Madrugadinha | Márcio ABC

Crônicas

Madrugadinha

sexta-feira, 21 de junho de 2013 Texto de

Dor­mi du­as ho­ras e meia. Das 2h30 às 5h. Le­van­to sen­tin­do cer­ta ten­são jun­to com uma se­de in­co­mum, vou até a ge­la­dei­ra be­ber água. Mas no fun­do não é is­so que eu que­ro. Que­ro mes­mo li­gar a TV. E li­go. Igre­jas e mais igre­jas fa­lan­do de deus e o di­a­bo. En­cer­ra­men­to de pro­gra­ma­ção na Cul­tu­ra. Cur­so não sei de quê na Glo­bo. Fil­mes re­pe­ti­dos. En­tre­vis­tas ve­lhas. Ven­das. De­ba­tes que já ha­vi­am ro­la­do so­bre as ma­ni­fes­ta­ções por to­do o país. Afas­to um pou­co a cor­ti­na e olho lá fo­ra. As lu­zes da rua ain­da es­tão ace­sas. Há um céu in­cer­to lá lon­ge e uma des­car­ga no apar­ta­men­to de ci­ma. Abro o no­te­bo­ok e as man­che­tes são as mes­mas de ago­ra há pou­co. Fe­cho, des­cas­co uma pon­cã que es­tá pas­sa­da e vai pa­ra o li­xo, mi­jo, dei­to, uma ra­la cla­ri­da­de co­me­ça a se in­fil­trar no quar­to. Bo­to rou­pa e, coi­sa que nun­ca fa­ço, vou bus­car al­go pra co­mer aqui per­to. A mo­ça do cai­xa me diz bom dia com seu lin­do de­co­te an­tes que eu saia à rua. Um co­ra­ção de­se­nha­do com o de­do en­fei­ta o vi­dro em­ba­ça­do do car­ro bran­co. Já em ca­sa, um ca­sal de pom­bos ar­ru­lha so­bre a bei­ra­da da ja­ne­la. Pra sa­ca­ne­ar, eu os as­sus­to com le­ves ba­ti­das no me­tal. Um olha pa­ra o ou­tro e re­sol­vem le­van­tar voo. Ago­ra o dia já ama­nhe­ce. Es­tá nu­bla­do, mas há cla­rões. Ho­je, ama­nhã ou de­pois, o sol sem­pre vem. E nós sem­pre va­mos.

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