Crônicas

Oração para Yuri e Assis

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014 Texto de

yuri (foto que peguei no site do JC)Assis (foto do site do JC)
(Fo­tos do site do JC – acima, Yuri; abaixo, As­sis)

Yuri e As­sis

Eu não os co­nheci, mas pre­ciso incomodá-los com es­tas pa­la­vras. Não sei bem o que elas são: uma ho­me­na­gem, um de­sa­bafo ou ape­nas a ne­ces­si­dade de expulsá-las de den­tro de mim.

Em­bora eu seja um cara de certo modo fa­cil­mente im­pres­si­o­ná­vel, pou­cas ve­zes pen­sei tanto em mor­tes alheias ao meu cír­culo de con­vi­vên­cia como nas de vo­cês.

A do Yuri, uma vi­o­lên­cia bru­tal.

A do As­sis, a cha­mada morte na­tu­ral.

Mas o que pode ser mais bru­tal do que uma “morte na­tu­ral”?

E nes­tes tem­pos, em que a vida pa­rece cada vez mais ba­nal, o que pode ser mais na­tu­ral do que uma morte bru­tal?

Elas se en­tre­la­çam cru­el­mente. Bru­tal ou na­tu­ral, aca­bam com sor­ri­sos, pla­nos, so­nhos.

Di­zem que para a eter­ni­dade uma vida não passa de um se­gundo, um pis­car de olhos.

Mas o caso é que não vi­ve­mos em ne­nhuma porra de eter­ni­dade. Vi­ve­mos aqui. Agora. Le­va­dos adi­ante pela pro­pul­são de um tempo avas­sa­la­dor cuja di­men­são des­co­nhe­ce­mos com­ple­ta­mente, em­bora sai­ba­mos olhar as ho­ras.

E neste tempo, que mar­cou até do­mingo (para você, As­sis) e até hoje (para você, Yuri) a li­nha de duas vi­das cor­ta­das por uma fi­an­deira sem co­ra­ção, neste tempo de ci­la­das en­ge­nho­sas, to­das as fe­li­ci­da­des e to­das as tris­te­zas po­dem ser ex­ten­sas de­mais ou muito cur­tas.

Penso na ja­nela que abri nesta ma­dru­gada, umas duas e pouco ou três ho­ras, tal­vez bem perto do mo­mento de sua par­tida, Yuri. Re­pen­ti­na­mente sem sono, um ca­lor dos di­a­bos, olhei lá fora e o céu es­tava todo es­tre­lado. Mas as fo­lhas das ár­vo­res da rua não se me­xiam.

Até que me vi­rei na cama e num re­pente senti uma leve brisa var­rer mi­nhas cos­tas. E ima­gi­nei uma crô­nica: ela se cha­ma­ria “O so­pro de Deus”.

Pla­ne­jei es­cre­ver que o pra­zer da­quela brisa em mi­nha pele ha­via sido tão ín­fimo exa­ta­mente para que eu com­pre­en­desse a es­sên­cia de to­das as ale­grias, quem sabe, de to­das as fe­li­ci­da­des: e não era ou­tra coisa se­não que a bre­vi­dade as va­lo­riza e as in­ten­si­fica (as ale­grias e, quem sabe, as fe­li­ci­da­des).

As­sim, Yuri e As­sis, por causa de vo­cês, de sua vida cor­tada abrup­ta­mente, de seus pla­nos es­tra­ça­lha­dos, de seus so­nhos ca­den­tes num uni­verso in­fi­nito, por causa de vo­cês, eu sinto que pre­ciso ser me­lhor do que sou, fa­zer me­lhor do que faço. Cada se­gundo im­porta. Cada ins­tante é fun­da­men­tal.

Quero re­for­çar mi­nha in­ten­ção de agir com ética e ho­nes­ti­dade em mi­nha pro­fis­são, com amor e com­pai­xão em mi­nha vida mun­dana, com pa­ci­ên­cia e com­pre­en­são em mi­nhas in­cur­sões es­pi­ri­tu­ais.

Quero de­di­car essa mi­nha in­ten­ção a vo­cês dois. E a to­dos que mor­rem jo­vens. Para abran­dar mi­nha cons­ci­ên­cia. Para sen­tir me­nos ver­go­nha por con­ti­nuar vi­vendo.

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