Impressões

Um brilho no olhar

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 Texto de

Tem muita gente pe­dindo es­mo­las nas ruas. Agora há pouco, num se­má­foro, um ga­roto em cada vi­dro, cravaram-me aquele olhar sub­misso, quase uma mis­tura de ví­tima e cul­pado. Em ou­tra es­quina, um su­jeito ame­a­çou en­cos­tar com sua ca­deira de ro­das, mas não deu tempo por­que o si­nal abriu. E em mais ou­tro, uma me­nina.

Em cada um des­ses mo­men­tos fico pen­sando no que é certo ou er­rado. Pago meus im­pos­tos em dia. E não é pouco. Mas é im­pos­sí­vel ace­le­rar sem que as cos­tas pe­sem um pouco mais, sem que o ve­lho sen­ti­mento de culpa caia como aquela chuva boba que vai mo­lhando sem que nos aten­te­mos an­tes de es­tar­mos em sopa. 

Claro que não é pos­sí­vel dar di­nheiro em toda es­quina. Mas se­ria o caso de dar? Eu acho que não, mas tam­bém fran­ca­mente não sei se meu pen­sa­mento está cor­reto. Pago meus im­pos­tos em dia. Mas de que vale pagá-los se a maior parte vai para o bolso dos ban­di­dos en­gra­va­ta­dos, se a cor­rup­ção e os des­man­dos encarregam-se de li­qui­dar a fa­tura?

A ver­dade, esta sim eu co­nheço, é que as cri­an­ças que pe­dem es­mo­las nas es­qui­nas ga­nham um bri­lho no olhar quando apa­nho uma mo­eda qual­quer e faço-a es­cor­re­gar até aque­las mãos en­car­di­das. Mas, por ou­tra, não será esse bri­lho no olhar algo mais im­por­tante para mim do que para elas? O que se­ria me­lhor para elas? O quê?

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Um pai pega os fi­lhos para pas­sear, dá pre­sen­tes a eles, leva-os a um ho­tel e lá os mata e de­pois se sui­cida. Acon­te­ceu em Jaú (SP). Ao me­nos essa é a ver­são ob­tida por meio de vá­rios re­ta­lhos de in­for­ma­ções. Há in­dí­cios de que foi uma es­pé­cie de vin­gança con­tra a mãe das cri­an­ças, de quem ele es­tava se­pa­rado e tal­vez não se con­for­masse. Não é o pri­meiro caso em tais cir­cuns­tân­cias, é ver­dade. Mas há algo mais, algo ter­rí­vel e as­sus­ta­dor: o pai das cri­an­ças mor­tas te­ria en­vi­ado à mãe das cri­an­ças mor­tas uma carta avi­sando so­bre o de­pó­sito que ele fi­zera na conta dela para pa­gar os ve­ló­rios. Esse de­ta­lhe, te­a­tral e mór­bido, es­tica a corda no pes­coço da hu­ma­ni­dade até esgarçá-la.

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O de­pu­tado que en­fiou o di­nheiro na meia re­nun­ciou à pre­si­dên­cia da Câ­mara no Dis­trito Fe­de­ral. É uma farra, como di­ria um grande amigo meu.

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São Paulo faz ani­ver­sá­rio hoje. Es­tou lá toda se­mana a tra­ba­lho. E as­sim acho que posso pi­ta­quear so­bre o es­go­ta­mento da nossa maior me­tró­pole: é muita gente para pouco es­paço. É só.

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