Crônicas

Vida em república

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012 Texto de

Foi mais ou me­nos na época dessa foto (não sei onde es­tou)

“Vi­ver em re­pú­blica é ótimo,
desde que você caia fora logo”

Ma­chado de As­sis
(Claro que é men­tira)

 Nuns cer­tos mo­men­tos, mo­rei em re­pú­blica. Numa certa época, acon­te­cia um fenô­meno que nós, os mo­ra­do­res, não com­pre­en­día­mos. Mas era um fenô­meno cu­ri­oso. Por­que, da quase-miséria, su­bía­mos ao quase-luxo. Quando tudo pa­re­cia es­tar per­dido, nós ga­nhá­va­mos. Vou ex­pli­car.

Mo­rá­va­mos em… sei lá. Os fi­xos eram, além de mim, Mar­celo Sil­vani (o Millôr), Marco Costa (o Gato), Paulo de Luna (o Pe­peu), Celso Fu­ji­sawa (o Ná) e um cara de Lins cujo nome sim­ples­mente de­sa­pa­re­ceu no ema­ra­nhado de brin­ca­dei­ras bes­tas de es­tu­dan­tes jun­ta­dos num dois­quar­tos­sa­la­co­zi­nha­ba­nheiro. De­sa­pa­re­ceu por­que al­guém o ape­li­dou de Li­ná­queo. E as­sim fi­cou.

Se um disco vo­a­dor des­cesse nos fun­dos da casa, sa­be­ría­mos ime­di­a­ta­mente quem es­tava lá den­tro. A não ser que a placa não fosse de Lins.

Era nos fun­dos da casa que pro­mo­vía­mos fes­tas pau­pér­ri­mas. Certa noite, acen­de­mos uma chur­ras­queira des­sas de lata, preta e en­fer­ru­jada, la­va­mos dois ou três es­pe­tos, abri­mos al­gu­mas cer­ve­jas e um fi­cou olhando para a cara do ou­tro: não ha­via o que as­sar. Não ha­via carne. Acho que nem ce­bola, pão ou o que fosse.

Era cu­ri­oso.

Na segunda-feira, quando vol­tá­va­mos das ca­sas de nos­sas mães, não ha­via onde guar­dar tan­tos pães, do­ces, fru­tas, co­mi­das pre­pa­ra­das para vi­a­gem. To­dos vi­nham car­re­ga­dos. Fantasiava-se um longo fes­tim. Mas que o quê!

Não ha­via ges­tão. Éra­mos de­sor­ga­ni­za­dos.

Já na terça-feira à noite, um ou ou­tro via aca­bar seus qui­tu­tes e, dis­far­ça­da­mente, ten­tava ata­car o em­bor­nal alheio. Claro que nin­guém re­tru­cava. O que era de um era de to­dos. Mas por pouco tempo.

Na quarta, a ge­la­deira ja­zia so­li­tá­ria em seu canto, mal con­tendo uma gar­rafa de água. Na quinta de ma­nhã, quando le­van­tá­va­mos para tra­ba­lhar ou es­tu­dar, sentia-se no ar certo mau hu­mor, um olhando para o ou­tro e pen­sando “é, se você não ti­vesse ata­cado meu doce…”. À tarde, instalava-se o caos. Na sexta-feira, a re­pú­blica dei­xava de ser re­pú­blica para se trans­for­mar num campo de re­fu­gi­a­dos.

En­tre­tanto, tudo mu­dava com a che­gada do fim de se­mana. Vol­tá­va­mos às nos­sas ca­sas ori­gi­nais e de lá tra­zía­mos o su­fi­ci­ente para re­a­bas­te­cer a ge­la­deira.

A es­pe­rança res­sur­gia na rua Flo­ri­ano Pei­xoto.

Até que na terça as coi­sas co­me­ça­vam a se com­pli­car no­va­mente. Um ci­clo in­fin­dá­vel…

Ha­via, claro, uma ou ou­tra boa alma que vi­nha em nosso so­corro. A jor­na­lista Ma­ria Amé­rica Fer­reira, por exem­plo, mo­rava bem em frente. Ela nos tra­zia bo­los e pu­dins de­li­ci­o­sos. E tal­vez acre­di­tasse que es­sas de­lí­cias fos­sem uma so­bre­me­si­nha etc e tal. Só que não! Eram, quase sem­pre, nossa janta!

