Confissões

Um certo bilhete, 40 anos

sexta-feira, 8 de julho de 2011 Texto de

Re­cebi esta se­mana o se­guinte e-mail:

“Márcio, boa noite. 

“Nem sei por onde co­me­çar. E nem sei se vou aca­bar. Mas uma coisa aqui den­tro fica me di­zendo que eu pre­ciso con­tar isso a al­guém. In­crí­vel, não? Mas nunca con­tei isso ao meu ma­rido nem aos meus fi­lhos. Não sei o que é, mas te falo desde já que não sei se um dia con­ta­rei.

“Moro em São Paulo e en­tro re­gu­lar­mente em seu blog e foi por onde eu fi­quei sa­bendo do seu novo ro­mance, Des­rumo. Com­prei o li­vro pela in­ter­net sem sa­ber exa­ta­mente o mo­tivo. Por­que uma coisa é ler tex­tos cur­tos no seu blog e ou­tra é pe­gar um li­vro de um au­tor que nunca li. Foi duro no co­meço por­que tive di­fi­cul­dade de me fa­mi­li­a­ri­zar com sua lin­gua­gem. Pra di­zer a ver­dade, quase de­sisti. Mas de­pois, sem per­ce­ber, eu es­tava tão en­vol­vida que não con­se­guia pa­rar de ler. Tudo bem que eu gosto bas­tante de ler, mas mesmo as­sim…

“Es­tou es­cre­vendo es­sas coi­sas para que você com­pre­enda o que quero com este e-mail. De­pois de ler mui­tos tex­tos em seu blog e prin­ci­pal­mente de­pois de ler o Des­rumo, me senti à von­tade para man­dar este e-mail a você. Não sei, mas pelo que li, senti de sua parte sen­si­bi­li­dade su­fi­ci­ente para me sen­tir à von­tade.

“Li na se­mana pas­sada um conto que você es­cre­veu e que você teve a ideia por­que um amigo seu te fa­lou uma his­tó­ria da in­fân­cia dele. Achei tão sen­sí­vel es­cre­ver um conto e ofe­re­cer para seu amigo! De re­pente foi isso que me deu co­ra­gem, mas não vou me iden­ti­fi­car e nem di­zer os no­mes das pes­soas, e sua sen­si­bi­li­dade vai te fa­zer en­ten­der isso. 

“De­pois, se você achar que vale a pena, tam­bém pode fa­zer um conto disto, tá bom? Márcio, quando eu ti­nha uns 7 ou 8 anos de idade, lá por 1971, 1972, meu pai era de um des­ses gru­pos clan­des­ti­nos que vi­viam sendo pro­cu­ra­dos pe­los mi­li­ta­res da di­ta­dura. En­quanto nin­guém sa­bia disso, tudo bem, acho que ele sa­bia se vi­rar bem. Mas de­pois tudo foi fi­cando com­pli­cado para o pes­soal dele, até que des­co­bri­ram e ele teve que fu­gir.

“No co­meço, ele até ia para casa de vez em quando, mas de­pois nem isso mais, por­que sem­pre ha­via gente do exér­cito ron­dando pelo nosso bairro, um lu­gar de classe mé­dia em São Paulo. Bem, co­me­çou a ir a nossa casa um ho­mem do exér­cito, um tipo alto, ma­gro, sem­pre muito sé­rio. É di­fí­cil ex­pli­car como eu me lem­bro dele, mas se você es­cre­ver um conto desse as­sunto, você vai sa­ber criar essa pes­soa.

“Ele ia pelo me­nos duas ve­zes por se­mana. Eu me lem­bro que uma vez es­ta­vam na sala ele e ma­mãe e che­gou uma vi­zi­nha. Ma­mãe a cha­mou na co­zi­nha e ex­pli­cou de­pressa que es­ta­vam con­ver­sando so­bre o ma­rido. Mas era es­tra­nho por­que eu nunca ouvi os dois fa­la­rem de meu pai, e eu sem­pre que­ria bis­bi­lho­tar a con­versa de­les para sa­ber onde es­tava meu pai. Eu ti­nha mui­tas sau­da­des dele.

“O tempo foi pas­sando e uma noite ele dor­miu na nossa casa. Foi as­sim: os dois es­ta­vam na sala con­ver­sando quando ele se le­van­tou, se des­pe­diu e saiu. Mi­nha mãe, de­pois disso, me man­dou dor­mir, mas era mais cedo do que o nor­mal, e eu per­cebi isso muito bem. E não con­se­gui pe­gar no sono. Dali a meia hora mais ou me­nos, eu ouvi al­guém abrir a porta, fi­quei me es­for­çando para sa­ber quem era, mas nin­guém con­ver­sou. Aquilo me dei­xou muito cu­ri­osa. Eu me le­van­tei no es­curo e muito de­va­gar abri só uma fres­ti­nha da porta. Exa­ta­mente nessa hora eu vi que o mi­li­tar ti­nha vol­tado. Eles apa­ga­ram as lu­zes e fo­ram para o quarto de ma­mãe.

