Crônicas

Memória da saudade

segunda-feira, 1 de novembro de 2010 Texto de


Ví­deo com “Can­ção da Amé­ri­ca” e ce­nas do en­ter­ro de Elis Re­gi­na, em 1982. É com es­ta mú­si­ca e es­sa voz ex­tra­or­di­ná­ria que ho­me­na­geio meus ami­gos mor­tos

Eu res­pei­to mui­to as cren­ças e os ri­tu­ais. Des­de, cla­ro, que não se­jam ab­sur­dos. E co­mo há cren­ças e ri­tu­ais ab­sur­dos! Mas is­so fi­ca pa­ra ou­tra ho­ra. O fa­to é que eu res­pei­to mui­to as cren­ças e os ri­tu­ais. Por­que, afi­nal de con­tas, nós sa­be­mos tão pou­co, qua­se na­da. Co­mo te­ria di­to Só­cra­tes, o fi­ló­so­fo, só sei que na­da sei. E eis o que sei: res­pei­to, re­cu­so-me a du­vi­dar do que não sei, e co­mo na­da sei, de na­da du­vi­do.

Quan­do eu era ga­ro­to, ga­ro­to mes­mo, de 4 ou 5 anos, um dos di­as mais di­ver­ti­dos pa­ra mim era Fi­na­dos. Na­que­las tar­des em­po­ei­ra­das de ca­lor, chu­pá­va­mos sor­ve­te de gro­se­lha na por­ta do ce­mi­té­rio. Eram pi­co­lés que os sor­ve­tei­ros le­va­vam pa­ra o lo­cal em cai­xas de iso­por. Saíam de lá meio der­re­ti­dos pe­las al­tas tem­pe­ra­tu­ras da épo­ca, mas as­sim mes­mo eram de­li­ci­o­sos.

Fi­na­dos era uma fes­ta pa­ra nós, cri­an­ças do sí­tio com pou­cas di­ver­sões. O ri­tu­al, aliás, co­me­ça­va di­as an­tes. Mi­nhas ti­as, co­mo aque­las es­pa­nho­las dos fil­mes de Amo­dó­var, di­ri­gi­am-se com an­te­ce­dên­cia aos tú­mu­los e ca­pe­las. Tu­do pre­ci­sa­va es­tar mui­to bem lim­po e ar­ru­ma­do pa­ra o dia das vi­si­tas. E lá ia eu tam­bém. Olhar pa­ra aque­las cons­tru­ções me­lan­có­li­cas, cru­zes as­sus­ta­do­ras, re­tra­tos de ve­lhos es­tra­nhos.

O tem­po pas­sou e mi­nhas cren­ças des­co­la­ram-se dos ri­tu­ais. Di­fi­cil­men­te vou a ce­mi­té­ri­os. Acho que é re­al­men­te pre­ci­so cui­dar bem do lo­cal, mas ape­nas por uma ques­tão de saú­de pú­bli­ca. E, em mui­tos ca­sos, por res­pei­to à ar­te. Por­que, no que se re­fe­re aos nos­sos mor­tos, lá não exis­te ab­so­lu­ta­men­te na­da que me­re­ça nos­sa aten­ção. Mas, co­mo eu dis­se no iní­cio, res­pei­to e ad­mi­ro aque­les que se de­di­cam a vi­si­tar, le­var flo­res, ajo­e­lhar e até acre­di­tar que ali são ou­vi­dos pe­las pes­so­as que­ri­das que se fo­ram.

Na mi­nha ca­be­ça, acho mais pro­vá­vel que nos­sos mor­tos que­ri­dos es­te­jam te­clan­do nu­ma re­de vir­tu­al do além do que per­den­do tem­po de­bai­xo da ter­ra, en­clau­su­ra­dos em ri­dí­cu­las cai­xas, à es­pe­ra das vi­si­tas dos di­as de Fi­na­dos. Sim, sim, eu sei. É ape­nas um ri­tu­al. E, co­mo eu dis­se, aqui es­tá de no­vo meu res­pei­to.

Mas o ca­so é que ho­je, vés­pe­ra de Fi­na­dos, eu que­ro acre­di­tar que é mais fá­cil nos­sos mor­tos le­rem uma men­sa­gem via web do que ou­vir nos­sas ora­ções so­bre seus tú­mu­los. E as­sim, ar­ris­co-me aqui a lem­brá-los.

Em vá­ri­os es­pa­ços, os veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção cos­tu­mam nes­ta épo­ca re­cor­dar os mor­tos fa­mo­sos. Es­ti­mu­lam no pú­bli­co a lem­bran­ça da­que­les que fi­ze­ram his­tó­ria do país, do mun­do. Mas, não sei não, acho que a ver­da­dei­ra sau­da­de vem mes­mo ape­nas da­que­les com quem vi­ve­mos em cer­tas épo­cas de nos­sas vi­das. Gen­te da fa­mí­lia ou ami­gos ou co­le­gas ou na­mo­ra­dos. Meu pai, meus ti­os, mi­nhas ti­as, mi­nha avó (a úni­ca que co­nhe­ci), mi­nha cu­nha­da. A fa­mí­lia é sem­pre um ro­sá­rio de mor­tes e sau­da­des.

