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domingo, 25 de abril de 2010 Texto de

Na ci­dade onde nasci, numa época em que a emis­sora lo­cal já ti­nha fe­chado fa­zia tempo, ha­via um ho­mem apai­xo­nado por rá­dio que man­ti­nha um ser­viço de alto-falante di­a­ri­a­mente.

Em dois ho­rá­rios, um na parte da ma­nhã e ou­tro à tarde, ele abria o mi­cro­fone. O equi­pa­mento (aliás, até hoje há um ser­viço pa­re­cido por lá) fi­cava bem no cen­tro da ci­dade. Ci­dade pe­quena, 17 mil ha­bi­tan­tes, por aí. Em sua mai­o­ria, a pro­gra­ma­ção in­cluía anún­cios do co­mér­cio. Mas ha­via tam­bém in­for­ma­ti­vos.

Numa certa ma­dru­gada, al­guns jo­vens no­tí­va­gos brin­ca­lhões re­sol­ve­ram apron­tar. Fo­ram até o lo­cal – o es­tú­dio fi­cava na casa do ra­di­a­lista – e anun­ci­a­ram que uma chuva forte na ca­be­ceira do rio que atra­vessa a ci­dade ha­via pro­vo­cado uma cheia nas áreas pró­xi­mas à bai­xada.

So­no­lento, tal­vez de­pois de uma noite to­mando umas e ou­tras, o ra­di­a­lista não pen­sou duas ve­zes: ves­tido como es­tava, com um pi­ja­mão, em­pu­nhou o mi­cro­fone e abriu o som do alto-falante. 

O bo­le­tim, além da no­tí­cia so­bre a inun­da­ção, trouxe tam­bém se­ve­ras crí­ti­cas à pre­fei­tura, que, se­gundo ele, de­ve­ria ter to­mado pro­vi­dên­cias para evi­tar a ver­da­deira tra­gé­dia que a po­pu­la­ção en­fren­tava na­quele mo­mento.

Bem, fora os brin­ca­lhões, tal­vez cem em cada cem ha­bi­tan­tes es­ti­ves­sem dor­mindo na­quela noite seca de ve­rão em que no céu cin­ti­la­vam lon­gín­quas es­tre­las.

Parece-me que hoje, tal­vez trinta anos de­pois da pe­ri­pé­cia com o po­bre ra­di­a­lista, o jor­na­lismo, em al­guns as­pec­tos, mantenha-se re­fém do que na­que­les dias re­pre­sen­tou o bando de su­jei­tos que, não tendo o que fa­zer, de­ci­di­ram que­brar a mo­no­to­nia da pe­quena ci­dade.

O jor­na­lismo atra­vessa uma época em que o “disse que” transformou-se em ca­rimbo de res­pon­sa­bi­li­dade. E mais que isso: em re­cheio gor­du­roso que só faz mal ao texto.

De modo ge­ral, fal­tam aos jor­nais – e aqui permitam-me usar uma ima­gem do fu­te­bol – fi­gu­ras como o meio-campista Didi, da se­le­ção bra­si­leira, que na dis­tante Copa de 1958 bo­tou a bola em­baixo do braço logo após seu time to­mar um gol e cha­mou para si a res­pon­sa­bi­li­dade da or­ga­ni­za­ção da equipe. 

É pre­ciso que o jor­nal res­gate esse es­pí­rito. O es­pí­rito de jor­na­lis­tas que cha­mem para si a res­pon­sa­bi­li­dade do texto. Que es­cre­vam com au­to­ri­dade. E con­si­gam transmiti-la ao lei­tor.

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