Crônicas

Fragmento

terça-feira, 14 de janeiro de 2014 Texto de

- Ok, ok, vo­cê tem ra­zão: sou ra­bu­gen­to. Mas só às ve­zes. Sou cha­to tam­bém, mas tam­bém só às ve­zes. O que vo­cê quer, afi­nal? Que eu saia pe­la rua rin­do fei­to um idi­o­ta? Tá cer­to, tu­do bem, se eu ti­ves­se mo­ti­vos até sai­ria. Fa­ço o que bem en­ten­der. Fo­da-se. Mas o que há as­sim de tão es­pe­ta­cu­lar pa­ra que eu não du­vi­de dis­to tu­do? Da pos­si­bi­li­da­de de al­can­çar o que to­dos pro­cu­ram? Vo­cê se sen­te tão fe­liz ao pon­to de dis­tri­buir sor­ri­sos em ca­da es­qui­na? Ah, é? Pois en­tão vá em fren­te! Sor­ria! Aliás, pro­va­vel­men­te vão te fil­mar. Sor­ria! Sor­ria! Mas eu? Por que mo­ti­vo eu de­vo sor­rir co­mo um robô pro­gra­ma­do pa­ra sor­rir? Achar tu­do lin­do, con­si­de­rar ape­nas os pon­tos po­si­ti­vos, ver o la­do bom da vi­da, cair de jo­e­lhos di­an­te des­te dog­ma so­ci­al, pai eter­no da in­cons­ci­ên­cia, da ne­gli­gên­cia... Bo­ba­gens. Bo­ba­gens e mais bo­ba­gens. Tu­do bem, con­cor­do: o oti­mis­mo po­de aju­dar. Mas tam­bém não é pre­ci­so ves­tir uma más­ca­ra de fal­sa fe­li­ci­da­de. Co­mo é? Por­ra, mas não es­tou me re­fe­rin­do es­pe­ci­fi­ca­men­te a vo­cê! A quem? Sei lá, não te­nho uma pes­soa em men­te. Te­nho ape­nas a ideia, um arqué­ti­po, só is­so. Olha, o fa­to é que, é que, bem, o fa­to ao me­nos pa­ra mim é que não dá pa­ra for­çar a bar­ra, sa­be? En­xer­gar o dia azul, bri­lhan­te... um sol da­que­les ama­re­li­nhos e sor­ri­den­tes co­mo nas pá­gi­nas dos ca­der­nos in­fan­tis. Não dá! Fe­li­ci­da­de não se es­tu­pra... Ah, vo­cê sa­be do que es­tou fa­lan­do. Tá bem, por­ra! Na­da se es­tu­pra! E a fe­li­ci­da­de tam­bém não, ok? Dá pra ne­go­ci­ar is­so co­mi­go? Olha, me des­cul­pe, sim? Me des­cul­pe se dou pou­cas chan­ces ao sor­ri­so ba­ra­to, à ale­gria sem sen­ti­do... É que... bom, ve­ja à sua vol­ta. Se­rá que es­tou exa­ge­ran­do? Es­tou? É? Tá bom, pos­so es­tar, por que não? Sou tão im­per­fei­to quan­to são os sor­ri­sos ba­ra­tos e as ale­gri­as sem sen­ti­do. Por­tan­to, ad­mi­to a te­se do exa­ge­ro. Mas is­so não mu­da na­da pra mim, na­da, na­da. Mi­nha an­gús­tia con­fu­sa, meu pa­la­dar tur­bu­len­to, a vi­são bru­tal do ce­ná­rio frá­gil cu­ja sus­ten­ta­ção cons­ti­tui-se ape­nas do sor­ri­so ba­ra­to e da ale­gria sem sen­ti­do, des­pro­vi­dos do bom sen­so, da mí­ni­ma do­se de ló­gi­ca, es­sa né­voa ape­nas se aden­sa adi­an­te. É, eu sei. Mas es­sa é a sen­sa­ção opres­so­ra que me per­se­gue, com­pre­en­de? Com­pre­en­de? Vem cá, me dá sua mão? Vem... Vo­cê sa­be que só as­sim pos­so en­tre­a­brir es­sa por­ta pe­sa­da, só as­sim con­si­go es­pi­ar aí fo­ra. E até sor­rir con­ti­go. Sa­be co­mo é? As­sim, bem as­sim...

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