Contos

Questão glútea

segunda-feira, 25 de julho de 2011 Texto de

Nem mesmo as duas li­ga­ções te­lefô­ni­cas aten­di­das si­mul­ta­ne­a­mente fo­ram su­fi­ci­en­tes para impedir-me o es­panto e logo, a cu­ri­o­si­dade. Dona Hen­rica ha­via mar­cado a con­sulta ju­rí­dica há dois dias, li­gara na vés­pera e na­quela ma­nhã tam­bém, an­tes de dirigir-se ao es­cri­tó­rio onde ad­vogo. Ha­via uma ex­trema an­si­e­dade em seu rosto quando a se­cre­tá­ria, des­cum­prindo uma or­dem ex­pressa de mi­nha parte, enfiou-a su­bi­ta­mente sala aden­tro. Mi­nha sur­presa, en­tre­tanto, não re­si­diu em sua ex­pres­são, mas na parte do corpo que se­para as cos­tas das per­nas, ou seja, a re­gião glú­tea.

Fa­lando um por­tu­guês exato, mi­nha cli­ente sim­ples­mente não ti­nha a bunda. Cui­dado: não con­fun­dir essa in­for­ma­ção com ou­tra – a de que ela não ti­nha bunda. Na ver­dade, ela não ti­nha a bunda. A bunda de Dona Hen­rica não es­tava lá, e esse era o mo­tivo de sua an­gús­tia, quase um de­ses­pero. Di­ante do que con­si­de­rei grave, sus­pendi de pronto as duas li­ga­ções e, res­pei­to­sa­mente em pé, como é meu cos­tume di­ante de um cli­ente, convidei-a a sentar-se, ao que ela me res­pon­deu tratar-se de algo im­pos­sí­vel:

– Dou­tor, in­fe­liz­mente, o se­nhor já deve ter per­ce­bido mi­nha si­tu­a­ção. Nem me sen­tar eu posso.

Des­con­cer­tada, Dona Hen­rica encostou-se à pol­trona di­ante de mi­nha mesa:

– To­mei mui­tas re­fe­rên­cias, o se­nhor é mi­nha grande es­pe­rança para re­sol­ver este as­sunto.

En­tão, quem por um ins­tante pôs-se des­con­cer­tado fui eu. Como as­sim? Que re­fe­rên­cias? Eu era um ad­vo­gado, não um ci­rur­gião plás­tico ou seja lá que nome se dá a um es­pe­ci­a­lista dessa área. Ela in­sis­tiu:

– Acre­dite o se­nhor, di­nheiro não é pro­blema. Faça seu preço, eu pago.

De­certo que nem sem­pre apa­rece um cli­ente as­sim, tão dis­posto a me­ter a mão no bolso para pa­gar al­guém que ele mesmo ge­ral­mente julga ser um ex­plo­ra­dor de suas des­gra­ças. Um bom cli­ente é sem­pre um alento em nosso atri­bu­lado co­ti­di­ano, não nego, mas ali o que ha­via era uma pa­ci­ente, isto sim. Quando fui abrir a boca, ela es­cla­re­ceu:

– Dou­tor, mi­nha mal­dita bunda me dei­xou há uma se­mana e não vol­tou. Já ten­tei de tudo, mas nada. Quero que o se­nhor tome a frente nisso.

Sentei-me num susto. Ime­di­a­ta­mente, veio-me à mente o no­tó­rio caso do alto fun­ci­o­ná­rio pú­blico russo cujo na­riz rebelou-se e de­sa­pa­re­ceu por um certo tempo, con­forme é nar­rado por Go­gol. Lembrando-me da si­tu­a­ção hu­mi­lhante en­fren­tada pelo russo, senti uma grande pena de Dona Hen­rica. Quanto tempo ainda ela fi­ca­ria sem essa parte do corpo? Se­ria pos­sí­vel, de al­guma ma­neira, convencê-la a vol­tar? Es­sas e ou­tras dú­vi­das percorreram-me como ver­da­dei­ros raios, sem me dar des­canso du­rante al­guns mi­nu­tos, até que mi­nha cons­ci­ên­cia atreveu-se a cutucar-me. Sim, eu não po­de­ria aban­do­nar aquela po­bre mu­lher ao deus-dará. Al­guém pre­ci­sava to­mar par­tido de sua ter­rí­vel con­di­ção. Além do mais, tratava-se de um novo de­sa­fio para mi­nha car­reira. Bati o mar­telo:

– Muito bem, Dona Hen­rica. Va­mos aos fa­tos.

Mi­nha cli­ente mostrou-se tão sa­tis­feita que por pouco não se es­que­ceu de sua im­pos­si­bi­li­dade de sentar-se. Foi logo fa­lando:

– Pro­cu­rei um acordo ami­gá­vel, mas ela está ir­re­du­tí­vel. O se­nhor sabe como é, to­mou gosto pela li­ber­dade, co­nhe­ceu pes­soas que es­tão lhe en­fi­ando mi­nho­cas… Desculpe-me se isso pa­rece gro­tesco, dou­tor, mas acho que devo lhe di­zer tudo, está cor­reto?

