me per­mi­tiu, ti­ve a bri­lhan­te idéia de con­vi­dá-la pa­ra sair. Pu­xa, co­mo eu não ha­via pen­sa­do nis­so an­tes? E as­sim foi. Nós saí­mos, só que com to­do o pes­so­al de­la, ami­gos, ami­gas, ca­chor­ros, pa­pa­gai­os, en­fim, vol­ta­mos sem qual­quer chan­ce pa­ra mim, em­bo­ra ti­vés­se­mos tro­ca­do olha­res cúm­pli­ces. Quer sa­ber? As coi­sas es­ta­vam an­dan­do, afi­nal. Sos­se­guei.

O dia em que eu, fi­nal­men­te, a bei­jei foi as­sim: saí de ca­sa de­ci­di­do que o fa­ria, me ar­ru­mei o me­lhor que pu­de, ves­ti pa­le­tó e gra­va­ta, che­guei pró­xi­mo a ela, ha­via um chei­ro do­ce de flo­res no ar, aca­ri­ci­ei sem cons­tran­gi­men­to su­as mãos, do­brei-me so­bre seu ros­to e, am­bos de olhos fe­cha­dos, co­lei meus lá­bi­os aos de­la. Mais tar­de, fe­cha­ram o cai­xão e a le­va­ram. Mor­ri.

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