Contos

Um velho caderno

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014 Texto de

Sa­be aque­la me­ni­na so­bre quem já te fa­lei al­gu­mas ve­zes? Aque­la que tal­vez te­nha si­do uma pai­xão platô­ni­ca na es­co­la. É, es­sa aí. Ho­je eu a vi no­va­men­te.

Pe­lo jei­to de­ve mo­rar aqui por per­to ou tra­ba­lhar ou usar o mes­mo me­trô, não sei. Ah, vai co­me­çar? Vo­cê sa­be mui­to bem do que se tra­ta, vai. E daí que ela de­se­nha­va co­ra­çõe­zi­nhos no meu ca­der­no?

É is­so mes­mo, no in­ter­va­lo. Não é co­mo ago­ra. Na­que­le tem­po não da­va pra fi­car de pa­po du­ran­te as au­las. Au­la era au­la. To­do mun­do ti­nha cer­to res­pei­to, ou me­do, do pro­fes­sor. Bom, dei­xa is­so pra lá.

Não, to di­zen­do o lan­ce do res­pei­to na sa­la de au­la.

Con­tar ou­tra vez? Com es­sa sua re­a­ção de sem­pre? Eu não!

Tá le­gal.

Mas tam­bém con­tar o quê? Vo­cê já sa­be qua­se tu­do. Que eu acho que era apai­xo­na­do por ela. Que ela era lin­da. Que no in­ter­va­lo eu fa­zia de tu­do pra fi­car per­to de­la.

Às ve­zes, eu sen­ta­va bem jun­to no ban­co de ma­dei­ra on­de a gen­te co­mia pi­po­ca e to­ma­va re­fri­ge­ran­te. E qual­quer que fos­se o mo­vi­men­to, de um ou de ou­tro, nos­sas co­xas se res­va­la­vam.

Bo­ba­gem, eu sei. Mas es­tou te con­tan­do, vo­cê não pe­diu?

Não, nun­ca a bei­jei. Eu era tí­mi­do. Ver­da­de!

Acho que tem uma coi­sa que não te fa­lei. Lem­brei de re­pen­te. Não, não é is­so. Ela nun­ca me viu e eu não te­nho o me­nor in­te­res­se de fa­lar com ela ago­ra. Cer­tas fa­ti­as do tem­po não de­vem ser to­ca­das. De­vem ape­nas fi­car lá. Exis­tir pa­ra sem­pre.

É que... bom, quan­do eu fui pra fa­cul­da­de e dei­xei a ca­sa da mi­nha fa­mí­lia, co­mo é bas­tan­te co­mum nes­sas oca­siões, fiz uma boa fa­xi­na no meu quar­to. Jo­guei to­dos os ob­je­tos que não ser­vi­am mais pa­ra na­da. Sa­be es­se li­xo que a gen­te vai jun­tan­do du­ran­te anos? Uma pa­pe­la­da e tan­to, né?

Eu fui jo­gan­do, jo­gan­do, mas quan­do pe­guei o ca­der­no em que ela ti­nha de­se­nha­do os co­ra­çõe­zi­nhos... sei lá, tra­vei. Fi­quei um tem­pão olhan­do pa­ra a ca­pa plas­ti­fi­ca­da e ilus­tra­da por um qua­dril fe­mi­ni­no com um zí­per aber­to pe­la me­ta­de.

No can­to su­pe­ri­or di­rei­to, um dos co­ra­çõe­zi­nhos es­ta­va meio que des­tro­ça­do por uma “ore­lha” que qua­se ras­ga­va par­te da ca­pa. Mas den­tro ha­via mais de­les. To­dos mui­to pa­re­ci­dos: um co­ra­ção­zi­nho sem na­da es­cri­to em seu in­te­ri­or. Ape­nas o ris­co ca­pri­cha­do da ca­ne­ta fei­to pe­la mão da ga­ro­ta. Nem uma fle­chi­nha se­quer. Só o co­ra­ção­zi­nho.

En­tão, foi is­so. Eu não con­se­gui jo­gar fo­ra o ca­der­no. Eu o dei­xei ir fi­can­do no meio das mi­nhas coi­sas. Ho­je eu não sei on­de ele es­tá. Se em al­gum can­to das pra­te­lei­ras com os li­vros. Se em al­gu­ma ga­ve­ta. Ou mes­mo na ca­sa dos meus pais. Mas eu sei que ele es­tá em al­gum lu­gar. Eu sei que não jo­guei ele fo­ra, sa­be?

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