Conversa dos outros (vida real) | Márcio ABC

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Conversa dos outros (vida real)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010 Texto de

Num ôni­bus do li­to­ral pau­lis­ta ru­mo a São Pau­lo. Uma mu­lher ses­sen­to­na, ou tal­vez se­ten­to­na, tra­va­va um cu­ri­o­so diá­lo­go com um su­jei­to um pou­co mais no­vo que se sen­ta­va além do cor­re­dor, ao la­do de­la. Eles já vi­nham no car­ro e o pa­po cor­ria sol­to.

- … Nãããão­oo, de jei­to ne­nhum – im­pres­si­o­nou-se a mu­lher, olhos ba­ban­do fel.
- Pu­xa vi­da! – ad­mi­rou-se o su­jei­to, qua­se que num sus­sur­ro ape­nas pa­ra ele e mais nin­guém.
- Ali nun­ca te­ve san­to!
- E os fi­lhos da se­nho­ra?
- Ah, es­ses são ou­tros son­sos.
- Hum...
- Pu­xa­ram o pai.
- Ah é? Hehehehe...
- Ah, ali não so­bra nin­guém...– ex­pan­diu-se de vez a mu­lher, er­guen­do a voz pa­ra quem qui­ses­se ou­vir no ôni­bus – Nem pai nem fi­lho nem es­pí­ri­to san­to!
- E o ma­ri­do da se­nho­ra sa­bia que o ir­mão en­ga­na­va ele?
- Ii­i­chi­ii! Sem­pre sou­be. Um mo­lei­rão! O ou­tro le­vou ca­sa, di­nhei­ro e o que mais con­se­guiu.
- E ele nun­ca fa­lou na­da?
- Na­da, na­da. Bom, ele não ia le­var na­da mes­mo por­que mor­reu lo­go de­pois do ve­lho, mas po­dia ter dei­xa­do pros fi­lhos, né?
- É ver­da­de...
- Ah, mas no ve­ló­rio vi­e­ram lá com con­ver­sa mo­le da­qui, con­ver­sa mo­le da­li, por­que coi­ta­do da­qui, coi­ta­do da­li, is­so e aqui­lo. Eu fa­lei as­sim: olha aqui, deu a ho­ra, não deu? Fe­cha a tam­pa e man­da pro ce­mi­té­rio!

De­pois, ela re­pe­tiu mais umas trin­ta ve­zes que o cu­nha­do me­te­ra a mão na he­ran­ça da fa­mí­lia e que os fi­lhos de­la fi­ca­ram a ver na­vi­os, tem­po su­fi­ci­en­te pa­ra che­gar­mos ao me­trô do Ja­ba­qua­ra, on­de du­as em­pre­ga­das do­més­ti­cas des­ci­am a guas­ca nas res­pec­ti­vas pa­tro­as. Mas is­so fi­ca pa­ra ou­tro dia.

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