Contos

Paixão na janela

domingo, 14 de abril de 2013 Texto de

A rua de mão única, es­treita, com pla­cas de é proi­bido es­ta­ci­o­nar, com lo­ji­nhas de tudo quanto é tipo, com ve­lhos co­mer­ci­an­tes de­bru­ça­dos so­bre o bal­cão, com ga­tos es­ti­lo­sos des­li­zando nos te­lha­dos mais bai­xos, com pa­ra­le­le­pí­pe­dos de cu­jas fen­das apon­tam tei­mo­sos ca­pins, com a mon­ta­nha ao fundo feito uma gra­vura de prin­ci­pi­ante, com o en­tar­de­cer me­lan­có­lico dos co­ra­ções ju­di­a­dos, com tanta coisa aquela rua, e no ter­ceiro an­dar do pré­dio mais alto de três an­da­res, por en­tre o te­cido tre­mu­lante da cor­tina, a si­lhu­eta con­tor­nada pe­los úl­ti­mos raios do sol que pe­ne­tram pelo lado oposto, os ca­be­los on­du­lando de leve, a face imó­vel di­ri­gida aos meus mo­vi­men­tos aqui em­baixo, na cal­çada de la­dri­lhos qua­dra­dos, olhando lá pra cima en­quanto passo na volta para onde mesmo?

Viro à di­reita, deixo para trás o pe­queno re­corte de fá­bu­las en­fi­ado num canto qual­quer es­que­cido da nova ci­vi­li­za­ção.

É uma mu­lher so­li­tá­ria, penso já di­ante da tela do com­pu­ta­dor. É uma mu­lher so­nhando. So­nhando como se ela pró­pria fosse o so­nho. Um so­nho aberto a quem qui­ser en­trar. É uma mu­lher com o co­ra­ção cheio de va­zio. A var­re­dura en­tre os mil e pou­cos ami­gos do fa­ce­book é inú­til. Que bo­ba­gem. Ha­verá uma nova tec­no­lo­gia na­quele qua­dri­lá­tero de um tempo sus­penso? Onde o lá­pis pas­seia de­flo­rando fo­lhas vir­gens? Onde aquele ho­mem en­cos­tado à vi­trine sorri du­rante uma con­versa ba­nal com a vi­zi­nha do lado di­reito? Onde fui en­trar por um des­ses aca­sos que nos des­viam do ca­mi­nho ha­bi­tual?

Ama­nhã. Ela está lá de novo, meu rosto es­quenta na tar­de­zi­nha quase fria. Não, meu co­ra­ção não bate mais forte. Nem pen­sar! É nada mais do que uma sim­ples cu­ri­o­si­dade. É um carro raro atrás da porta se­mi­a­berta de uma ga­ra­gem. É o som cuja ima­gem não po­de­mos dis­tin­guir. Nada mais. Nada mais! Viro à di­reita.

E à di­reita ou­tra vez. E de novo. Ando em cír­cu­los. Faço duas vol­tas. E na ter­ceira, ela já fe­chou a ja­nela de duas fo­lhas que se abrem para a rua. Em­baixo, há uma re­lo­jo­a­ria. À es­querda, uma porta de vi­dro que cer­ta­mente es­conde uma es­cada que cer­ta­mente leva aos pi­sos su­pe­ri­o­res. Não, não sinto as per­nas tre­me­rem, nem esta pres­são nas têm­po­ras pode ser re­la­ci­o­nada a um de­sejo cuja es­sên­cia é im­pe­ne­trá­vel.

De­pois de ama­nhã. Não me des­vio. Corto o mal pela raiz. 

E no dia se­guinte lá es­tou de novo. No fim da rua, a som­bra da mon­ta­nha es­cu­rece toda a ve­ge­ta­ção de sua en­costa. Há uma pe­num­bra que se adi­anta ao meu en­con­tro à me­dida que o sol mer­gu­lha por trás das cons­tru­ções. A meia qua­dra do lu­gar, vejo um pe­queno caminhão-baú es­ta­ci­o­nado. Suas por­tas tra­sei­ras, aber­tas, re­ve­lam ob­je­tos de uma mu­dança, tal­vez. Cai­xas e bu­gi­gan­gas ir­re­co­nhe­cí­veis es­tão em­pi­lha­das. Dou mais dois ou três pas­sos. Um frio sú­bito me faz pa­rar de re­pente, imo­bi­li­zado. Não, meu co­ra­ção não ga­lopa. Meu peito não arfa. Mi­nhas per­nas não he­si­tam. Não, não há cai­xas, não há bu­gi­gan­gas.

Não há um car­re­ga­dor jo­gando por úl­timo, so­bre toda a tra­lha que se avo­lu­mou den­tro do baú, so­bre to­dos aque­les ob­je­tos sem vida, não há um car­re­ga­dor jo­gando um ma­ne­quim. Que cai sem jeito e cons­tran­gido olhando, como sem­pre, para mim. So­nhando, como sem­pre, co­migo.

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