Ami­gos lon­gín­quos, co­mo o Lu (Lu­ci­a­no). Mor­reu aos 14 ou 15 anos. Mor­reu com to­da a fa­mí­lia num ter­rí­vel aci­den­te do qual ape­nas um ir­mão so­bre­vi­veu. Te­nho sau­da­des de vo­cê, Lu, ga­ro­to sau­dá­vel, bo­ni­to, in­te­li­gen­tís­si­mo, ba­ca­na. Não sei se vo­cê es­tá lem­bra­do da­que­le dia no cam­pi­nho. Jo­gá­va­mos fu­te­bol e, num lan­ce em que eu já ha­via pas­sa­do a bo­la, vo­cê che­gou por trás de mim e en­cos­tou tu­do o que po­dia (era o que cha­má­va­mos de “en­co­xa­da” e fa­zía­mos pa­ra sa­ca­ne­ar mes­mo). Por­ra, eu fi­quei mui­to pu­to e caí de por­ra­da em ci­ma de vo­cê. Me des­cul­pe, ca­ra.

O Izi­do­ro, que tam­bém mor­reu num aci­den­te. Vo­cê, Izi­do­ro, era tão di­ver­ti­do que até na ho­ra de mor­rer ti­rou on­da com a ca­ra de to­do mun­do: to­mou umas a mais e an­dou sim­ples­men­te vin­te e pou­cos quilô­me­tros de ro­do­via na con­tra­mão. Sim, é ver­da­de, meu ca­ro. Vo­cê fez is­so! Lem­bra quan­do na épo­ca dos te­le­vi­zi­nhos vo­cê ia em ca­sa, fi­ca­va ven­do TV até tar­de e, por­que nós já tí­nha­mos ido dor­mir, vo­cê fe­cha­va a ca­sa e jo­ga­va a cha­ve por de­bai­xo da por­ta?

Gra­nei­ro, que jo­ga­va tru­co de um mo­do sui ge­ne­ris: con­se­guia per­der de ca­sal pre­to no pé. E ain­da re­cla­ma­va dos par­cei­ros. Seu fi­lho da pu­ta, que si­nal vo­cê que­ria que nós dés­se­mos a vo­cê se to­das as ma­ni­lhas es­ta­vam con­ti­go? Na ver­da­de, não sei di­rei­to do que vo­cê mor­reu. Tam­bém, pa­ra quê? Co­mo vo­cê cos­tu­ma­va brin­car, “an­tes ele do que eu”. Ou se­ja, “an­tes vo­cê do que eu” (Ah! Ah! Ah!)

Do­na Ma­ria, que nu­ma noi­te de do­min­go, de­pois de uma chur­ras­ca­da de do­ze ho­ras, fri­tou vin­te ovos pa­ra co­mer­mos com ar­roz. Vo­cê mor­reu de cân­cer, Ma­ria. Mas foi bra­va! Deu li­ções, che­gou a hu­mi­lhar es­sa do­en­ça de mer­da: lem­bra quan­do, à bei­ra da mor­te, vo­cê le­van­ta­va de ma­dru­ga­da e nos re­ce­bia pa­ra jo­gar um be­lo car­te­a­do? O mai­or ba­ra­to era vê-la se pre­pa­rar pa­ra o jo­go: vo­cê ia pa­ra seu quar­to e se sen­ta­va di­an­te da pen­te­a­dei­ra. Ali, pas­sa­va ba­tom e re­to­ca­va a ma­qui­a­gem. Lem­bra dis­so?

Fred Cal­mon, que com aque­la voz avas­sa­la­do­ra e aque­le jei­tão de ga­lã de Hollywo­od dos ve­lhos tem­pos con­ta­va su­as his­tó­ri­as mag­ní­fi­cas de amor e sa­ca­na­gem. Co­po nu­ma mão e ci­gar­ro na ou­tra, à me­sa do bar, vo­cê era a atra­ção pa­ra nós, jo­vens jor­na­lis­tas que gos­tá­va­mos de ou­vi-lo. Se não me en­ga­no, vo­cê mor­reu num sá­ba­do. Sua Vir­gi­ni­nha (Vir­gí­nia) es­ta­va tris­te de dar pe­na. Lem­bra-se do me­do que vo­cê ti­nha de­la? (Ah! Ah! Ah!)

Pe­dras­si­nha, que nós le­vá­va­mos pa­ra as noi­ta­das e que nos con­ta­va sem­pre as mes­mas his­tó­ri­as. E nós sem­pre as ou­vía­mos por­que era vo­cê, Pe­dras­si­nha, quem as con­ta­va. No seu ve­ló­rio, al­guém de­ve ter co­men­ta­do so­bre o dia em que vo­cê qua­se per­deu uma ore­lha. Foi de­pois de uma fi­nal de cam­pe­o­na­to que o seu São Pau­lo ga­nhou. To­do mun­do es­ta­va na­que­le es­ta­do. Vo­cê foi ao ba­nhei­ro, tro­pe­çou e, ao apoi­ar-se nos azu­le­jos, des­li­zou pa­re­de abai­xo. O pro­ble­ma é que sua ore­lha en­ga­tou nu­ma tor­nei­ra e vo­cê fi­cou pen­du­ra­do. Mas, no fim das con­tas, aque­le ore­lhão de dum­bo foi con­ser­ta­do no hos­pi­tal.