“Aquilo para mim foi es­qui­sito na hora, mas no ou­tro dia eu já ti­nha es­que­cido. Só que isso co­me­çou a se re­pe­tir. Eu eu co­me­cei a fi­car in­co­mo­dada. Uma coisa que me in­co­mo­dava muito tam­bém era que ma­mãe pa­re­cia es­tar muito fe­liz, mesmo sem ver meu pai. Não sei di­zer a você quanto tempo le­vou essa his­tó­ria. Mas uma noite, acho que coisa de uns cinco ou seis me­ses de­pois, meu pai apa­re­ceu. Ele não fi­cava em casa, só apa­re­cia e vol­tava para onde nin­guém sa­bia. E isso foi para mim mo­tivo de muita fe­li­ci­dade. Eu vi­via no por­tão es­pe­rando por ele. Qual­quer ruído que eu ou­via eu cor­ria para a porta na es­pe­rança de que fosse ele. Já ma­mãe, ao con­trá­rio, teve uma re­a­ção bem di­fe­rente.

“Ela pa­re­cia ter fi­cado des­con­tente de uma hora para ou­tra. Al­gu­mas se­ma­nas se pas­sa­ram até que eles co­me­ça­ram a dis­cu­tir quase sem­pre que se viam. E de­pois de um tempo, re­sol­ve­ram se se­pa­rar. Foi uma grande tris­teza na mi­nha vida, uma coisa que me mar­cou de­mais. Não sei se você já pas­sou por isso, mas para uma cri­ança é um acon­te­ci­mento hor­rí­vel.

“Bem, Márcio, você é in­te­li­gente para sa­ber so­bre o que es­tou di­zendo. Eu tam­bém cresci sa­bendo per­fei­ta­mente o que acon­te­ceu nessa época da mi­nha vida. Nunca fa­lei disso com ma­mãe e muito me­nos com pa­pai. Quando eu ti­nha 15 anos, ele mor­reu de cân­cer no pul­mão. Pra di­zer a ver­dade, nem gosto de fa­lar disso. Não sei o que pode ser pior do que per­der um dos pais na ado­les­cên­cia.

“Por di­ver­sas ve­zes eu de­cidi con­ver­sar com ma­mãe. Lem­brar da­quele mi­li­tar en­trando em casa, con­ver­sando com ma­mãe, às ve­zes me le­vando bom­bons, e até dor­mindo lá, sem­pre me in­co­mo­dou. Mas nunca tive co­ra­gem de fa­lar disso com ela. Ma­mãe sem­pre foi uma mu­lher dura, fe­chada.

“Faz dois anos que ela mor­reu. E quando fo­mos ar­ru­mar a casa dela, jo­gar fora as bu­gi­gan­gas, se­pa­rar rou­pas para doar, es­sas coi­sas que todo mundo faz quando uma pes­soa que mora so­zi­nha morre, en­con­tra­mos uma caixa de sa­pa­tos com lem­bran­ci­nhas an­ti­gas, con­vi­tes de ca­sa­mento, de ani­ver­sá­rio, san­ti­nhos de missa de sé­timo dia e en­tre es­ses pa­péis ha­via uma carta. Na ver­dade, um bi­lhete.

“Está es­crito as­sim, exa­ta­mente com es­tas pa­la­vras:

‘Que­rida S., não po­de­re­mos mais se­guir adi­ante. Es­pero que com­pre­enda. Creio não ser ne­ces­sá­rio dizê-la (sic) dos mo­ti­vos. Já fa­la­mos e en­ten­de­mos que a qual­quer mo­mento es­tá­va­mos (sic) em pe­rigo. Visto uma farda, te­nho um nome a ze­lar. Peço per­dão se a (sic) causo um so­fri­mento. Va­mos guar­dar nos­sas boas re­cor­da­ções e mais nada. Es­tou muito triste e não sei como con­sigo es­con­der essa tris­teza da mi­nha fa­mí­lia. Es­tive pen­sando on­tem que se não va­mos mais po­der con­ti­nuar é por­que tam­bém gas­ta­mos toda nossa fe­li­ci­dade no pouco tempo que con­vi­ve­mos. Deixo-a (sic) um beijo grande e levo co­migo a sau­dade sem fim. Seu R.’

“É só isso, Márcio. Es­pero que você te­nha ins­pi­ra­ção para fa­zer uma his­tó­ria disso. Não pre­tendo dar ne­nhum nome, tá bom? E vou pa­rando por aqui para man­dar logo o e-mail, se­não acabo de­sis­tindo. Obri­gada por me ou­vir.

“Fe­li­ci­da­des a você.

“(Se qui­ser usar um nome para mim, eu gos­ta­ria de He­lena).

“Muito obri­gada.”

Cara He­lena, com­pre­endo seus re­ceios e ja­mais fa­ria nada para des­res­pei­tar seu pe­dido. Res­pondi ao seu e-mail as­sim: “Pre­zada He­lena, obri­gado por sua men­sa­gem. A res­posta es­tará no blog bre­ve­mente”. E aqui está mi­nha res­posta. O e-mail que você me en­viou não pre­cisa ser trans­for­mado em conto. Seu e-mail já é o pró­prio conto. Nem sei como agra­de­cer a você pela con­fi­ança e pelo ca­ri­nho. Aliás, sei sim: pro­cu­rando não incomodá-la. Não vou es­cre­ver uma men­sa­gem a você di­zendo que es­tou in­te­res­sado em mais in­for­ma­ções para, tal­vez, es­cre­ver uma ma­té­ria jor­na­lís­tica (da­ria um ótimo tí­tulo: “Um certo bi­lhete, 40 anos”) ou algo do gê­nero li­te­rá­rio. Mas se você qui­ser, es­tou aqui. 

Um abraço.

Márcio ABC

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