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Bizarrices morais

quarta-feira, 16 de novembro de 2011 Texto de

In­te­res­sante o que ocorre numa so­ci­e­dade onde o roubo, a en­ga­na­ção com­pul­siva e o mau ca­rá­ter são mo­eda cor­rente em to­dos os es­tra­tos so­ci­ais e pro­fis­sões: os atos de ho­nes­ti­dade e de­so­nes­ti­dade pro­vo­cam re­a­ções sin­gu­la­res en­tre a po­pu­la­ção.

Nesse tipo de so­ci­e­dade, jus­ta­mente por­que epi­só­dios de falta de ca­rá­ter são co­muns e até vis­tos como “um traço cul­tu­ral”, qual­quer ato de ho­nes­ti­dade passa a ser con­si­de­rado um fenô­meno. Se um gari as­sa­la­ri­ado en­con­tra uma car­teira re­che­ada de di­nheiro no meio do lixo e re­solve entregá-la numa de­le­ga­cia, no mesmo dia ele se torna pauta de re­por­ta­gens, en­tre­vis­tas, ho­me­na­gens. Por­que nessa tal so­ci­e­dade, o cor­ri­queiro é guar­dar para si a grana, es­cu­dado pela ve­lha fi­lo­so­fia de que “achado não é rou­bado”. Mas como esse pro­fis­si­o­nal se sen­tiu cons­tran­gido de se apos­sar de di­nheiro alheio e fez o que sua cons­ci­ên­cia man­dou, vi­rou man­chete. Ou­vir a cons­ci­ên­cia dá man­chete e cha­ma­das em te­le­jor­nais.

Tam­bém o po­li­cial que re­cusa di­nheiro de su­borno, o que de­ve­ria ser nor­mal para um po­li­cial, tam­bém é con­si­de­rado um he­rói. Por­que na tal so­ci­e­dade essa ati­tude é ra­rís­sima e pega a to­dos de sur­presa – até mesmo quem lhe ofe­re­ceu di­nheiro. O usual é fi­car com o agrado, como ou­tros de seus co­le­gas fa­zem todo dia, im­pu­ne­mente. Mas a in­te­gri­dade e os va­lo­res do po­li­cial fa­la­ram mais alto e isso tam­bém dá man­chete, por inu­si­tado.

Por ou­tro lado, se pes­soas pú­bli­cas são acu­sa­das de de­li­tos se­riís­si­mos, mesmo ne­gando até o fim e ju­rando que são ví­ti­mas de ar­ma­ção, ape­sar de to­das as pro­vas em con­trá­rio, es­sas quase nunca são con­de­na­das, pre­sas ou obri­ga­das a de­vol­ver o pro­duto de seus rou­bos. No iní­cio, quando a im­pu­ni­dade é des­co­berta, ouve-se o coro dos des­con­ten­tes cla­mando por jus­tiça; mas ra­pi­da­mente os cúm­pli­ces po­de­ro­sos tra­tam de afas­tar os sus­pei­tos dos ho­lo­fo­tes da mí­dia e prin­ci­pal­mente dis­trair a me­mó­ria po­pu­lar e, quando me­nos se es­pera, olha eles de volta à vida pú­blica, de ca­ras la­va­das e muito mais ri­cos, candidatando-se no­va­mente, sendo elei­tos, no­me­a­dos ou acla­ma­dos por seus iguais. Im­pu­nes e pron­tos pra ou­tra. E a his­tó­ria se re­pete, como se fosse ine­vi­tá­vel.

Es­sas dis­tor­ções cha­mam a aten­ção de ou­tras so­ci­e­da­des nas quais a ho­nes­ti­dade só tem uma cara e atos ín­te­gros não pre­ci­sam ser fes­te­ja­dos nem re­ce­bi­dos como um fenô­meno ex­tra­ter­res­tre. Afi­nal, está bem claro em suas res­pec­ti­vas cons­ti­tui­ções e có­di­gos pe­nais o que o ci­da­dão deve ou não, pode ou não fa­zer para vi­ver em paz e dei­xar os ou­tros em paz, e é as­sim que a banda toca. Se o ci­da­dão va­ci­lar, dança, qual­quer que seja seu so­bre­nome, saldo ban­cá­rio ou sta­tus so­cial. De­li­tos e “mal­fei­tos” há em to­das as par­tes do mundo, volta e meia se ouve fa­lar de al­gum. Mas em mui­tas ou­tras so­ci­e­da­des, a pu­ni­ção chega rá­pido e é exem­plar.

Como disse uma vez a di­re­tora de um co­lé­gio da Zona Sul do Rio, um furto de 5 re­ais de um co­lega ou a des­co­berta de uma cola num teste de­vem ser exem­plar­mente pu­ni­dos, tanto quanto o furto de 500 re­ais ou a có­pia de um texto da in­ter­net, as­si­nada por um aluno como se de sua au­to­ria fosse.
Roubo é roubo. 

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