Crônicas

Tia Joaquina (1929 - 2013)

sábado, 16 de novembro de 2013 Texto de
As tias Maria e Joaquina (a do meio) e o tio Nego, no sítio há uns vinte e poucos anos

As ti­as Ma­ria e Jo­a­qui­na (a do meio) e o tio Ne­go, no sí­tio há uns vin­te e pou­cos anos

A se­nho­ra me da­va ba­nho; me la­va­va os pés an­tes de me pôr pa­ra dor­mir; me co­bria com mil co­ber­to­res no frio; me es­pe­ra­va lá fo­ra com uma lam­pa­ri­na ace­sa na mão en­quan­to eu fa­zia aqui­lo; me lim­pa­va; me com­pra­va aque­le sa­co de ba­las que eu gos­ta­va tan­to; me le­va­va jun­to até o ce­mi­té­rio pa­ra a aven­tu­ra de la­var e ar­ru­mar a ca­pe­li­nha; me dei­xa­va pe­gar aque­le le­que que era o seu pre­fe­ri­do pa­ra as noi­tes quen­tes de ci­gar­ras e va­ga­lu­mes; me per­gun­ta­va se aque­le ves­ti­do co­lo­ri­do pre­do­mi­nan­te­men­te azul com flo­re­zi­nhas ver­me­lhas es­ta­va bom pa­ra ir à ci­da­de; me le­va­va pa­ra na­dar no rio jun­to com meus pri­mos; me dei­xa­va le­var o bal­de de água pa­ra a san­ta cruz; me acon­che­ga­va quan­do vi­nham as tem­pes­ta­des e a vo­vó cho­ra­va de­ses­pe­ra­da­men­te de me­do; me dei­xa­va fi­car per­to da­que­la quen­tu­ra do tor­ra­dor de ca­fé en­quan­to a se­nho­ra, de len­ço amar­ra­do na ca­be­ça e sen­ta­da na­que­le ban­qui­nho de ma­dei­ra, gi­ra­va o ci­lin­dro so­bre as bra­sas; me dei­xa­va ad­mi­ra­do com sua ca­pa­ci­da­de de su­bir nos pés pa­ra apa­nhar la­ran­jas; me fa­zia rir com seus pei­dos de­bai­xo das co­ber­tas; me abriu a pri­mei­ra ca­der­ne­ta de pou­pan­ça na cai­xa es­ta­du­al.
Mas is­so foi an­tes, bem an­tes...

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