Contos

O medo

quarta-feira, 6 de março de 2013 Texto de

Quando o Sr. Men­donça apa­re­ceu na porta da lan­cho­nete na­quela tarde de ou­tono, to­dos se vol­ta­ram para ele. Sem­pre se com­por­ta­vam as­sim. Era numa des­sas ci­da­de­zi­nhas onde, ao fi­nal do ex­pe­di­ente, mui­tos co­nhe­ci­dos se en­con­tram em certo lo­cal para be­ber ou co­mer ou só para con­ver­sar. E o lo­cal era aquela lan­cho­nete, onde sem­pre que al­guém en­trava os que já es­ta­vam lá se vi­ra­vam para di­zer um cum­pri­mento qual­quer, uma sau­da­ção ale­gre e des­con­traída.

Mas na­quele dia, quase nin­guém le­vou a cabo o ve­lho há­bito. Por­que o Sr. Men­donça tra­zia os olhos si­nis­tros. Como ex­pli­car? Eram olhos di­fe­ren­tes, fi­xos em um ponto in­certo, olhos en­cai­xa­dos num sem­blante cla­ra­mente per­tur­bado.

A face dele, en­ci­mando o ve­lho cor­pan­zil se­xa­ge­ná­rio mas ainda bas­tante só­lido, pa­re­cia mais ver­me­lha do que ge­ral­mente se apre­sen­tava. Ele foi se sen­tar so­zi­nho, numa mesa quase nos fun­dos da lan­cho­nete. Não pe­diu nada. As pes­soas mais pró­xi­mas ainda es­bo­ça­ram no­vas sau­da­ções, mas ele con­ti­nu­ava como que per­plexo.

De­pois de uns dez ou quinze mi­nu­tos, che­gou um dos ami­gos mais pró­xi­mos do Sr. Men­donça. Tra­ba­lhava com ele na ma­dei­reira. Er­guiam di­a­ri­a­mente pe­sa­das to­ras. Ser­ra­vam ma­deira. Ti­nham uma saúde de ferro. Eram for­tes como tou­ros.

Este amigo, cujo ape­lido era Timbó, agiu como sem­pre agia, di­zendo olá a to­dos, dirigindo-se com eloquên­cia ao co­mer­ci­ante, brin­cando com duas ou três cri­an­ças que com­pra­vam re­fri­ge­ran­tes. E foi se aco­mo­dar na mesa do Sr. Men­donça.

Foi aí que tudo co­me­çou.

Timbó tam­bém se per­tur­bou ao ver o rosto do amigo emol­du­rado numa fi­si­o­no­mia es­tra­nha. En­tão lhe per­gun­tou se es­tava tudo bem. Sem fitá-lo, o Sr. Men­donça ape­nas bal­bu­ciou al­gu­mas pa­la­vras:

– Não é pos­sí­vel, não é pos­sí­vel…

– Mas o que não é pos­sí­vel, ho­mem? O que acon­te­ceu?

– Você não acre­di­ta­ria, nin­guém acre­di­ta­ria…

– Bem, se você ao me­nos me con­tar, tal­vez eu possa…

– Se vo­cês acham que co­nhe­cem o medo, po­dem es­que­cer… não co­nhe­cem nada, nada!

Timbó es­pe­rou.

– Você sabe, nada me per­turba… nada! Mas aquilo! Vo­cês não po­dem ima­gi­nar, não po­dem…

Os olhos do Sr. Men­donça da­vam a im­pres­são de se avo­lu­ma­rem den­tro das ór­bi­tas. Ele não pis­cava.

– Meu Deus! Por quê? Por quê?

Timbó se­gu­rou le­ve­mente seu braço, ten­tando acalmá-lo. Es­tava ge­lado.

– Ho­mem de Deus, me diga o que está acon­te­cendo!

Mas o Sr. Men­donça se le­van­tou e saiu. As pes­soas das me­sas mais pró­xi­mas ou­vi­ram o diá­logo e tra­ta­ram logo de propagá-lo. 

Timbó saiu atrás do amigo. E na lan­cho­nete os co­men­tá­rios cor­re­ram por to­das as me­sas. Os ha­bi­tan­tes do pe­queno vi­la­rejo, acos­tu­ma­dos a con­ver­sas ame­nas so­bre o tempo e as co­lhei­tas, sentiam-se ten­sos de re­pente. “Mas o que acon­te­ceu?”, “O que será isto?”, “Que coisa é essa?”. Uma fa­mí­lia que ocu­pava uma das me­sas se le­van­tou para pa­gar a conta. O sol já caía por trás das gran­des ár­vo­res que es­cu­re­ciam a frente da lan­cho­nete.