Na ver­dade, a bunda de Dona Hen­rica encontrava-se por aque­les dias ne­go­ci­ando seu passe com uma emis­sora de te­le­vi­são. Pelo que mi­nha cli­ente ha­via es­pe­cu­lado, ela es­tava co­tada para apre­sen­tar um pro­grama de va­ri­e­da­des em ho­rá­rio no­bre, o que nada mais era do que seu grande so­nho ao as­sis­tir ao su­cesso de tan­tas co­le­gas que con­tam com a co­ni­vên­cia de suas do­nas. No mesmo dia, após mar­car um ho­rá­rio por te­le­fone, fo­mos até a emis­sora fa­lar com um de seus di­re­to­res, que nos re­ce­beu com muita gen­ti­leza. A sim­pa­tia, no en­tanto, tornou-se in­qui­e­ta­ção quando ele soube de nosso pro­pó­sito. Mexeu-se na ca­deira e pôs-se em pé:

– Mas, meu caro dou­tor, o se­nhor e sua cli­ente es­tão me pe­dindo algo que foge da mi­nha al­çada. Não fo­mos nós que a pro­cu­ra­mos. E, além do mais, as gra­va­ções fei­tas até aqui re­ve­lam um grande ta­lento de nossa fu­tura con­tra­tada.

Dona Hen­rica desesperou-se ao meu lado. O exe­cu­tivo vol­tou a sentar-se, dei­xando ape­nas a po­bre mu­lher em pé, o que de certa forma constrangeu-nos a am­bos, mas fa­zer o quê? Na­quela hora, até pen­sei na pos­si­bi­li­dade de o di­re­tor da emis­sora apiedar-se da si­tu­a­ção e facilitar-nos o tra­ba­lho, mas ele não pa­re­cia dis­posto a co­la­bo­rar.

– Os de­ta­lhes do con­trato tam­bém es­tão em fase adi­an­tada. Nosso de­par­ta­mento co­mer­cial já está in­clu­sive se pre­pa­rando para le­var a no­vi­dade ao mer­cado.

Dona Hen­rica to­mou a pa­la­vra:

– O se­nhor me des­culpe, mas eu não con­sigo com­pre­en­der como uma emis­sora de te­le­vi­são pode se in­te­res­sar por uma apre­sen­ta­dora com­ple­ta­mente des­co­nhe­cida. Que au­di­ên­cia ela pode atrair?

Nisso, um sor­riso de ânimo abriu-se no rosto do exe­cu­tivo:

– Eu mesmo pre­sen­ciei um dos tes­tes. Ela tem um alto grau de ex­pres­si­vi­dade, sabe dan­çar muito bem, tem ótima apa­rên­cia e tam­bém é bas­tante ou­sada quanto ao fi­gu­rino.

De es­gue­lha, senti mi­nha cli­ente enrubescer-se, mas ela não se deu por ven­cida:

– Eu não gos­ta­ria de en­trar em as­sun­tos par­ti­cu­la­res, mas do jeito que as coi­sas an­dam, não es­tou vendo ou­tra saída. Saiba o se­nhor que ela tem ótima apa­rên­cia gra­ças ao si­li­cone im­plan­tado há al­guns me­ses. E ainda fa­lando so­bre apa­rên­cias, aca­ba­mos de vol­tar de uma vi­a­gem pelo ve­rão grego. O tom vivo logo vai de­sa­pa­re­cer, não te­nha dú­vida disso. 

O exe­cu­tivo ajeitou-se na ca­deira:

– Mi­nha cara Dona Hen­rica, eu en­tendo sua si­tu­a­ção, mas re­al­mente é algo que foge ao meu do­mí­nio. Os tes­tes de on­tem ti­ve­ram a par­ti­ci­pa­ção do pú­blico e a apro­va­ção foi muito sig­ni­fi­ca­tiva. Es­ta­mos con­vic­tos de que o te­les­pec­ta­dor dará a sus­ten­ta­ção ne­ces­sá­ria à nossa nova apre­sen­ta­dora.

Mi­nha cli­ente não pôde evi­tar um rom­pante de raiva. Aos ber­ros, dirigiu-se ao di­re­tor:

– É de se ad­mi­rar que uma emis­sora de te­le­vi­são dê tanto va­lor as­sim a uma bunda mi­se­rá­vel e sem ca­rá­ter como essa! Vo­cês não têm coisa mais im­por­tante para pôr no ar?