Seu Ál­va­ro, meu so­gro, a quem de­vo meu pri­mei­ro ro­man­ce: “Pa­ra­ba­la”. Ele era to­do cer­ti­nho, mas tam­bém apron­ta­va das su­as. Acon­se­lha­do pe­los mé­di­cos (e pe­la mu­lher) a não be­ber mais do que uma ou du­as ta­ças de vi­nho, dri­bla­va, com a mi­nha aju­da, a vi­gi­lân­cia du­ran­te nos­sos al­mo­ços pa­ra que ele pu­des­se che­gar à ter­cei­ra ou quem sa­be à quar­ta. Lem­bra-se da­que­la ma­ra­vi­lho­sa his­tó­ria do ca­chor­ro que se de­sin­te­grou di­an­te do se­nhor? E de tan­tas ou­tras? E do dia de nos­so aci­den­te, quan­do o se­nhor foi pa­pa­ri­ca­do por umas mu­lhe­res? Lem­bra-se de­las fa­zen­do com que o se­nhor se sen­tas­se nu­ma ca­dei­ra à som­bra, dan­do-lhe água e aba­nan­do-lhe a fa­ce de­bai­xo de um tol­do co­mo se o se­nhor fos­se o rei da Pér­sia?

Gi­se­le, que eu na­mo­rei na mi­nha ju­ven­tu­de e com quem tra­vei tan­tas aven­tu­ras. Ela era um pou­co mais ve­lha do que eu. Eu a via, lin­da e co­bi­ça­da por tan­tos ho­mens, e de­sis­tia an­tes da ho­ra. Não era pa­ra meu bi­co. En­tão acon­te­ceu. Sem que eu sou­bes­se co­mo, acon­te­ceu. E fi­ca­mos jun­tos por um tem­po. Lem­bra-se quan­do vo­cê foi pa­ra a ci­da­de on­de eu tra­ba­lha­va e, pa­ra que vo­cê pu­des­se fi­car no apar­ta­men­to da em­pre­sa on­de eu mo­ra­va, in­ven­ta­mos que vo­cê era mi­nha ir­mã?

Du, meu ami­go que co­me­çou a fa­zer jor­na­lis­mo e de­pois de um tem­po pa­rou. Pa­rou com tu­do. Com a vi­da tam­bém. Vo­cê era um ca­ra le­gal, em­bo­ra sua in­tros­pec­ção o afas­tas­se de qua­se to­do mun­do. Mas não de mim. Vo­cê era mais ve­lho do que eu. Era qua­se um fi­ló­so­fo. Do­no de uma in­crí­vel ca­pa­ci­da­de in­te­lec­tu­al. E ao mes­mo tem­po, de uma sen­si­bi­li­da­de ex­tra­or­di­ná­ria. Lem­bra-se quan­do vo­cê, num ato de ge­ne­ro­si­da­de, ar­ru­mou pa­ra mim uma fo­to da­que­la ga­ro­ta por quem eu era apai­xo­na­do?

Flá­vio, o su­jei­to mais ge­ne­ro­so que eu já co­nhe­ci. No tra­ba­lho, fa­zia cho­ver ba­las e bom­bons so­bre os fun­ci­o­ná­ri­os. Mas não era es­sa sua ver­da­dei­ra ge­ne­ro­si­da­de. Cla­ro que não. Sua ge­ne­ro­si­da­de não era ma­te­ri­al, fa­zia par­te de sua al­ma. Vo­cê se lem­bra de co­mo nos co­nhe­ce­mos? Se con­tar nin­guém acre­di­ta. Eu li­guei pa­ra vo­cê e dis­se as­sim: “Vo­cê quer ser meu che­fe?” (Ah! Ah! Ah!). Nun­ca me ar­re­pen­di do con­vi­te. Es­pe­ro que a re­cí­pro­ca te­nha si­do ver­da­dei­ra.

Há mais, cla­ro. Um ho­mem de 46 anos já per­deu vá­ri­os ou­tros fa­mi­li­a­res, ami­gos, co­le­gas etc. Mas pa­ra quê? Se o ob­je­ti­vo é ape­nas um? Di­zer: fi­na­do é ca­da um de vo­cês, mas tam­bém par­te de mim. Por­que, a ca­da mor­te de vo­cês, um pou­co de mim tam­bém mor­reu.

Ane­xo

Tam­bém sin­to sau­da­des dos nos­sos ca­chor­ros que se fo­ram. E pa­ra ho­me­na­geá-los pu­bli­co aqui a fo­to do úl­ti­mo, mor­to no iní­cio des­te ano: nos­so in­crí­vel Ro­nal­di­nho, que só não fa­lou por­que Deus não quis.

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