Contos

Um fantasma na rua

terça-feira, 8 de Janeiro de 2013 Texto de

Co­mo co­me­çou eu não sei di­rei­to. Sei só co­mo aca­bou. Ma­ria, na fren­te, com a cri­an­ça no co­lo, pro­te­gen­do-se da po­ei­ra aver­me­lha­do­na das ru­as to­das de ter­ra. Ali o as­fal­to era coi­sa de ro­do­via. Eu, ao la­do, ca­mi­nha­va la­te­jan­do fe­li­ci­da­de. Atrás da gen­te, a uns pou­cos pas­sos, vi­nha sem­pre o Ar­nal­do, in­tei­ro bê­be­do, meio caí­do. Tí­nha­mos, da­li a pou­co, o ba­ti­za­do co­le­ti­vo.

Mui­to an­tes de a cri­an­ça apon­tar no mun­do, o Ar­nal­do, mes­mo em ou­tro mun­do, ati­rou-se ao achin­ca­lhe. O tal não po­dia me ver per­to de Ma­ria. Era con­fu­são cer­ta. A ca­da go­le, um im­pro­pé­rio. Acho que ele só não che­ga­va às vi­as de fa­to por­que não con­fi­a­va no res­ti­nho de mu­que dei­xa­do pe­la ca­cha­ça. Mas as­sim mes­mo era uma fal­ta de de­co­ro.

Fo­mos abar­ro­tan­do. Aqui­lo já ia pe­las tam­pas. To­do dia o in­fe­liz bri­ga­va co­mi­go e com a nos­sa mu­lher. Ma­ria já era cheia de des­gra­ças. Não ti­nha au­to­no­mia nem pa­ra be­ber água. O tal ga­nha­va do go­ver­no uma apo­sen­ta­do­ria, gas­ta­va me­ta­de na be­bi­da e a ou­tra me­ta­de mes­qui­nha­va. E man­da­va ver: ti­ra es­se fi­lho da pu­ta da­qui, Ma­ria, man­da es­se coi­sa ruim pa­ra os quin­tos dos in­fer­nos, sai com ele da­qui.

O Ar­nal­do já nem bê­be­do fi­ca­va. Ele de­cer­to po­dia num mi­nu­to ou nou­tro fi­car só­brio, mas is­so nin­guém nem era ca­paz de ver. Por­que de­via ser só quan­do ele dor­mia. En­tão, num in­cer­to dia, in­ven­ta­mos uma coi­sa. Men­tía­mos a ele: que eu não exis­tia. Um fan­tas­ma era o que eu se­ria. Ma­ria dis­se a ele: co­mo é que pos­so man­dar es­se aí pa­ra os quin­tos, se é de lá que ele veio?

O Ar­nal­do pas­mou, es­bran­que­ceu. Da­li em di­an­te, de­so­lha­va. Nas be­be­dei­ras es­go­ta­das, per­gun­ta­va bai­xi­nho a Ma­ria se ali ha­via mes­mo um fan­tas­ma. Sim, mes­mo. O ma­ri­do aqui­e­ta­va, a vi­da se­guia. Os me­ses dos anos. É só um fan­tas­ma, Ar­nal­do. É só um fan­tas­ma.

No dia do ba­ti­za­do, eu no meio da po­ei­ra, caí­do na fe­li­ci­da­de bo­ba, mi­nha ore­lha num re­pen­te fi­cou na fren­te da pul­ga. Ma­ria adi­an­te, eu de la­do, es­pe­rou pe­lo Ar­nal­do. O be­bum be­beu o bra­ço de­la. E, co­mo pe­la pin­ga, foi ar­ras­ta­do por ela. Anu­vi­ei. Lim­pei o pó bar­ren­to dos lá­bi­os sem gos­to. Dei dois pas­sos pa­ra per­to de­les. Mar­te­lei olha­dos in­fe­li­zes pa­ra os dois. Quis abrir a bo­ca pa­ra me quei­xar a Ma­ria. Até, se fos­se pre­ci­so, xin­ga­va o in­fe­liz.

E aí é que se deu a mim uma des­fei­ta des­ta vi­da: fa­la da­qui não saía, fui er­guer um bra­ço e ele des­pe­nhou, em mim era só um pó fi­no, na­da em mim se po­dia mais ver. Os dois se fo­ram pa­ra den­tro da cor­ti­na de ter­ra se­ca que o ven­to in­qui­e­ta­va. Su­mi­ram. Um re­de­moi­nho me des­fa­zia, o gri­to mu­do não vin­do, o bra­ço es­vain­do, um bu­ra­co se abrin­do, o ven­to chi­an­do um chei­ro de ve­lhis­mo, o ven­to en­go­lin­do um que não se sou­be co­mo mas já se pu­nha fan­tas­ma. Só um fan­tas­ma.

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