Crônicas

Quando eu era criança no Dia de Finados

quinta-feira, 1 de novembro de 2012 Texto de

Uns dias an­tes, iam lim­par os tú­mu­los e as ca­pe­li­nhas, ri­tual que se re­pe­tia ano após ano. Ve­lhas flo­res de plás­tico eram re­ti­ra­das dos va­sos e jo­ga­das ao lixo. Tro­ca­vam as to­a­lhas bran­cas que co­briam o bloco de ga­ve­tas mor­tuá­rias, so­bre as quais pou­sa­vam re­tra­tos dos bi­sa­vós, avós, tios-avós e, coisa as­sus­ta­dora, até gente que nós mes­mos cri­an­ças ha­vía­mos co­nhe­cido!

Às ve­zes, a pé, per­cor­ría­mos os três quilô­me­tros com aquela an­si­e­dade pul­sando aqui den­tro. Ir ao ce­mi­té­rio!

E na data pro­pri­a­mente dita, no Dia de Fi­na­dos, lá vol­tá­va­mos.

As mu­lhe­res re­za­vam e con­ver­sa­vam muito. Às por­tas das ca­pe­las, ao lado dos tú­mu­los, nas pe­que­nas ruas que le­va­vam a lu­gar ne­nhum.

Os ho­mens adul­tos da­vam aquela olhada e logo se afas­ta­vam para fu­mar, ba­ter papo com ve­lhos co­nhe­ci­dos que se re­en­con­tra­vam por ali.

O largo em frente ao ce­mi­té­rio transformava-se numa grande feira. Fru­tas, sor­ve­tes, sal­ga­dos, be­bi­das.

Nós mes­mos cri­an­ças cir­cu­lá­va­mos li­vre­mente no in­te­rior da­quele con­junto de úl­ti­mas mo­ra­das. Ali es­tá­va­mos se­gu­ros.

Brin­cá­va­mos de esconde-esconde, bri­gá­va­mos com a ten­ta­ção de rou­bar as fru­tas dei­xa­das pe­los ja­po­ne­ses em seus tú­mu­los, pi­sá­va­mos nas tam­pas dos tú­mu­los da ca­pela das frei­ras, ten­tando des­co­brir algo lá em­baixo en­tre as pe­que­nas fres­tas.

To­má­va­mos sor­vete, cor­ría­mos pra lá e pra cá em torno de se­pul­tu­ras, de cru­zes, de mu­lhe­res de preto cho­rando do­bra­das so­bre fo­to­gra­fias e lá­pi­des.

E, em meio a to­dos aque­les sím­bo­los, si­nais e ri­tu­ais, a úl­tima coisa na qual pen­sá­va­mos era a morte.

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