Crônicas

Velhos amigos

sexta-feira, 19 de março de 2010 Texto de

Quando eu era cri­ança, ali pe­los nove ou dez anos, mo­rava bem perto de mi­nha casa uma fa­mí­lia nu­me­rosa de tes­te­mu­nhas de je­ová. Eu me lem­bro bem desse de­ta­lhe por­que numa época em que pra­ti­ca­mente só ha­via ca­tó­li­cos, qual­quer ou­tra re­li­gião pro­vo­cava certa cu­ri­o­si­dade.

Um dos fi­lhos pas­sou a fre­quen­tar a mesma es­cola e a mesma turma da qual eu fa­zia parte. Muito de­pressa nos tor­na­mos ami­gos. O pai dele surrava-o, e tam­bém os ir­mãos, com certa frequên­cia. O ins­tru­mento para o cas­tigo era uma tá­bua.

Era uma tris­teza ou­vir aquela gri­ta­ria quando o su­jeito re­sol­via agir. E so­brava pra todo mundo, in­clu­sive as me­ni­nas. Certo dia, du­rante o com­bate, to­mei co­ra­gem e fui até o por­tão da casa de­les. Meu ob­je­tivo era sal­var meu amigo, ao me­nos aquele dia. Bati pal­mas e por um ins­tante a pan­ca­da­ria foi sus­pensa.

O pai apon­tou a fuça numa das ja­ne­las e per­gun­tou o que eu que­ria. Mas as pa­la­vras me aban­do­na­ram, eu en­goli seco, dei meia volta e chis­pei de lá, ou­vindo o re­co­meço da sova e lu­tando con­tra a água sal­gada que me lam­bia o rosto.

Nas re­don­de­zas tam­bém mo­rava uma fa­mí­lia de ne­gros muito po­bres. Com mui­tos fi­lhos. Os me­no­res brin­ca­vam nus na rua. Um dos ga­ro­tos ti­nha mi­nha idade. Éra­mos ami­gos e ía­mos jun­tos para a es­cola. Ele jo­gava um bo­lão. Ti­nha as per­nas tor­tas e dri­blava como nin­guém.

Numa noi­ti­nha após a pe­lada diá­ria, não sei bem por que, aca­ba­mos dis­cu­tindo feio. Quase nos pe­ga­mos na por­rada. Fal­tou pouco. En­tão, dali a al­gum tempo, eu já na mi­nha casa e ele na dele, ba­teu o re­morso. Eu ha­via sido in­justo com o ga­roto.

En­tão fui lá pe­dir des­cul­pas, na porta da casa dele – um pe­queno bar­raco no fundo do quin­tal onde uma lâm­pada fraca di­vi­dia sua dé­bil cla­ri­dade en­tre a pe­quena sala e parte da co­zi­nha. Meu pe­dido de des­cul­pas foi le­var pra ele umas tan­ge­ri­nas graú­das de nosso po­mar. Ele as pe­gou e não se fa­lou mais no de­sen­ten­di­mento.

Onde es­ta­rão es­ses ca­ras? Es­ses ve­lhos ami­gos?

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