O exe­cu­tivo mos­trou certa agi­ta­ção, mas não che­gou a se en­fu­re­cer:

– Mi­nha se­nhora, se o povo quer a bunda, nós te­mos que dar a bunda ao povo…

Per­cebi que a dis­cus­são es­tava ru­mando para ân­gu­los obs­ce­nos:

– Por fa­vor, por fa­vor, va­mos man­ter a ca­beça no lu­gar. Se­ria pos­sí­vel ao me­nos con­ver­sar­mos com ela, ten­tar­mos ex­por a gra­vi­dade do pro­blema?

O di­re­tor não viu in­con­ve­ni­ente al­gum em meu pe­dido. Dali a pouco, aten­dendo a um cha­mado seu, lá es­tava a exu­be­rante bunda de Dona Hen­rica. Devo con­fes­sar que re­al­mente ela ti­nha pre­sença. Ao con­trá­rio de sua ex-companheira, ela pôde sentar-se con­for­ta­vel­mente ao meu lado, após cumprimentar-nos e dis­pen­sar a Dona Hen­rica um olhar fa­bri­cado en­tre a des­con­fi­ança e o ci­nismo. Quando fiz a pro­posta, eu já ti­nha em mente um plano que, a des­peito das ter­rí­veis di­fi­cul­da­des apre­sen­ta­das até ali, po­de­ria ser con­sen­sual. Sem ro­deios, fui logo ao as­sunto:

– Bem, pelo visto, to­dos aqui têm po­si­ções muito cla­ras e dis­tin­tas a res­peito dessa ques­tão glú­tea. A emis­sora já fez tes­tes e aposta no su­cesso da nova apre­sen­ta­dora, que po­derá am­pliar a au­di­ên­cia e con­se­quen­te­mente tra­zer mais re­cei­tas à em­presa. Dona Hen­rica se sente traída, pois sem aviso pré­vio, co­mu­ni­cado ofi­cial ou qual­quer sa­tis­fa­ção, sua bunda a dei­xou. Além disso, sua con­di­ção fí­sica se tor­nou pre­cá­ria. Já a bunda de Dona Hen­rica vis­lum­bra a pos­si­bi­li­dade de re­a­li­zar seu grande so­nho atra­vés de um ou­sado pro­jeto pro­fis­si­o­nal. De mi­nha parte, sou franco a di­zer que cada caso re­sol­vido re­pre­senta ponto po­si­tivo para mi­nha car­reira e di­nheiro no meu bolso. Dessa ma­neira, acre­dito que um li­tí­gio en­tre as par­tes de­man­da­ria ta­ma­nha dor de ca­beça para to­dos que não va­le­ria a pena. A emis­sora cor­re­ria o risco de sus­pen­der a es­treia do pro­grama por or­dem ju­di­cial, Dona Hen­rica se­gui­ria hu­mi­lhada mo­ral­mente e to­lhida em sua per­for­mance fí­sica, a bunda de Dona Hen­rica fi­ca­ria no es­ta­leiro por um tempo im­pre­vi­sí­vel, sem po­der con­cre­ti­zar seu so­nho de vida e re­ce­ber por isso, e eu te­ria de le­var adi­ante um pro­cesso tra­ba­lhoso cujo ine­di­tismo exi­gi­ria um es­forço des­co­mu­nal que ja­mais po­de­ria ser de­vi­da­mente pago por mi­nha cli­ente. Sendo as­sim, pro­po­nho às par­tes algo per­fei­ta­mente viá­vel, que se re­sume na volta da bunda ao seu lu­gar de ori­gem e na ime­di­ata con­tra­ta­ção de Dona Hen­rica pela emis­sora. Para a em­presa, se­ria van­ta­joso por­que se­riam duas pro­fis­si­o­nais con­tra­ta­das pelo preço de uma, pois te­nho cer­teza de que nesse caso Dona Hen­rica e sua bunda não se­riam in­fle­xí­veis e sa­be­riam tra­tar com jus­tiça os as­pec­tos con­tra­tu­ais. Mi­nha cli­ente sabe que nada pode ser pior do que con­ti­nuar sem bunda, e sua bunda, con­forme já foi ex­posto, quer ape­nas fa­zer su­cesso na te­le­vi­são, as­sim como mui­tas co­le­gas. Eu mesmo posso ampará-las no sen­tido de ela­bo­rar esse do­cu­mento. Se to­dos es­ti­ve­rem de acordo, po­de­mos re­sol­ver isso tudo agora mesmo.

Em re­sumo, a pro­posta foi aceita e da­qui a um mês o novo pro­grama es­tre­ará com o in­te­res­sante nome que eu mesmo su­geri: “Hen­rica mos­tra a bunda”. Ló­gico que o teor já é bas­tante co­nhe­cido de to­dos, mas o nome cer­ta­mente atrairá a cu­ri­o­si­dade do pú­blico para mais um pro­grama de grande pe­ne­tra­ção da te­le­vi­são bra­si­leira.

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