Ou­tras ve­zes nos sal­va­vam a Majô Jan­dreice e o Dino Mag­noni. Nossa re­pú­blica se­diou al­guns even­tos fes­ti­vos da Unesp, in­cluindo a pre­sença de ilus­tres pro­fes­so­res, mes­tres, dou­to­res de vá­rias par­tes do Bra­sil. Majô le­vava tudo, da pra­ta­ria à co­mida, dos ta­lhe­res à be­bida: nossa sal­va­ção pe­los dois ou três dias se­guin­tes.

E, como a se­mana, as­sim tam­bém era o mês. Nos pri­mei­ros dias, com os sa­lá­rios ainda in­tac­tos nos bol­sos, ha­via far­tura. A cai­xi­nha vi­via (quase) cheia. Mas os dias pas­sa­vam e a pe­nú­ria ata­cava como sem­pre.

E eis que che­gava o dia em que se dava o fenô­meno.

Lá es­tá­va­mos, à noite, res­ga­tando da ge­la­deira os úl­ti­mos pro­du­tos para um prato qual­quer, bus­cando nos ar­má­rios um pos­sí­vel in­gre­di­ente per­dido de se­ma­nas atrás, ten­tando ima­gi­nar o que ex­trair da­quele de­pó­sito onde ha­via ape­nas gelo, água e lou­ças, quando so­bre­vi­nha o iní­cio do fenô­meno.

Extinguia-se a luz. Aca­bava a ener­gia. Só nossa casa. Nin­guém pa­gara a conta.

A ge­la­deira re­fu­gava com aquele ba­que me­lan­có­lico do mo­tor­zi­nho que anun­ci­ava o pior. A es­cu­ri­dão rei­nava. Ouviam-se xin­ga­men­tos. CPFL fi­lha da puta! La­za­ren­tos! Vai to­mar no cu! Puta que o pa­riu! Chutavam-se as ca­dei­ras. Ía­mos até a porta da rua. Sim, lá fora es­tava tudo nor­mal! Vol­tá­va­mos. Sen­tá­va­mos. An­dá­va­mos em cír­cu­los. Ou­vía­mos o “clic” de um ou ou­tro na to­mada, ten­ta­tiva in­sana de fa­zer acen­der uma lâm­pada morta. Clic, clic, clic, clic. E nada.

Pai­rava sob nosso teto a re­sig­na­ção, de­pois o si­lên­cio tenso. En­fim, che­gava a cal­ma­ria. O ser hu­mano é ex­tra­or­di­ná­rio. Em guer­ras, mui­tos ven­ci­dos, às ve­zes es­tro­pi­a­dos pelo ad­ver­sá­rio, re­ba­tem a fuça da der­rota com ou­sa­dia, gana, co­ra­gem, brio, o en­fren­ta­mento fi­nal.

E as­sim o fa­zía­mos na­que­las oca­siões in­ter­mi­ten­tes de cor­tes de ener­gia, quando nos jul­gá­va­mos in­jus­ti­ça­dos pela ti­ra­nia da em­presa for­ne­ce­dora.

Como eu disse no iní­cio, atra­ves­sá­va­mos a quase-miséria para aden­trar um quase-luxo. Na es­cu­ri­dão da re­pú­blica, enfiávamo-nos em rou­pas e cal­ça­dos, fe­chá­va­mos aquela porta re­pug­nante de des­ven­tu­ras, des­cía­mos a es­cada, ul­tra­pas­sá­va­mos o por­tão, saía­mos à rua em pro­cis­são.

Meia hora de­pois, deflagrava-se o fenô­meno pro­pri­a­mente dito: ani­ma­dos, re­vi­go­ra­dos, mal nos lem­brando da po­bre re­pú­blica que dei­xá­ra­mos para trás no breu, res­pi­rá­va­mos os aro­mas de tem­pe­ros e mas­sas de pizza as­sando bem à nossa frente. Mo­rá­va­mos, na­quela época, a umas dez qua­dras da Piz­za­ria Mamma Mia. E era para lá que ía­mos sem­pre que nos cor­ta­vam a ener­gia. Co­mer pizza e be­ber cer­veja. Fes­ti­vos. Re­di­mi­dos.

Jo­vens que po­diam tudo.

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