Contos

Vozelindo

sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014 Texto de

Al­vo­re­cer. Ele pa­rece pi­sar em fal­so em seu pro­gresso pe­la es­tra­di­nha que li­ga o pe­queno sí­tio à ci­dade. Vai meio as­sim, de ban­da. O pri­meiro sol ba­te em meia fa­ce. No en­calço, emen­dam-se os ne­tos pe­que­nos: o Pe­dro e a Lú­cia. De ma­nhã, sem­pre é as­sim. Le­va as cri­an­ças e as ver­du­ras. En­quanto es­tu­dam umas, ven­dem-se as ou­tras.

Cul­ti­var al­fa­ces, cou­ves e chu­chus foi o que lhe res­tou de­pois do der­rame. Um la­do só, res­ponde aos que per­gun­tam dos efei­tos. O ou­tro me­xe co­mo an­tes.

Pa­ra os ne­tos, a fa­mí­lia e os ou­tros, jun­ta à apa­rên­cia to­do o âni­mo que so­brou, mas as­sim mes­mo é pre­ciso bus­car mais, não se sa­be on­de. De si pa­ra si, põe-se re­ni­tente. Ar­ras­tar o pe­so dum la­do não lhe con­vence nem um pou­co.

Aten­de com a cor­te­sia de sem­pre às fe­li­ci­ta­ções pe­lo res­ta­be­le­ci­mento, mas in­ti­ma­mente pe­de a Deus que lhe man­de a ou­tra par­te do cas­tigo. En­quanto es­pera o fim da ma­nhã e da au­la dos ne­tos, sen­ta-se num ban­co di­ante da qui­tan­da.

Ali, põe-se a pen­sar na vi­da, em seus di­as de saú­de, no tra­ba­lho pe­sado do cam­po, na man­gueira de va­cas lei­tei­ras, no es­tá­bulo com os ca­va­los mas­ti­gando mi­lho, nas sa­ca­rias em­pi­lha­das das tu­lhas.

Tam­bém as coi­sas ruins so­bre­vêm: a ge­ada bra­va, a es­ti­a­gem ru­de, a mor­te da mu­lher An­to­nia, a sau­dade doí­da. Mas na­da dis­so jus­ti­fica tor­nar-se me­tade, pen­sa ele. Olha com des­dém pa­ra a mão re­tor­cida, tem von­tade de chu­tar a per­na ador­me­cida. Quei­xa-se a um com­pa­dre. De que me va­le ain­da a vi­da as­sim?

Da­li a pou­co, vem a qui­tan­deira. Te­resa é seu no­me. Foi ela quem lhe su­ge­riu o cul­tivo das hor­ta­li­ças, um tra­ba­lho le­ve e que dis­trai. Dis­se-lhe is­so na­quela vez, e ele acei­tou. Sem­pre acei­tava o que lhe di­zia Te­resa. Os dois já es­tão ve­lhos, é ver­dade. Mas têm his­tó­rias pa­ra guar­dar. Até ou­tro dia, ain­da mis­tu­ra­vam-se de­baixo dos len­çóis.

Quan­do ain­da no­va, a mu­lher An­to­nia ti­nha-lhe olhos gru­da­dos, des­con­fi­ava de su­as pe­ri­pé­cias, mas as­sim mes­mo ele es­ca­pava pa­ra ir ver a Te­resa de ma­rido vi­a­jante. De­pois, na bei­ra da ve­lhice, a mu­lher An­to­nia, aos pou­cos, des­vi­ou-se des­ses de­se­jos. Mas ele não. A qui­tan­deira tam­bém não. O ma­rido vi­a­jante vi­a­jou pa­ra sem­pre, e os dois en­tão vi­ram-se li­vres de uma vez.

Ago­ra, en­tre­tanto, o cas­tigo do der­rame to­mou-lhe a pre­ci­são. Te­resa o con­sola. Até se di­verte: já se fez mui­to. E sor­ri. Mas pa­ra ele, res­ta só um meio ho­mem, as­sim mes­mo: de que me va­le ain­da vi­ver? A Te­resa sa­code o aven­tal e en­tra.

Lá adi­ante, na di­re­ção da es­cola, des­ponta a fi­gura do Pe­dro. Vem em dis­pa­rada o me­nino. Ca­dê a Lú­cia? É o que pen­sa o ve­lho, er­guen­do-se com di­fi­cul­dade – quan­do ele se sen­ta por mui­to tem­po, os mo­vi­men­tos pa­re­cem di­mi­nuir. Ge­me pa­ra res­ga­tar a per­na de seu ca­la­bou­ço.

