Confissões

Confissões: ‘Um erro decisivo’

sexta-feira, 11 de março de 2011 Texto de

MAIS UMA HISTÓRIA DE UM BRASILEIRO ANÔNIMO

Há er­ros em nos­sas vi­das que não po­de­mos ad­mi­tir. Esta é a pe­quena his­tó­ria de um erro que meu pai co­me­teu. Ele é um po­li­cial mi­li­tar des­ses afei­tos ao per­fec­ci­o­nismo den­tro do que lhe exige a pro­fis­são. Desde que me co­nheço por gente, vi meu pai pro­ce­dendo do mesmo modo desde a hora em que acor­dava até quando se dei­tava. Ra­ra­mente, dava um passo di­fe­rente.

An­tes de sair para o tra­ba­lho, ele fa­zia a barba to­dos os dias. Vestia-se obe­de­cendo ao mesmo ri­gor. Via o no­ti­ciá­rio na mesma emis­sora de TV. Saía no mesmo ho­rá­rio. E acho até que dava todo dia o mesmo beijo de des­pe­dida na mi­nha mãe. Mas a pri­meira coisa que ele fa­zia era lim­par cui­da­do­sa­mente sua arma. Essa era a parte que eu mais gos­tava.

Ele ti­nha um tra­quejo in­crí­vel para de­sar­mar, ti­rar a mu­ni­ção, fa­zer a lim­peza, pre­pa­rar sua fer­ra­menta de tra­ba­lho e por fim encaixá-la com classe à cin­tura. Na ver­dade, pou­cas ve­zes tive per­mis­são para per­ma­ne­cer no quarto en­quanto ele se pre­pa­rava. Mas as­sim mesmo eu ten­tava to­dos os dias fi­car por ali, como quem não quer nada, an­tes de ir para a es­cola.

Certo dia, no meio da ma­nhã, ele foi sur­pre­en­dido por dois mar­gi­nais, que o do­mi­na­ram num des­ses be­cos iso­la­dos de nos­sas gran­des ci­da­des. Pelo que meu pai pôde per­ce­ber, am­bos es­ta­vam dro­ga­dos. Tudo acon­te­ceu ao acaso. Quando ele se deu conta, um dos ra­pa­zes saiu pe­las cos­tas de­trás de um en­tu­lho qual­quer e en­cos­tou um cano em sua nuca. Em se­guida, o ou­tro apa­re­ceu, olhos vi­dra­dos, di­zendo coi­sas des­co­ne­xas.

Bas­tante ex­pe­ri­ente, meu pai pe­diu calma e ten­tou convencê-los de que tudo po­de­ria aca­bar bem. Mas eles não qui­se­ram ou­vir con­versa al­guma. De­sa­jei­tado, o ban­dido que es­tava por trás ti­rou a arma de meu pai e a jo­gou ao com­pa­nheiro. Man­dou que meu pai se ajo­e­lhasse e pe­diu para que o ou­tro fi­zesse uma brin­ca­deira de ro­leta russa.

Na­quele mo­mento, meu pai en­trou em de­ses­pero, mas qual­quer mo­vi­mento mais brusco po­de­ria apres­sar sua morte. O ra­paz, vi­si­vel­mente des­con­tro­lado, nem se cer­ti­fi­cou so­bre as ba­las, nem mesmo olhou o tam­bor. Foi logo me­tendo o re­vól­ver na ca­beça do po­li­cial. Vai logo, dis­para essa merda, gri­tava o mar­gi­nal que es­tava pe­las cos­tas. Tre­mendo muito, o ati­ra­dor aper­tou o ga­ti­lho. Mas não saiu nada. E nisso, vendo-se com­ple­ta­mente em pâ­nico, o ban­dido sol­tou o re­vól­ver e cor­reu em dis­pa­rada. O pri­meiro, aquele que che­gou pe­las cos­tas, fez o mesmo. Tal­vez ele nem mesmo ti­vesse uma arma de ver­dade.

Meu pai es­ti­cou o braço e pe­gou o re­vól­ver. Não ha­via uma bala se­quer no tam­bor. Um po­li­cial mi­li­tar em ser­viço há tanto tempo e na­quele dia, exa­ta­mente na­quele dia, ele fa­lhara. Ao lim­par a arma, como fa­zia to­das as ma­nhãs, esqueceu-se de co­lo­car a mu­ni­ção. Uma fa­lha im­per­doá­vel dei­xar o re­vól­ver des­car­re­gado. Logo um sol­dado.

Ven­de­dor, 29 anos, São Paulo

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