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Não me cobre coerência, por favor

terça-feira, 22 de junho de 2010 Texto de

Ser jor­na­lista es­por­tivo é fá­cil. Ima­gino que mui­tos co­le­gas caí­ram de pa­ra­que­das em edi­to­rias de as­sun­tos fora de seus re­per­tó­rios. No es­porte, in­va­ri­a­vel­mente, o cara manja (al­guns pen­sam que man­jam, mas a se­le­ção na­tu­ral dá conta de­les). Aí, vira mo­leza co­lo­car no pa­pel (no mi­cro­fone, na web, en­fim) todo o seu en­tu­si­asmo.

Di­fí­cil, e é disso que ve­nho fa­lar, é ser jor­na­lista es­por­tivo à pai­sana. Nas con­ver­sas com os ami­gos, cobram-nos co­e­rên­cia! Como se eu não tor­cesse para um time, não xin­gasse juiz, não ti­vesse meu ído­los. Eu vou além disso. Gosto de boas his­tó­rias, jo­ga­do­res que de­ci­dem ru­mos de par­ti­das, que se apoiam, mui­tas ve­zes, mais no ca­risma do que no ta­lento. Os de ta­lento, en­tão, de­fendo até a morte!

Co­e­rente se­ria di­zer que Mi­lito, ata­cante da Internazionale-ITA, joga muito mais bola do que Pa­lermo (aquele dos três pê­na­lis per­di­dos em um único jogo). De cor­neta na mão, sou Pa­lermo e não abro! O cara berra, ar­ranca a ca­misa, dá o san­gue… De que­bra, fez o gol que co­lo­cou a cam­ba­le­ante Ar­gen­tina na Copa! De­fi­ni­ti­va­mente, gosto de per­so­na­gens.

Ed­mundo, Ro­má­rio, Djal­mi­nha, Adri­ano, Edíl­son Ca­pe­ti­nha, Ro­bi­nho… A lista de bad boys é longa. O que fi­ze­ram (ou fa­zem) su­pera qual­quer falta ao treino, no­ti­nha po­li­cial ou gole exa­ge­rado. De­fi­ni­ti­va­mente não ca­sa­riam com mi­nha fi­lha, mas jo­gam no meu time. Kaká, ape­sar de ta­ma­nho ta­lento, é ca­risma zero. De seu es­tilo pi­colé de chu­chu brota meu medo de fra­casso bra­si­leiro na África do Sul.

Den­tro desse ‘pai­xo­cí­nio’ (permita-me o termo novo), Ro­nal­di­nho não pode ser pre­te­rido por Dunga. Ima­gino ele, a Copa toda no banco – tam­bém não sou lu­ná­tico de que­rer o den­tu­ci­nho do Mi­lan ti­tu­lar – e en­trando no se­gundo tempo da fi­na­lís­sima. Falta na meia-lua, close no rosto con­cen­trado, bola no ân­gulo e suas tran­ças vo­ando pra ga­lera! Al­guém con­se­gue so­nhar lance pa­re­cido com Elano? Jú­lio Bap­tista?

Co­e­rente se­ria di­zer que Ga­le­ano foi um le­gí­timo perna-de-pau. Char­les Guer­reiro idem. Jú­nior Bai­ano? O an­ti­fu­te­bol em pes­soa! Por ou­tro ân­gulo: um sal­vou o Pal­mei­ras em jogo de Li­ber­ta­do­res, pos­te­ri­ro­mente ven­cido nos pê­nal­tis (so­bre o Co­rinthi­ans, em 2000); ou­tro fez seu pri­meiro gol com a ca­misa do Fla­mengo cha­pe­lando za­gueiro e notabilizou-se por per­der gol feito pela Se­le­ção (sim!) em Wem­bley; Jú­nior Bai­ano, dis­cordo de to­dos, sa­bia jo­gar bola, era um Do­min­gos da Guia com alma de bo­xe­a­dor e pas­sar sus­tos na tor­cida fa­zia parte de seu show.

Por isso, de cor­neta na mão, te­nho cer­teza de que o Obina é me­lhor do que o Eto’o. Quero que o Mu­ricy con­ti­nue dando pa­tada em jor­na­lista. E que o Ma­ra­dona seja bem-sucedido como trei­na­dor da Ar­gen­tina (não ne­ces­sa­ri­a­mente ga­nhando uma Copa, claro…), com toda a sua vi­bra­ção e sua his­tó­ria er­rante, com san­gue nas veias (se não foi Pelé em campo, expôs suas fra­que­zas como nin­guém – e um ho­mem sem más­ca­ras me­rece ven­cer).

Por­tanto, se você me en­con­trar sem cra­chá, não me co­bre co­e­rên­cia. Vi­aje co­migo em bri­lhan­tes his­tó­rias. Lem­bre­mos de Ser­gi­nho Fral­di­nha, Jo­si­mar, Ma­cula, Od­van, Fá­bio Bai­ano, Oséas e tan­tos ou­tros cra­ques do avesso. E aplau­da­mos jun­tos as una­ni­mi­da­des, mesmo que se­jam bur­ras.

E-mail: fernando_bh@yahoo.com.br

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