Colaboradores

Óculos, sapatos e outros estragos

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010 Texto de

E lá se foi, pela oi­tava vez, mais um par de ócu­los de bronze do po­eta, desde que sua es­tá­tua foi posta em sos­sego no banco da praia de Co­pa­ca­bana. A ideia ori­gi­nal era mesmo deixá-lo sos­se­gado, mas tá di­fí­cil, sô. Dessa vez en­trou em cena a ca­va­la­ria e Rin Tin Tin (desculpem-me os mais jo­vens que não co­nhe­ce­ram es­sas fi­gu­ras) na forma de um ma­ça­rico para re­jun­tar os no­vos ócu­los de Drum­mond e di­fi­cul­tar o nono roubo, mas nes­sas al­tu­ras o as­sunto já en­trou para o fol­clore si­nis­tro do co­ti­di­ano ca­ri­oca.

Cada lu­gar tem os vân­da­los que cul­tiva. Por aqui, des­truí­mos es­tá­tuas, pi­cha­mos pré­dios e dei­xa­mos um ras­tro de imun­dí­cie por onde pas­sa­mos. Em ou­tras ter­ras, um turco, em si­nal de pro­testo, jo­gou seus sa­pa­tos no en­tão pre­si­dente norte-americano du­rante uma vi­sita deste, mas er­rou a pon­ta­ria nas duas ve­zes. (Te­nho pra mim que ele foi preso jus­ta­mente por­que não acer­tou o alvo, mas deixa pra lá). Na Itá­lia, um ci­da­dão lo­cal ati­rou uma pe­quena ré­plica da Du­omo de Mi­lão no rosto de seu primeiro-ministro bu­fão, fazendo-o bai­xar hos­pi­tal. Na Polô­nia, há pou­cas se­ma­nas, foi le­vado o le­treiro me­tá­lico da en­trada do ex-campo de con­cen­tra­ção de Aus­chwitz, de triste me­mó­ria, mas já re­cu­pe­rado pela po­lí­cia po­lo­nesa. E nos Es­ta­dos Uni­dos, pre­si­den­tes mal ama­dos são aba­ti­dos a ti­ros. Van­da­lismo é o que não falta neste mundo de deus. Ou do di­abo, sei lá.

Vol­tando às nos­sas es­cul­tu­ras, a do po­eta de Ita­bira não foi a única a so­frer a ação de la­drões. O Ma­ne­qui­nho, com seu pin­ti­nho fun­ci­o­nando como cha­fa­riz na Praia de Bo­ta­fogo, um dia apa­re­ceu com o dito-cujo ar­ran­cado de sua es­tá­tua. Ô gente in­ve­josa!… A de Zumbi, no Cen­tro, só pa­rou de le­var pi­cha­ções de­pois de ser mo­ni­to­rada por câ­me­ras, re­curso fi­nal­mente ado­tado para ze­lar pela in­te­gri­dade de Drum­mond. As es­tá­tuas de Ibraim Me­dina e Ari Bar­roso, em Co­pa­ca­bana e no Leme, res­pec­ti­va­mente, tam­bém já ti­ve­ram seus ócu­los ar­ran­ca­dos. Que coisa, né? Como nos­sos la­drões gos­tam de ócu­los! Al­guns pre­fe­rem as ver­di­nhas ou as ver­bas de lan­ches de es­co­las pú­bli­cas, mas es­ses ma­lu­cos da­qui ado­ram uns ócu­los…

Por es­sas e ou­tras, não se pode mais di­zer que nos­sos he­róis e ar­tis­tas fo­ram imor­ta­li­za­dos em es­tá­tuas. A qual­quer mo­mento eles po­dem de­sa­pa­re­cer ou ter pe­da­ços ar­ran­ca­dos. Cru­zes, pa­rece até le­tra de bo­lero…

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

Compartilhe