Crônicas

A madrugada do pastor

terça-feira, 5 de novembro de 2013 Texto de
O pastor desta crônica é parecido com este

O pas­tor desta crô­nica é pa­re­cido com este

Quando eu a vejo, quase corro em sua di­re­ção. Tiro o fone de ou­vido.

– Oi, boa tarde. Des­culpe in­co­mo­dar…

A dona da casa está ao por­tão. Faz dias que es­pero encontrá-la, em­bora nunca te­nha fa­lado com ela an­tes. O caso é que não vejo o ca­chorro da­quele quin­tal, um pas­tor ale­mão, há duas ou três se­ma­nas. No iní­cio, pen­sei numa coin­ci­dên­cia. Passo por lá ge­ral­mente ape­nas uma ou duas ve­zes por dia. E por acaso ele po­de­ria es­tar nos fun­dos.

Mas os dias fo­ram cor­rendo e mi­nha apre­en­são, cres­cendo.

O pas­tor de ore­lhas aten­tas e olhos in­ten­sos cos­tuma vir à grade na mai­o­ria das oca­siões. E, la­tindo, me acom­pa­nha du­rante todo o tra­jeto de seu quin­tal de es­quina. En­tre­tanto, há dias que não. E eu acho cu­ri­oso que ele ape­nas me en­care lá de den­tro, em­pine as ore­lhas e, com certo de­sâ­nimo, dê a en­ten­der hoje não, cara, hoje não es­tou a fim.

Eu tam­bém o ouço nas ma­dru­ga­das. Seu la­tido po­tente res­gata frag­men­tos ime­mo­ri­ais da es­pé­cie e, não sei o porquê, me trans­fere a es­tra­nha sen­sa­ção de se­gu­rança. Não é a pro­te­ção ba­nal con­tra la­drões. É mais que isso. É algo como um sur­real cer­ti­fi­cado so­bre a exis­tên­cia do mundo. 

Por­tanto, sua au­sên­cia es­tava pe­sando.

– E o ca­chorro? Não vi mais…

Na con­versa de apro­xi­ma­da­mente dez mi­nu­tos, fico sa­bendo o mo­tivo da­quele de­sâ­nimo que às ve­zes o deixa pros­trado. Faz vá­rios me­ses que luta con­tra uma grave do­ença.

– Em ja­neiro, um ve­te­ri­ná­rio disse que se ele não fosse sa­cri­fi­cado, te­ria que pas­sar por um tra­ta­mento diá­rio – ex­plica sua dona. Aten­ci­osa, emenda: – não, que é isso, acha que ía­mos sa­cri­fi­car?

De ja­neiro a ou­tu­bro, la­vam a fe­rida cinco ou seis ve­zes ao dia. Um pa­rente, tam­bém ve­te­ri­ná­rio, pro­põe levá-lo para sua chá­cara. Mas a fa­mí­lia não quer se se­pa­rar do pas­tor.

– Eu criei ele, que­ria ele aqui – diz. – Ou­tro ve­te­ri­ná­rio nos disse “va­mos re­cu­pe­rar o ca­chorro” e co­me­ça­mos a dar to­dos os re­mé­dios re­cei­ta­dos.

Mas o pas­tor per­deu a guerra. 

– Olha, vou di­zer para a se­nhora que es­tou muito cha­te­ado com a no­tí­cia – digo a ela, cha­te­ado com a no­tí­cia. – Ele me acom­pa­nhava desde aquele canto até aqui, eu gos­tava muito dele.

– Ai – lamenta-se a mu­lher, – acho que eu não quero mais ca­chorro. A gente cria e de­pois…

– En­tendo – eu a con­solo. – Tem um caso pa­re­cido na mi­nha fa­mí­lia.

Ela ainda dá mais al­guns de­ta­lhes so­bre o cal­vá­rio do pas­tor.

– Bom, vo­cês fi­ze­ram o que pu­de­ram – co­mento bo­ba­mente e, com um nó besta na gar­ganta, digo que vou indo.

– Muito obri­gada, viu? – ela diz en­cos­tada ao por­tão do quin­tal agora va­zio. – Foi bom sa­ber que o se­nhor (pois é…) gos­tava dele. Ti­nha gente que xin­gava quando ele la­tia, mas ele era um amor. 

Sem mais, sigo meu ca­mi­nho. Ajeito no­va­mente o fone de ou­vido e Zé Ra­ma­lho está can­tando:

“Eu desço dessa so­li­dão
Es­pa­lho coi­sas so­bre um chão de giz
Há me­ros de­va­neios to­los a me tor­tu­rar…”

Ainda são oito e meia. Falta muito para a ma­dru­gada. Mas agora eu já sei que en­tre to­dos os fenô­me­nos so­no­ros que vão ocupá-la com suas va­ri­a­das vi­bra­ções não es­tará o que eu mais gos­tava.

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