An­tes que o ne­to che­gue, ele vai ao seu en­con­tro, ar­ras­tan­do-se, ofe­gando. Vai meio as­sim, de ban­da, o la­do es­querdo en­du­re­cido. Ape­sar de in­tri­gado, não es­quece de se mal­di­zer e à sua con­di­ção. Pe­de sem­pre a Deus pe­lo res­tante do cas­tigo man­dado a pres­ta­ção.

E a sua ir­mã? Mas o Pe­dro só olha pa­ra o avô, es­tá qua­se sem fa­la. Com es­forço, bal­bu­cia umas pa­la­vras: o mo­ço, o ho­mem cha­mou... Ago­ra, o ve­lho des­preza seu es­tado, ar­re­mete à fren­te num ím­pe­to do­en­tio, mas não po­de agir co­mo de­seja, es­for­ça-se co­mo um bur­ro que con­duz o ara­do, pu­xa com brio sua me­tade des­fa­le­ci­da.

On­de? On­de? Se­gura o bra­ço do ne­to sem ter tem­po de mi­rá-lo. Por ali. O me­nino apon­ta um ter­reno bal­dio. Há ma­to al­to em meio a es­com­bros de an­ti­gas cons­tru­ções aban­do­na­das. O per­curso tor­na-se ain­da mais in­justo pa­ra um ve­lho do­ente. Já lhe fal­ta o fô­lego, tan­to que ha­via pa­ra ele em ou­tros tem­pos.

Avan­çam os dois, avô e ne­to, por en­tre o ca­pim e a al­ve­na­ria des­pe­da­çada. O pe­queno tro­peça, voa por so­bre ti­jo­los e ma­dei­ras apo­dre­ci­das, o ris­co de san­gue na tes­ta, po­rém, não sus­pende sua in­ves­tida. Se­gue atrás do ve­lho, que já não po­de com as pa­la­vras. Por pou­co, não se sus­tenta mais so­bre a per­na sa­dia. O can­saço trans­for­ma-se em dor, uma dor que se es­pa­lha de­pressa. A vi­são se em­baça. Ele per­cebe, en­tão, que po­de lhe fal­tar o tem­po.

Es­tão qua­se no fun­do do ter­reno. A for­ça se es­vai, ele tem ple­na cons­ci­ên­cia. Foi as­sim que co­me­çou o ou­tro, ele se lem­bra. Seu pe­dido, en­fim, se­rá aten­dido, mas ago­ra cla­ma por um pra­zo mai­or, só um pou­co mais. Di­ante de­le, os fei­xes de ca­pim são ape­nas fi­nas som­bras es­cu­ras que pen­dem à bri­sa. Mas as­sim mes­mo ele con­ti­nua. E ali es­tá a Lú­cia. O ve­lho sa­be que aque­la cri­ança que ele não po­de mais dis­tin­guir é sua ne­ta. Pre­pa­ran­do-se pa­ra ati­rar-se so­bre ela, há um vul­to qual­quer. Ele sa­be que se tra­ta do mo­ço, o ho­mem ao qual se re­fe­riu o Pe­dro. Num ins­tante ab­surdo, sal­ta so­bre ele e en­gan­cha-se em seu pes­coço. Com o au­xí­lio do ou­tro, o bra­ço alei­jado ser­ve co­mo ala­vanca. Um pes­coço é es­pre­mido. O pe­so do cor­po meio-mor­to cai so­bre o vul­to. E ali per­ma­nece. A ou­tra par­te do cas­tigo re­caiu-lhe, en­fim. O Pe­dro re­tira o len­ço que amor­daça a ir­mã. Lo­go, sob sua ex­pres­são de de­ses­pero, a voz rou­ca que bra­ma pe­lo Vo­ze­lindo atrai a aten­ção dos vi­zi­nhos. Vem a Te­resa, vem o com­pa­dre, vêm um e ou­tro co­nhe­cido. Di­ante de to­dos, atar­ra­cam-se dois ho­mens que mor­re­ram há pou­cos se­gun­dos, su­fo­ca­dos, as­fi­xi­a­dos, sem com­pre­en­der por que vi­vem mais ou vi­vem me­nos.

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