Impressões

Júlio Garcia, o livro e a sombra

quinta-feira, 20 de outubro de 2011 Texto de

O jor­na­lista e es­cri­tor Jú­lio Ce­zar Gar­cia (foto re­pro­du­zida de seu li­vro)

No iní­cio dos anos 1970, o jor­na­lista Jú­lio Ce­zar Gar­cia atu­ava em São Paulo. Era o pe­ríodo mais pe­sado da di­ta­dura mi­li­tar que co­me­çara com o golpe de 1964 e só ter­mi­na­ria em 1985. Diz ele: “Numa noite, eu es­tava indo pra casa numa rua de­serta quando vi um vulto ao meu lado; dei um pulo ten­tando me pro­te­ger, já pen­sando nos mi­li­cos…” O epi­só­dio, con­tudo, deixou-o en­tre o cons­tran­gi­mento e o ri­dí­culo. Ha­via se as­sus­tado com a pró­pria som­bra! Nunca me es­queço dessa pas­sa­gem em­ble­má­tica da vida do Jú­lio e da vida do pró­prio país. Ele a con­tou du­rante evento de jor­na­lismo numa fa­cul­dade em que eu dava au­las em 2003 ou 2004, o ano não me lem­bro ao certo.

Em 2008, ele lan­çou “O dia em que Je­sus pi­lo­tou um avião” (THS Edi­tora, 134 pá­gi­nas), belo li­vro de crô­ni­cas e me­mó­rias que re­flete o pro­fis­si­o­nal cor­reto, ético e crí­tico, e o ho­mem doce, ho­nesto e franco, ca­rac­te­rís­ti­cas la­ten­tes no au­tor. Faz al­gum tempo, es­tou para es­cre­ver al­gu­mas pa­la­vras para fa­lar do Jú­lio e do li­vro, que ado­rei. En­tre ou­tras joias, con­ta­das nos tex­tos in­ve­já­veis do Jú­lio, há “So­bre pré­dios e mo­nu­men­tos” (pag. 35). Ele des­creve um epi­só­dio emo­ci­o­nante em que, ao seu lado, a avó tenta con­ven­cer a di­re­tora de uma es­cola de As­sis a lhe ar­ru­mar uma vaga no meio do ano. Ti­nham mu­dado para lá em ju­lho e nessa época a es­cola já es­tava com seus ban­cos cheios. 

Não ha­via como acres­cen­tar mais um aluno, ex­pli­cou a di­re­tora. A avó, en­tão, queixou-se: “É triste um ho­mem tra­ba­lhar no Es­tado e não ter, do Es­tado, um lu­gar para o fi­lho es­tu­dar”. Dona Ma­ria Emery Pi­res So­a­res, en­tão, sensibilizou-se. Uma so­lu­ção foi en­con­trada para que Jú­lio pu­desse es­tu­dar. Ele en­cerra o texto as­sim: “Hoje, quando ta­teio na ne­blina da me­mó­ria mi­nhas lem­bran­ças de As­sis, os ho­téis Vi­eira Dias e Santa Rosa (*** O texto já ha­via avi­sado ao lei­tor que na dé­cada de 1960 es­ses ho­téis eram pré­dios im­po­nen­tes) fi­cam pe­que­nos perto de um mo­nu­mento que só eu en­xergo. Chama-se Ma­ria Emery”.

Na época, eu disse a ele que me emo­ci­o­nei com esse des­fe­cho. Para es­cre­ver algo as­sim, tão sim­ples e gran­di­oso como uma obra feita de ti­jo­los, é pre­ciso ser ao mesmo tempo pro­fundo e sen­sí­vel. Es­sas são ou­tras ca­rac­te­rís­ti­cas do au­tor, tal­vez as prin­ci­pais. As que fa­zem com que o Jú­lio trate os ami­gos como flo­res e as mu­lhe­res, como pé­ta­las (aqui, por fa­vor, sem ne­nhum du­plo sen­tido: é que ele deve es­tar no quinto ca­sa­mento). Mas o caso é que o li­vro in­teiro é emo­ci­o­nante, lí­rico, irô­nico, cu­ri­oso, en­gra­çado e dra­má­tico. Sim, o Jú­lio con­se­gue reu­nir tudo isso de­baixo de suas pa­la­vras.

Na de­di­ca­tó­ria do exem­plar que te­nho co­migo (e que cos­tumo re­ler de vez em quando com muito pra­zer), ele me trata como “grande amigo”. A re­cí­proca é in­tei­ra­mente ver­da­deira. E o cu­ri­oso é que se so­mar­mos o tempo em que es­ti­ve­mos jun­tos, no tra­ba­lho ou na va­di­a­gem, se­rão ape­nas al­gu­mas ho­ras. Isso, no en­tanto, é pouco re­pre­sen­ta­tivo. O re­ló­gio da ami­zade dá vol­tas inex­pli­cá­veis. Não é pos­sí­vel compreendê-lo. Te­mos, eu e o Jú­lio, um grande amigo: o tam­bém jor­na­lista (atua prin­ci­pal­mente na área fo­to­grá­fica) Otá­vio Valle, o Ta­tau. Certa vez, ele chega e me diz: “Mar­cião, você pre­cisa co­nhe­cer o Jú­lio Gar­cia, te­nho cer­teza de que vo­cês vão se cur­tir”. Nessa época, o Jú­lio tra­ba­lhava em Rio Preto. Eu, em Bauru. Apro­xi­ma­da­mente um ano de­pois, eu ouvi a his­tó­ria da som­bra. Fi­nal­mente, tí­nha­mos nos co­nhe­cido. E foi pre­ciso muito pouco para que eu pas­sasse a admirá-lo sin­ce­ra­mente. Hoje, pelo que sei, o Jú­lio está em Bra­sí­lia. Faz tempo que não o vejo. A dis­tân­cia do Jú­lio, é triste di­zer, nos em­po­brece.

Capa do li­vro que traz crô­ni­cas e me­mó­rias do jor­na­lista

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