Impressões

Vida de escritor

quarta-feira, 28 de abril de 2010 Texto de

Para ler

Aca­bei de ler “Vida de es­cri­tor”, de Gay Ta­lese, um dos prin­ci­pais jor­na­lis­tas dos Es­ta­dos Uni­dos e co­nhe­cido mun­di­al­mente.

Parece-me ser um dos li­vros mais ho­nes­tos que já li. Não há ali gran­des gló­rias. Mas gran­des fra­cas­sos, gran­des dra­mas hu­ma­nos e gran­des te­mas jor­na­lís­ti­cos. Não há al­guém con­tando seus mo­men­tos me­mo­rá­veis. Há al­guém unindo his­tó­rias que per­fa­zem um mundo de in­cer­te­zas e re­fle­xões.

O au­tor tira a roupa das pa­la­vras, encaixando-as de modo sim­ples e efi­ci­ente num en­redo cru e ver­da­deiro. Ele tira a roupa das pa­la­vras, deixando-as nuas e, parece-me, ab­so­lu­ta­mente sin­ce­ras.

A vida do pró­prio Ta­lese está, neste li­vro, en­tre­me­ada de his­tó­rias acon­te­ci­das no de­cor­rer de sua car­reira. A ma­neira como ele tra­fega por to­das elas é de uma sim­pli­ci­dade des­con­cer­tante. Quando você se dá conta, já está in­se­rido num novo as­sunto que agora há pouco nem ima­gi­nava. Como a pró­pria vida, aliás.

O li­vro é um ótimo exem­plo para jor­na­lis­tas que fi­cam pu­tos da vida quando seus tex­tos não são pu­bli­ca­dos na ín­te­gra. Ou quando suas ma­té­rias sim­ples­mente caem. Ta­lese narra ca­sos em que, após me­ses tra­ba­lhando num de­ter­mi­nado tema, o veí­culo de co­mu­ni­ca­ção que o con­tra­tou sim­ples­mente de­cide não pu­bli­car o con­teúdo pro­du­zido. E um con­teúdo de Gay Ta­lese!

A pu­bli­ca­ção faz parte da ex­ce­lente co­le­ção “Jor­na­lismo li­te­rá­rio”, da Com­pa­nhia das Le­tras, co­or­de­nada por Ma­ti­nas Su­zuki Jr. 

Eis o pri­meiro tre­cho do li­vro:

“Não sou, nem nunca fui, um apre­ci­a­dor de fu­te­bol. É pro­vá­vel que isso se deva, em parte, à mi­nha idade e ao fato de que, na ado­les­cên­cia, quando eu mo­rava no li­to­ral sul de Nova Jer­sey – há meio sé­culo – esse es­porte fosse pra­ti­ca­mente des­co­nhe­cido dos ame­ri­ca­nos, a não ser os nas­ci­dos no ex­te­rior. E em­bora meu pai fosse nas­cido no ex­te­rior – era um si­sudo al­fai­ate que se ves­tia com es­mero, oriundo de uma al­deia ca­la­bresa, no sul da Itá­lia, e na­tu­ra­li­zado norte-americano em me­a­dos da dé­cada de 1920 -, quando con­ver­sava co­migo so­bre fu­te­bol ele se li­mi­tava a dis­cor­rer so­bre as bri­gas de sua ju­ven­tude re­la­ci­o­na­das ao es­porte, e so­bre a frus­tra­ção que sen­tia ao ver os co­le­gas de es­cola jo­gando numa praça en­quanto ele cos­tu­rava à ja­nela dos fun dos de um ate­liê pró­ximo, onde tra­ba­lhava como apren­diz. No en­tanto, como mui­tas ve­zes me re­pe­tia, já na­quela época ele sa­bia que aque­les jo­vens atle­tas (en­tre os quais ha­via ir­mãos e pri­mos seus, me­nos cons­ci­en­ci­o­sos) es­ta­vam per­dendo tempo e pondo em pe­rigo seu fu­turo, chu­tando bola de um lado para ou­tro quando de­ve­riam es­tar apren­dendo um ofí­cio digno e se pre­pa­rando para pa­gar o alto preço de uma pas­sa­gem para os Es­ta­dos Uni­dos, onde po­de­riam al­can­çar a pros­pe­ri­dade como imi­gran­tes. Mas não, conti nu­ava ele, in­can­sa­vel­mente de­di­cado a me ad­ver­tir: eles dis­si­pa­vam suas tar des jo­gando fu­te­bol na praça, da mesma forma como mais tarde vi­riam a jo­gar atrás da cerca de arame far­pado do campo de pri­si­o­nei­ros de guerra no norte da África em que fo­ram me­ti­dos pe­los ali­a­dos (aque­les que não fo­ram mor­tos ou fi­ca­ram alei­ja­dos em com­bate) quando se ren­de­ram, em 1942, na qua­li­dade de sol­da­dos de in­fan­ta­ria do exér­cito der­ro­tado de Mus­so­lini. Vez por ou­tra, eles en­vi­a­vam car­tas a meu pai, con­tando so­bre o con­fi­na­mento. Um dia, já perto do fim da Se­gunda Guerra Mun­dial, ele pôs de lado a cor­res­pon­dên­cia e me disse, num tom de voz que pre­firo in­ter­pre­tar como mais triste do que sar­cás­tico: “Eles ainda es­tão jo­gando fu­te­bol!”.

Para ver

Diz que o Gi­a­nec­chini usará pouca roupa na pró­xima no­vela das oito, “Pas­si­one”, que subs­ti­tuirá “Vi­ver a vida”. Qual a no­vi­dade nisso? Será ape­nas a con­ti­nui­dade da fór­mula uti­li­zada atu­al­mente pela te­le­vi­são aberta, em que os sa­ra­dos e as gos­to­sas en­chem a te­li­nha com seus fí­si­cos ape­ti­to­sos.

E vou ser sin­cero: não vejo nada de­mais. Quer di­zer, às ve­zes vejo sim (rs­sss). Mas o que quero di­zer é que, como di­zem os des­co­la­dos, “nor­mal”. E é nor­mal mesmo. 

O que não acho nor­mal é a baixa qua­li­dade da pro­gra­ma­ção. E isso não tem nada a ver com gente pe­lada. A te­le­vi­são aberta, fora pouquís­si­mos exem­plos, vi­rou uma funda ba­bo­seira. Criou-se um ci­clo: fa­zem as­sim por­que o pú­blico gosta e o pú­blico pa­rece gos­tar por­que não tem para onde ir, a não ser os seg­men­tos de me­lhor po­der aqui­si­tivo, cuja renda lhes per­mite as­si­nar os ca­nais fe­cha­dos.

O pro­blema não está na roupa ou na falta dela. O pro­blema está no cé­re­bro ou na falta dele.

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