Confissões

Confissões: ‘Por toda a vida’

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011 Texto de


Al­gum tio ve­lho da mi­nha fa­mí­lia ti­nha um des­ses ca­pa­ce­tes que os sol­da­dos usam na guerra. Não sei de que guerra ou re­vo­lu­ção era o dele, mas um dia – lá pela dé­cada de 1970 – ele o dei­xou em casa, tam­bém não sei bem o mo­tivo. O que sei é que fi­quei fas­ci­nado por aquele ob­jeto es­tra­nho e pe­sado de co­brir a ca­beça. Eu de­via ter uns 5 ou 6 anos, mas eu me lem­bro bem o quanto eu gos­ta­ria de po­der usá-lo. Só que mi­nha mãe nunca me dei­xava to­car nele. Fi­cava em cima de um ar­má­rio e eu não po­dia alcançá-lo. 
Num do­mingo, de­pois do al­moço, nós es­tá­va­mos na sala e che­ga­ram al­guns pa­ren­tes para uma vi­sita rá­pida. Quando eles fo­ram em­bora, to­dos saí­ram à cal­çada para se des­pe­dir. Meu pai ha­via pe­gado o ca­pa­cete para mos­trar a um dos pa­ren­tes e quando saiu à rua, ainda carregava-o nas mãos. Ao lado dele, es­tava mi­nha mãe com meu ir­mão­zi­nho no colo. De­via ter uns dois ou três anos. Por uma brin­ca­deira, meu pai co­lo­cou o ca­pa­cete na ca­beça do meu ir­mão.
Até ali, eu nunca ha­via sen­tido uma raiva tão grande. Eu sem­pre quis co­lo­car o ca­pa­cete, mas nunca me dei­xa­vam. Uma bo­ba­gem, é ver­dade. Mas para uma cri­ança as bo­ba­gens po­dem ser coisa sé­ria. Eu pen­sei algo como “to­mara que morra”. E nisso, o que se pas­sou foi tão ater­ra­dor que eu ja­mais pude es­que­cer. Al­guém da vi­zi­nhança, acho que tam­bém por brin­ca­deira, fez al­guns dis­pa­ros com um re­vól­ver. E uma das ba­las ri­co­che­teou exa­ta­mente no ca­pa­cete que co­bria a ca­be­ci­nha do meu ir­mão. Ele foi salvo pelo ca­pa­cete de guerra.
Até hoje eu me lem­bro de como me senti por causa do pen­sa­mento que eu ti­vera al­guns se­gun­dos an­tes. Um pen­sa­mento que nunca pude con­fes­sar. Por­que ainda me sinto cul­pado. Bo­ba­gem? Tal­vez, mas bo­ba­gens de cri­an­ças às ve­zes nos mar­cam para a vida toda. 

Pro­fes­sor, 35 anos, Belo Ho­ri­zonte

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