Crônicas

Um encontro casual

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014 Texto de
Calçadão da Getúlio (Foto João Rosan)

Cal­ça­dão da Ge­tú­lio (Fo­to João Ro­san)

- Aêêêê, Mar­cião! – eu ou­ço a ex­cla­ma­ção bem no in­ter­va­lo en­tre as mú­si­cas. Acho que ti­nha aca­ba­do de to­car “Dis­pa­ra­da” (com Jair Ro­dri­gues).

Ain­da meio con­fu­so, ve­jo o car­ro es­ta­ci­o­nar no meio fio. An­tes de pro­ces­sar o “Aêêêê, Mar­cião!”, che­go a ima­gi­nar mais al­guém pe­din­do in­for­ma­ções so­bre um en­de­re­ço qual­quer (sou ví­ti­ma dis­so, mas não li­go). Só que não. É re­al­men­te um ca­ra, num car­ro bran­co (que de­pois per­ce­bi não ter pres­ta­do aten­ção na mar­ca), me cha­man­do pe­lo no­me. Ou pe­lo me­nos foi o que en­ten­di.

- Opa! – ti­ro o fo­ne de ou­vi­do. – E aí?

- Tu­do cer­to, ra­paz? – ele fi­ca den­tro do car­ro, do la­do do mo­to­ris­ta, ou se­ja, do la­do de lá, de on­de es­ti­ca a mão pa­ra que eu a aper­te.

- Tu­do e vo­cê? – pre­ci­so abrir as per­nas de­sa­gra­da­vel­men­te pa­ra fa­lar avis­tan­do meu in­ter­lo­cu­tor. Ou é is­so ou ajo­e­lhar-me na cal­ça­da.

- Tu­do cer­to! Há quan­to tem­po – ele ti­ra os ócu­los es­cu­ros.

- Pois é – eu pre­fi­ro man­ter os meus.

Cla­ro, eu não sei quem é o su­jei­to que pa­rou o car­ro bran­co pa­ra fa­lar co­mi­go. Não me lem­bro. Aliás, mi­nha meia dú­zia de neurô­ni­os fu­ça, en­fu­re­ci­da, to­das as pos­si­bi­li­da­des: jor­nal Bom Dia, Diá­rio de Bau­ru, TV Tem, Bau­ru, So­ro­ca­ba, Rio Pre­to, Jun­di­aí, ba­res, res­tau­ran­tes, ca­fés, fes­tas, pu­ta­ri­as... Na­da!

- Con­ti­nua em Bau­ru? – ele pa­re­ce sa­ber que eu sou de Bau­ru.

- É, es­tou por aqui. E vo­cê, tá on­de?

Quem sa­be vem uma in­for­ma­ção apro­vei­tá­vel, uma di­ca, a cen­te­lha que me le­ve à sal­va­ção.

- Ah, o de sem­pre, ca­ra!

O de sem­pre ca­ra! Mui­to bem.

- E a fa­mí­lia? - es­sa cos­tu­ma ser in­fa­lí­vel.

- Ah, de­pois da­qui­lo fi­quei meio es­per­to, a gen­te vai apren­den­do, né? E vo­cê? Fez mui­to fi­lho?

- Te­nho uma fi­lha.

- Le­gal. Me­ni­na é sem­pre um ba­ra­to, né?

- É, sim.

(Nis­so, co­mo uma pe­dra­da, me vem o se­guin­te: se­rá mes­mo que ele dis­se “Aêêêê, Mar­cião!”? Por­que, não sei não, mas tem al­go er­ra­do aqui ou, no mí­ni­mo, es­tra­nho. Vol­to o dis­co à me­di­da do pos­sí­vel. Po­de­ria ter si­do “Aêêêê, Mar­cão”, “Aêêêê, Mar­lão!”, “Aêêêê, Mar­tão!”, Ma­rião, Car­lão e até ou­tros – lem­bre-se: eu es­ta­va ti­ran­do o fo­ne de ou­vi­do –, co­mo Pau­lão, Ta­tão, Ba­bão e até Ma­lão, não sei, co­mo sa­ber? Na ver­da­de, não sei se ele mes­mo não me con­fun­diu com ou­tra pes­soa!)

- A gen­te pre­ci­sa to­mar uma qual­quer ho­ra – ar­ris­co por­que es­sa é ti­po bom, be­le­za, ca­da um pro seu la­do, ok?

- Ra­paz, va­mos sim. Sa­be quem eu en­con­trei ou­tro dia? O Ti­não. Tá pa­re­cen­do uma bo­la. Ah! Ah! Ah! Pu­ta mer­da, bons tem­pos aque­les, né?

Aqui co­me­ça uma eta­pa pe­ri­go­sa do pro­ces­so. Bons tem­pos, mui­to “ão” da­qui, “ão” da­li, sa­be aque­le ne­gó­cio de uma épo­ca dis­tan­te que vo­cê não se lem­bra di­rei­to?

- Ahã...

Já es­tou ajo­e­lha­do. Ou pe­lo me­nos com o jo­e­lho di­rei­to co­la­do à cal­ça­da. De­bru­ça­do so­bre a por­ta. O vi­dro não des­ce to­tal­men­te. Fi­ca aque­le incô­mo­do no an­te­bra­ço. Ago­ra vou ten­tar uma car­ta­da que po­de ser de­ci­si­va.

- Tá tra­ba­lhan­do on­de ago­ra?

- Mes­mo lu­gar, ca­ra! Vo­cê sa­be, não sou mui­to de fi­car pu­lan­do pra lá e pra cá.

Eu sei?

- Cer­to. É, is­so tem lá su­as van­ta­gens. Mas e o seu pes­so­al?

- Ah, vo­cê sa­be, da­que­le jei­to de sem­pre.

- Sei... Bom, é is­so aí, va­mos que va­mos, o ne­gó­cio é não de­sis­tir - sol­to uma ri­sa­da tão bes­ta que dá von­ta­de de, eu mes­mo, me es­ta­pe­ar.

- Ra­paz, is­so aí. Foi bom te ver, viu? - es­ti­ca a mão no­va­men­te.

De ime­di­a­to, eu me er­go da cal­ça­da e aper­to a mão de­le.

- Opa, idem! A gen­te se vê.

- Se vê sim, tu­do de bom pra vo­cê!

- Pra vo­cê tam­bém!

Já em pé, en­xu­go o su­or da tes­ta. Pas­sa um pou­co das seis da tar­de, mas o sol es­tá de ra­char (es­te fa­to ro­lou na quar­ta-fei­ra, 12 de fe­ve­rei­ro, na ave­ni­da Ge­tú­lio Var­gas, em Bau­ru). Quan­do bo­to no­va­men­te o fo­ne de ou­vi­do, já es­tá to­can­do uma mú­si­ca do Ti­tãs que eu gos­to mui­to.

“Mar­vin, ago­ra é só vo­cê
E não vai adi­an­tar
Cho­rar vai me fa­zer so­frer...”

Re­to­mo a ca­mi­nha­da e ve­jo lá na fren­te, vin­do em mi­nha di­re­ção, o Ade­mir Eli­as, jor­na­lis­ta que eu co­nhe­ço. Ele tam­bém me co­nhe­ce. Co­mo é bom às ve­zes sen­tir os pés no chão nes­te mun­do aqui da ter­ra.

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