Crônicas

Aqueles meninos

terça-feira, 25 de junho de 2013 Texto de

O tempo vai pas­sando, a vida se trans­forma aos pou­cos, mas você não está lá para ver a sequên­cia de qua­dri­nhos de­se­nha­dos por Deus ou por um ali­e­ní­gena que desde tem­pos ime­mo­ri­ais brinca com a gente (ou nada disso, não há de­se­nho de qua­dri­nho ne­nhum e nós mes­mos é que nos me­xe­mos con­forme nos­sas for­ças). Mas, en­fim, você não está lá, não é oni­pre­sente. De re­pente, as coi­sas já mu­da­ram. E você não viu to­das as eta­pas.

De vez em quando eu me re­en­con­tro com pes­soas que eram cri­an­ças e cres­ce­ram! Ve­jam o ab­surdo: cres­ce­ram! E eu ainda me as­susto com as pe­ri­pé­cias de mo­lé­cu­las in­sa­nas que não fa­zem ou­tra coisa se­não le­var tudo adi­ante.

Con­verso com ga­ro­tos que, nos car­na­vais da vida, en­si­nei a mi­jar nos be­cos. Eles lem­bram e co­men­tam, ani­ma­dos, com toda a ener­gia que pro­vém dos vinte e pou­cos anos, trinta, sei lá. 

So­bri­nhos, ami­gos dos so­bri­nhos, ami­gos dos ami­gos. Jo­gos de com­pu­ta­dor, au­to­ra­mas, pes­ca­rias, car­na­vais, bo­ba­gens para diverti-los. Tudo fi­cou lá atrás. To­dos nós dei­xa­mos um pouco de to­dos nós lá atrás. 

Às ve­zes, en­tre os te­mas sé­rios da atu­a­li­dade, o que você faz, onde mora, o que acha disso e da­quilo, abre-se um pe­queno es­paço para o que dei­xa­mos pelo ca­mi­nho. E pro­curo me con­ten­tar com isso. É o que dá pra fa­zer a esta al­tura do cam­pe­o­nato.

Aque­les me­ni­nos hoje são ho­mens. E di­ante dessa re­a­li­da­de­zi­nha cruel, um gosto amargo vai cres­cendo nas la­te­rais da lín­gua (será que é ali mesmo?), aquela vo­zi­nha sa­cana sus­sur­rando: se eles já são ho­mens, o que você é, hein, hein? Até ouço a ri­sa­di­nha de es­cár­nio ecoar nos meus tím­pa­nos.

Não me resta ou­tra coisa se­não es­pe­rar pa­ci­en­te­mente que o pro­cesso, mais psi­co­ló­gico do que quí­mico, se com­plete in­tei­ra­mente. Por­que a ver­dade é que tudo passa nesta longa his­tó­ria em qua­dri­nhos, dos car­na­vais e das mi­ja­das nos be­cos ao gosto amargo que às ve­zes sinto da vida.

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