Crônicas

Primeiras noções

quarta-feira, 16 de outubro de 2013 Texto de
Foto: Narciso Contreras/AP

Foto: Nar­ciso Contreras/AP

– Pri­meiro se po­si­ci­one atrás do fu­zil, de ma­neira con­for­tá­vel mas firme. Na hora do su­foco pode não dar tempo de es­co­lher a me­lhor po­si­ção, mas pelo me­nos você tem que es­tar bem apoi­ada, em pé ou dei­tada, certo?
 – Certo.
 – Bom, uma das mãos vai sus­ten­tar o cano, que é muito pe­sado e tende a bai­xar.
 – Tá bom.
 – Mas não po­nha a mão no cano, ela vai se quei­mar quando pas­sar a mu­ni­ção.
 – En­tão onde eu se­guro?
 – Mais pra trás, no guarda-mão, jus­ta­mente por isso tem esse nome.
 – Ah, tá.
 – Agora en­coste a so­leira da co­ro­nha no om­bro, e des­canse a maçã do rosto na co­ro­nha, do jeito que eu es­tou fa­zendo.
 – As­sim?
 – Isso mesmo. A sua mão desse mesmo lado vai se­gu­rar o pu­nho do fu­zil e o dedo in­di­ca­dor vai des­can­sar na te­cla do ga­ti­lho, pronta pra ser aci­o­nada.
 – É a mesma coisa que aper­tar o ga­ti­lho?
 – É, mas deixa isso pros cow­boys. No nosso ofí­cio nós di­ze­mos aci­o­nar a te­cla do ga­ti­lho. Bem de­va­gar e con­ti­nu­a­mente, pra não per­der o alvo com um mo­vi­mento brusco. En­ten­deu?
 – Acho que sim.
 – An­tes de su­bir­mos aqui pro ter­raço você disse que es­tava com um pouco de medo, lem­bra?
 – Lem­bro.
 – E agora?
 – Só um pou­qui­nho, tá me­nos.
 – Mais tarde, quando você sen­tir o cheiro da pól­vora de­pois do seu pri­meiro tiro, vai ver muita coisa mu­dar.
 – Como as­sim?
 – Na hora você vai en­ten­der o que es­tou fa­lando.
 – Ah, é?
 – Pode apos­tar. Bom, con­ti­nu­ando. Afaste a tam­pi­nha da lu­neta e co­mece a pro­cu­rar o alvo.
 – Por que a lu­neta tem uma tam­pi­nha?
 – Por­que de­pen­dendo do lo­cal onde você se po­si­ci­o­nar, o vi­dro da lu­neta vai dar re­flexo e vão te lo­ca­li­zar.
 – Ah, en­tendi, isso não é bom… E quem a gente vai acer­tar?
 – Nin­guém. Hoje só es­tou te pas­sando as di­cas de po­si­ci­o­na­mento pra você ir se acos­tu­mando com o peso do fu­zil e com a ma­neira de se­gu­rar sua arma.
 – Só isso?
 – Por en­quanto, é.
 – Mas en­tão quando eu vou co­me­çar de ver­dade?
 – Nessa pro­fis­são é pre­ciso ter pa­ci­ên­cia e au­to­con­trole, fi­lha. Co­me­çar de ver­dade, só quando você fi­zer 11 anos.

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