Crônicas

Alguém viu por aí?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 Texto de

 

 

Pri­meiro, es­tra­nhei a over­dose do verbo “co­lo­car”, um ver­da­deiro cu­ringa da lín­gua por­tu­guesa nos dias atu­ais. Não se põem mais os pin­gos nos ii, não se tam­pam as pa­ne­las, não se veste a ca­misa nem se calça a san­dá­lia, não se acres­centa o azeite à sa­lada, não se adi­ci­ona um te­le­fone à agenda do ce­lu­lar nem se guarda o dito cujo na mo­chila. E muito me­nos se pu­blica uma no­tí­cia no jor­nal nem se apre­senta uma opi­nião, por­que agora tudo se co­loca.  Ex­pe­ri­mente acom­pa­nhar uma re­ceita na TV ou di­cas de ma­qui­a­gem, de de­co­ra­ção, as­sista a con­ver­sas so­bre ci­nema, fu­te­bol ou li­te­ra­tura servo-croata e po­derá con­fir­mar: o verbo co­lo­car está lá, oni­pre­sente nas 11 po­si­ções.

De­pois, pro­cu­rei nos no­ti­ciá­rios de rá­dio e TV sinô­ni­mos para “com­pli­cado”.  Em vão. A de­ci­são po­lê­mica, a si­tu­a­ção de­li­cada, o trá­fego con­fuso, o pro­blema di­fí­cil, a luta dra­má­tica dos mo­ra­do­res do mu­ni­cí­pio X a cada tem­pes­tade de ve­rão, as trá­gi­cas con­sequên­cias da omis­são ofi­cial em to­dos os se­to­res… Nada disso, cara pá­lida. Por in­crí­vel que pa­reça, em­bora as si­tu­a­ções se­jam de im­por­tân­cia e in­ten­si­dade di­fe­ren­tes, li­qui­di­fi­ca­ram to­dos es­ses ad­je­ti­vos num só: agora, tudo é com­pli­cado

Re­solvi, en­tão, ten­tar sa­ber por onde anda a pre­po­si­ção “a” em cer­tas cons­tru­ções, já que volta e meia al­guém diz que “O re­sul­tado do exame está pronto da­qui 3 dias – ou da­qui 2 se­ma­nas ou da­qui 1 hora” (A ex­pres­são usual não era “da­qui a”?); ou “Co­me­cei fa­zer as pro­vas ao meio-dia” (an­ti­ga­mente não se di­zia “Co­me­cei a fa­zer”?); ou “O ge­rente já res­pon­deu seu e-mail?” (Nossa, como sou an­tiga, no meu tempo a per­gunta se­ria se o ge­rente já res­pon­deu ao seu e-mail).

En­fim, não sei se penso “Ah, deixa pra lá”, isso acon­tece com lín­guas vi­vas, elas vão se mo­di­fi­cando con­forme o uso etc ou se con­ti­nuo co­men­tando so­bre esse se­ques­tro ge­ne­ra­li­zado de pa­la­vras do nosso idi­oma, nem que seja para ver se ainda es­tou, mesmo, fa­lando Por­tu­guês ou se in­ven­tei ou­tro para meu uso par­ti­cu­lar. Mas na­tu­ral ou não, tudo in­dica que o vo­ca­bu­lá­rio vi­gente dos bra­si­lei­ros anda bem es­casso e a re­la­ção en­tre eles e sua Lín­gua, bem com­pli­cada, oops, bem pre­cá­ria.

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