Impressões

O livro dos seres imaginários de Edison Veiga

sexta-feira, 23 de setembro de 2011 Texto de

Li “Min­gu­tas: cor­rendo da car­ranca do ca­rimbo, ca­ramba!” (Edi­tora Pa­tuá, 144 pá­gi­nas) há al­guns dias e, con­fesso, me senti em­ba­ra­çado para ou­sar es­cre­ver al­guma coisa logo em se­guida. Isso con­tudo não re­pre­senta uma grande no­vi­dade. Por­que, como já disse aqui mesmo, não sei fa­zer re­se­nha ou crí­tica li­te­rá­ria. Sei ape­nas di­zer se gos­tei ou não, in­cluindo al­gu­mas ob­ser­va­ções ale­a­tó­rias. No caso do li­vro de Edi­son Veiga (Para sa­ber mais so­bre au­tor e li­vro, cli­que aqui), essa ca­rac­te­rís­tica se apro­fun­dou ainda mais em meus sen­ti­dos. Por­que “Min­gu­tas…”, acre­dito, tem tam­bém esse pro­pó­sito, ou seja, nos des­con­cer­tar.

A certa al­tura nos de­pa­ra­mos com este pe­ríodo: “Pa­la­vras têm gosto e cheiro, não te­nho culpa se você nunca ex­pe­ri­men­tou. Têm som, cor, forma tam­bém”. Tal­vez es­teja aqui en­cer­rado o grande mé­rito do li­vro, ou o prin­ci­pal mé­rito do li­vro: a (nova) vida que ele dá às le­tras, às pa­la­vras, à lín­gua, brin­cando so­bre seus con­tor­nos, pe­ne­trando seus bu­ra­qui­nhos, cor­rendo en­tre seus es­pa­ços, en­gros­sando ou afi­nando seus de­se­nhos.

Caso con­tasse com al­guma au­to­ri­dade li­te­rá­ria, eu di­ria que está cri­ado – ou for­ta­le­cido, caso pen­se­mos que hoje em dia anda muito ar­ris­cado di­zer que ainda se pode criar neste mundo cri­ado cri­a­tivo – um novo gê­nero: o des­ro­mance. Des­ro­mance no sen­tido de in­ver­ter a ló­gica do sen­tido. Es­ses min­gu­tas, os se­res ima­gi­ná­rios de Edi­son Veiga, são en­lou­que­ce­do­res ao nos ti­rar dos tri­lhos de qual­quer ló­gica. Eles po­dem es­tar sen­ta­dos ao nosso lado no sofá vendo TV, po­dem vi­ver es­con­di­dos em nossa ca­beça dis­far­ça­dos de neurô­nios, po­dem ser a di­vin­dade cós­mica que so­prou no ou­vido da hu­ma­ni­dade a gê­nese da pa­la­vra. Es­ses min­gu­tas são foda.

São foda por­que nos per­tur­bam, nos fa­zem dei­xar aquela ve­lha zona de con­forto a qual so­mos tão pro­pen­sos em nos­sas vi­das, nos­sas vi­das que sem­pre en­con­tram mil mo­ti­vos para se abas­te­cer em pos­tos de mes­mice in­te­lec­tual e pre­guiça fi­lo­só­fica.

Os nove min­gu­tas cor de abó­bora são, acima de tudo, acima da de­lí­cia li­te­rá­ria que com­pu­se­ram na ca­beça in­ven­tiva de Edi­son Veiga, acima da vi­va­ci­dade e da iro­nia so­bre a qual tran­si­tam si­gi­lo­sa­mente em­baixo de nos­sos na­ri­zes, eles são en­ti­da­des he­roi­cas. Exa­ta­mente por­que nos so­cor­rem e ten­tam nos ti­rar do sé­rio, apre­sen­tando aos nos­sos olhos um in­crí­vel e sa­bo­roso ca­lei­dos­có­pio (termo usado na ex­ce­lente apre­sen­ta­ção do li­vro pelo pro­fes­sor de li­te­ra­tura Fre­de­rico Bar­bosa) que nos re­ju­ve­nesce. Ima­gi­nar o novo, pen­sar hoje como não pen­sá­va­mos on­tem é re­ju­ve­nes­cer.

Penso agora: es­sas cri­a­tu­ras do Edi­son es­tão an­dando, vo­ando, na­dando, zan­zando por to­dos os lu­ga­res. Es­tão na igreja sen­ta­das na borda do cá­lice do pa­dre to­mando vi­nho en­quanto a hós­tia é dis­tri­buída; es­tão no mo­tel bo­tando brasa no fogo dos aman­tes; no céu pin­tando de azul as nu­vens para que se con­fun­dam com o céu; nos li­vros jun­tando le­tras que não se dão; so­prando ve­li­nhas de ani­ver­sá­rio an­tes do ani­ver­sa­ri­ante; fa­zendo o leite su­bir na hora em que ti­ra­mos o olho; ba­tendo na bunda do bebê quando ele nasce; ah, e tam­bém to­mando sol em A Fa­zenda e tor­cendo para que ve­nha logo o novo Big Brother para po­de­rem pas­sear nas has­tes dos ócu­los do Bial; e, claro, mi­jando no azeite da sua sa­lada; e por fim te­clando este texto que eu ja­mais es­cre­ve­rei.

E fora isso, tenh (É, acaba as­sim mesmo por­que eu quero e pronto. As­si­nado: Min­guta nú­mero 7)

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