Crônicas

Cafezinho com Flávio de Angelis

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012 Texto de

Acima, frag­mento de uma mú­sica que emo­ci­o­nava Flá­vio de An­ge­lis. Ao lado, o pró­prio.

Nunca gos­tei de to­mar café em copo de plás­tico. Aliás, não gosto de to­mar nada em copo de plás­tico, em­bora às ve­zes seja ne­ces­sá­rio. No caso do café, perde-se um frag­mento mar­cante do mo­mento: o su­ave ba­da­lar da co­lhe­ri­nha nas bor­das da xí­cara, quase como um pe­queno sino de uma pe­quena igreja avi­sando que está na hora do ri­tual.

Acho que to­mar café é um ri­tual. Desde o ins­tante em que você vê ape­nas aquela fu­ma­ci­nha saindo da xí­cara até quando, no fundo, só res­tam resquí­cios da borra. E esse ri­tual pre­cisa ser res­pei­tado, mas nem sem­pre é as­sim.

Ou­tro dia mesmo, a ga­rota me ser­viu o café numa xí­cara ra­chada (exa­ta­mente no lu­gar onde você põe a boca para be­ber). Pedi ou­tra xí­cara. Ela, gen­til­mente, quis tro­car o café. Eu disse que não ha­via ne­ces­si­dade. Só pre­ci­sava mesmo de ou­tra xí­cara. Ela me deu a ou­tra xí­cara. Com a borda toda suja. Pedi para tro­car ou­tra vez. Aí veio uma lim­pi­nha, sem ra­cha­dura.

En­tre­tanto, já es­tava per­dido o es­pí­rito do ri­tual. Por­que um ca­fe­zi­nho bem to­mado tam­bém exige se­re­ni­dade, de­sa­pego, le­veza de es­pí­rito.

Hoje, no Fran’s (onde a xí­cara nunca veio ra­chada nem suja), sentei-me à beira-rua, mesmo com um ca­lor dos di­a­bos. Ali em frente há al­gu­mas ár­vo­res. Gosto de chu­par o lí­quido olhando para elas, enfiando-me em seus ga­lhos, em suas fo­lhas: lem­bran­ças de um pas­sado dis­tante e lem­bran­ças de um fu­turo quem sabe.

E, por nada não, lembrei-me do Flá­vio. Flá­vio de An­ge­lis. Nosso di­re­tor quando abri­mos o jor­nal Bom Dia em Bauru.

O Flá­vio sa­bia desse meu “luxo” – o de to­mar café em xí­cara. Ha­via no bal­cão do jor­nal uma ma­qui­ni­nha de ex­presso e, claro, seus co­pi­nhos de plás­tico. Eu os usava na­tu­ral­mente. Fa­zer o quê? Mas ha­via dias, em cer­tas ho­ras im­pre­vis­tas, que o Flá­vio des­cia de sua sala, pas­sava pela mi­nha mesa e, todo ani­mado com aquele rosto sim­pá­tico, so­bran­ce­lhas er­gui­das por cima dos ócu­los, dava uma pa­ra­di­nha, olhava para mim meio que rindo e di­zia: “Va­mos to­mar um café de xí­cara?”.

E lá ía­mos nós dois, “rou­bar” no ar­má­rio as xí­ca­ras guar­da­das para as vi­si­tas im­por­tan­tes. De­pois, me­xía­mos o lí­quido com as co­lhe­ri­nhas que bus­cá­va­mos na ga­veta da pe­quena co­zi­nha e to­má­va­mos o café num meio mi­nuto de fu­gaz re­a­leza.

Olhando para os ipês e para a ve­ge­ta­ção tí­mida da ci­dade, fi­quei pen­sando que hoje não deve ser ne­nhuma data es­pe­cial so­bre o Flá­vio – ani­ver­sá­rio, es­sas coi­sas. E, num rom­pante poé­tico, emen­dei para mim mesmo: e daí? Sau­dade não tem data para de­sa­bar.

Nisso, um carro mais ba­ru­lhento pas­sou em frente ao Fran’s e a re­cor­da­ção diluiu-se no mor­maço das duas da tarde.

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