Impressões

Crime e castigo

terça-feira, 20 de abril de 2010 Texto de

Rey­naldo Big­none, o úl­timo di­ta­dor ar­gen­tino, que go­ver­nou o país en­tre 1982 e 1983, foi con­de­nado a 25 anos de pri­são por um ras­tro de atro­ci­da­des co­me­ti­das na época da re­pres­são mi­li­tar. Até rou­bos de be­bês pin­tam a fi­cha do su­jeito.

Agora vem o as­pecto so­bre o qual re­flito aqui: os cri­mes, que in­cluem tam­bém tor­tu­ras, se­ques­tros e de­sa­pa­re­ci­men­tos de mi­lha­res de pes­soas, fo­ram co­me­ti­dos de 1976 a 1978, quando Big­none era chefe de uma guar­ni­ção que tam­bém po­de­ria ser cha­mada de ma­ta­douro de gente. Es­ta­mos em 2010. O carra tem hoje 82 anos. Na época, con­tava 50. A Ar­gen­tina le­vou mais de meio sé­culo para con­de­nar o ex-comandante mi­li­tar e seus as­se­clas.

Nos úl­ti­mos anos, ele já ha­via sido con­de­nado, in­clu­sive preso. De­pois, foi in­dul­tado. E preso de novo. En­fim, só agora a jus­tiça pa­rece es­tar sendo feita. Para quem não sabe, o nú­mero de de­sa­pa­re­ci­dos po­lí­ti­cos na Ar­gen­tina pode ter che­gado aos 30 mil. Aliás, há uma frase no mí­nimo cu­ri­osa do pró­prio Big­none so­bre isso: “Fala-se de 30 mil, mas fo­ram ape­nas 8 mil”. 

Está certo que em mui­tos ca­sos, que in­cluem o Bra­sil, a jus­tiça nunca chega a ser feita. Mas a pri­meira im­pres­são a me ron­dar nesse caso é que um ho­mem que se­ques­tra e mata adul­tos e rouba be­bês pre­cisa ser pu­nido an­tes de es­tar com 82 anos. Ele pre­cisa, diz-me o san­gue bor­bu­lhando, ser pu­nido quando ainda há tempo para sen­tir na carne e na alma o peso de seus cri­mes.

A pena leva-o a uma pe­ni­ten­ciá­ria co­mum. Pressupõe-se que ele não su­por­tará o cas­tigo im­posto. Mas há uma coisa na qual acre­dito: não há bon­zi­nhos com­ple­tos; nem quem seja sem­pre mau. As­sim, tal­vez o es­paço de tempo não seja a me­lhor ré­gua para me­dir­mos a força de um cas­tigo.

Um ser hu­mano mui­tas ve­zes é ca­paz de sen­tir num só ins­tante toda a in­ten­si­dade de uma culpa di­ante da qual nem mil anos atrás das gra­des fa­ria dobrar-se ou­tro de sua es­pé­cie.

Dos­toiévski

Tal­vez o maior sím­bolo dessa tur­bu­lenta re­la­ção en­tre culpa e pu­ni­ção, per­versa para a alma, mas que pa­rece se cons­ti­tuir na única saída para a pos­sí­vel re­den­ção do ser hu­mano, es­teja na li­te­ra­tura. “Crime e cas­tigo”, do russo Fió­dor Dos­toiévski, foi para mim um dos li­vros mais im­pres­si­o­nan­tes.

No cen­tro da obra (pu­bli­cada em 1866, mas para sem­pre atual, mesmo que ti­vesse sido es­crita an­tes de Cristo!) está Ras­kól­ni­kov, es­tu­dante in­ten­sa­mente per­se­guido pela som­bra dos cri­mes que co­me­teu. O con­flito mo­ral en­fren­tado por ele é digno de tê-lo trans­for­mado num dos mais cé­le­bres per­so­na­gens da li­te­ra­tura mun­dial.

Para nar­rar esse ter­rí­vel drama hu­mano, o ex­tra­or­di­ná­rio es­cri­tor con­se­guiu im­por a ten­são ner­vosa de uma faca cuja ima­gem que paira so­bre nos­sas ca­be­ças é o bri­lho de seu fio. Não ve­mos o ins­tru­mento cor­tante e nem o te­mos em con­tato com nosso corpo, mas ape­nas seu re­flexo é ca­paz de es­tra­ça­lhar nos­sos ner­vos.

Aliás, a pró­pria his­tó­ria de Dos­toiévski é in­crí­vel.

Con­de­nado à morte por par­ti­ci­par de reu­niões sub­ver­si­vas, teve sua pena co­mu­tada nos úl­ti­mos mo­men­tos an­tes de ser en­for­cado. No lu­gar de ser morto, foi en­vi­ado à Si­bé­ria, onde pas­sou quase uma dé­cada. De lá, o au­tor le­vou para sua li­te­ra­tura nu­me­ro­sos e pro­fun­dos sub­sí­dios.

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