No dia se­guinte, o Sr. Men­donça, viúvo e so­zi­nho, não foi à lan­cho­nete. Saiu da ma­dei­reira di­re­ta­mente para sua casa. Ape­nas Timbó apa­re­ceu. E foi logo in­da­gado so­bre o amigo. Mas pouco pôde acres­cen­tar. Du­rante todo o dia, o Sr. Men­donça per­ma­ne­cera ca­lado. Dis­sera ape­nas o es­tri­ta­mente ne­ces­sá­rio, e mesmo as­sim so­bre te­mas re­la­ci­o­na­dos ao tra­ba­lho.

O caso foi sendo con­tado a quem ainda não o co­nhe­cia. Em to­das as tar­des, as pes­soas ali pa­re­ciam ainda mais as­sus­ta­das do que na­quele dia em que o Sr. Men­donça sur­giu com os olhos es­bu­ga­lha­dos no li­miar da lan­cho­nete. Os dias es­ta­vam cada vez mais cur­tos e pou­cos se man­ti­nham por lá de­pois que a noite caía. 

Um di­zia ao ou­tro so­bre o caso do Sr. Men­donça. O acon­te­ci­mento do Sr. Men­donça pas­sou a ser o as­sunto pre­fe­rido du­rante um bom tempo. “Que coisa as­sus­ta­dora, meu Deus!”, di­zia uma se­nhora após com­prar san­duí­ches para os ne­tos. “Nem me diga”, res­pon­dia de trás do bal­cão a mu­lher do dono da lan­cho­nete. “Hoje em dia é tudo muito di­fe­rente, não te­mos mais sos­sego”, acres­cen­tava al­guém sen­tado a uma mesa pró­xima. “To­dos es­ta­mos as­sus­ta­dos, mi­nha mu­lher mal sai de casa com tanto medo”, co­men­tava um novo mo­ra­dor, con­tra­tado ha­via pouco tempo pela ma­dei­reira.

Quando veio o in­verno, e o mo­vi­mento na lan­cho­nete caiu ainda mais, to­dos no po­vo­ado já con­si­de­ra­vam na­tu­ral se en­fi­a­rem den­tro de casa mais cedo, fe­chando as por­tas com cui­dado, apu­rando a au­di­ção di­ante de ruí­dos con­si­de­ra­dos in­co­muns do lado de fora. 

Foi numa des­sas noi­tes que mais um dos no­vos con­tra­ta­dos da ma­dei­reira che­gou à ci­dade. Era um ho­men­zi­nho calvo e atar­ra­cado. Alu­gara uma casa bem perto da lan­cho­nete. Ha­via de­sem­bar­cado na­quele mesmo dia, mas já ou­vira fa­lar em vá­rias ro­das so­bre o caso que ame­dron­tava as fa­mí­lias do lu­gar. Ao en­trar na lan­cho­nete, já noite, avis­tou uma mesa quase nos fun­dos com um su­jeito gran­da­lhão to­mando uma ca­neca de chope.

De­pois de pe­dir um lan­che para vi­a­gem ao co­mer­ci­ante, aproximou-se do único cli­ente que ainda se aven­tu­rava por ali, acomodou-se numa ca­deira na mesa ao lado, pu­xou con­versa:

– O se­nhor é da­qui faz tempo? Me des­culpe se o in­co­modo, mas per­gunto por­que acabo de che­gar a tra­ba­lho.

– Não, de modo al­gum. Não é incô­modo. Moro por aqui a vida in­teira.

Mas o ho­men­zi­nho calvo e atar­ra­cado não ti­nha muito o que di­zer ao gran­da­lhão. E sol­tou a única coisa que lhe veio à mente:

– O se­nhor soube do acon­te­cido com o fun­ci­o­ná­rio da ma­dei­reira?

– Não, o que se pas­sou?

– Um caso ter­rí­vel, to­dos co­men­tam as­som­bra­dos, uma his­tó­ria de me­ter medo em qual­quer um, acre­dite.

E o ou­tro, su­bi­ta­mente ame­dron­tado pela in­for­ma­ção, fi­tou com re­do­brada aten­ção o recém-chegado:

– Não me diga!

O dono da lan­cho­nete se apro­xi­mou, en­tre­gou ao ho­men­zi­nho atar­ra­cado o pe­dido para vi­a­gem e, virando-se ao ou­tro, disse:

– Mais al­guma coisa, Sr. Men­donça?

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