Contos

O menino e o lobo

domingo, 8 de novembro de 2009 Texto de

Quando nos mu­da­mos, no iní­cio da dé­cada de se­tenta, para a pro­pri­e­dade ru­ral de meu avô ma­terno, ja­mais po­de­ría­mos ima­gi­nar como se­ria dra­má­tica aquela pri­meira se­mana que mar­cou para sem­pre nos­sas vi­das. Fo­mos para o campo cum­prir o que se es­ta­be­le­cera tão logo o vovô de­sis­tiu de con­ti­nuar. Deu-se as­sim: bri­gando sem queixar-se há cinco ou seis anos com uma in­ter­mi­ná­vel seqüên­cia de cân­ce­res, ele cansou-se, man­dou cha­mar as duas fi­lhas, os gen­ros e os ne­tos, anun­ciou seu fim imi­nente e foi deitar-se, como se a morte o es­pe­rasse na cama, onde, aliás, encontrou-a pou­cas ho­ras de­pois. A pro­ba­bi­li­dade do acon­te­ci­mento já ha­via feito com que meu pai e meu tio to­mas­sem a de­ci­são de se­guir com a fa­zenda de mé­dio porte, uma boa pro­du­tora de café e me­lan­cia. As­sim, três ou qua­tro dias após o en­terro, juntamo-nos à vovó.

Éra­mos em nove: meus pais ti­nham três fi­lhos, e meus tios, dois. De to­dos, eu era o mais ve­lho, doze anos. Enzo, o ca­çula da fa­mí­lia, meu primo, não ha­via com­ple­tado dois. A fa­zenda, para nós to­dos, cri­an­ças cheias de ener­gia e cu­ri­o­si­dade, sig­ni­fi­cava uma grande aven­tura. Já a co­nhe­cía­mos muito bem. Vi­vía­mos pi­sando em suas ter­ras du­rante nos­sas fé­rias. Meu avô, um ita­li­ano de nome Vin­cenzo, ja­mais aban­do­na­ria os ne­tos à mo­dorra de seus pe­que­nos quin­tais da ci­dade. Mal aca­bava a úl­tima aula de de­zem­bro e sa­bía­mos que do lado de fora do grupo es­co­lar encontrava-se, es­ta­ci­o­nada no meio-fio, uma ca­mi­nho­nete azul com um su­jeito muito alto e sor­ri­dente apoiando-se nela. Aliás, eu nunca soube pre­ci­sar se as­sim o era ou se na re­a­li­dade a ca­mi­nho­nete é que se apoi­ava nele. Saía­mos da porta da es­cola, pas­sá­va­mos em casa e chis­pá­va­mos para a fa­zenda.

Como todo bom ita­li­ano, Vin­cenzo fa­lava quase sem­pre em al­tos bra­dos, ges­ti­cu­lando muito, en­fim, fazendo-se en­ten­der. Ou­tra ca­rac­te­rís­tica muito la­tente em meu avô era sua per­ti­ná­cia. Mi­nha avó So­fia chamava-o de Se­nhor Tei­moso. Tal­vez por essa ra­zão, pou­cos encorajavam-se a par­ti­ci­par de qual­quer con­tro­vér­sia em que ele es­ti­vesse me­tido. O maior exem­plo de sua tei­mo­sia, e quem sabe o epi­só­dio de­ci­sivo para ex­ter­mi­nar a me­nor es­pe­rança de po­der contrariá-lo, ocor­reu an­tes de meu nas­ci­mento. De uma de suas in­cur­sões a Mi­nas Ge­rais, em busca de no­vas mu­das de café, vol­tou tra­zendo, num en­gra­dado preso so­bre a car­ro­ce­ria do ca­mi­nhão, três ca­chor­ros ir­mãos, dois com idade em torno de um ano e o ou­tro ainda fi­lhote. Nada de­mais para uma fa­zenda, onde há es­paço su­fi­ci­ente para mui­tos cães. Com o tempo, en­tre­tanto, mi­nha avó, e mesmo os em­pre­ga­dos, pas­sa­ram a intrigar-se com algo cu­ri­oso: a pe­quena cria cres­cia ra­pi­da­mente, mesmo a ponto de igualar-se em ta­ma­nho aos de­mais. Quando per­gun­tado a res­peito, vovô riu-se com gosto e de­pois con­tou o caso: na ver­dade, tratava-se do cru­za­mento de uma ca­dela com um lobo. Bem, ao me­nos era o que lhe ti­nham ex­pli­cado no tal vi­veiro de Mi­nas.

To­dos os pro­tes­tos da vovó ou os aler­tas con­du­zi­dos com cau­tela pe­los tra­ba­lha­do­res da fa­zenda fo­ram re­fu­ga­dos pelo Se­nhor Tei­moso com muito bom hu­mor. En­fim, de­sis­ti­ram da idéia de convencê-lo a livrar-se do lobo-cão. Já ti­nha, in­clu­sive, dado um nome ao bi­cho: Dino, ho­me­na­gem ao es­cri­tor Dino Buz­zati, au­tor de “O De­serto dos Tár­ta­ros”, li­vro fa­vo­rito de vovô. Dino cres­ceu em meio aos ou­tros ca­chor­ros da fa­zenda. Em ver­dade, posso afi­an­çar, não fa­ria mal a uma ga­li­nha. Suas ener­gias e seu ins­tinto de lobo aproveitavam-se para a caça, nada mais. Lembro-me que em nos­sas fé­rias, vovô cos­tu­mava nos di­ver­tir fa­zendo do mag­ní­fico Dino um mini-cavalo. Che­gou a cons­truir um ar­reio es­pe­cial para en­cai­xar so­bre seu lombo es­pesso e pe­ludo. Como um ca­chor­ri­nho novo, o por­ten­toso ani­mal per­mi­tia que lhe en­fi­as­sem na co­leira, e lá ia Vin­cenzo, puxando-o len­ta­mente, revezando-nos nos sa­bo­ro­sos pas­seios. Hoje, fico pen­sando se nosso peso po­de­ria incomodá-lo, mas acho que não – éra­mos muito pe­que­nos e o pró­prio Dino pa­re­cia apre­ciar a di­ver­são.

As­sim, quando che­ga­mos à fa­zenda, para mo­rar, nem mesmo esse por­me­nor si­na­li­zava em­pe­ci­lho. Com ou­tras cri­an­ças, fi­lhos de co­lo­nos, vi­vía­mos en­tre nos­sos ve­lhos co­nhe­ci­dos: cães, ga­tos, ga­li­nhas e tam­bém as pom­bas que cis­ca­vam sem ce­rimô­nia aos nos­sos pés. En­quanto os adul­tos or­ga­ni­za­vam a nova vida den­tro do ca­sa­rão, tí­nha­mos li­ber­dade para brin­car e cor­rer pe­los ar­re­do­res. En­tre­tanto, eu pre­feri dei­xar as al­ga­zar­ras para os me­no­res e dedicar-me a uma ta­refa que me en­chia de pra­zer. Ha­via uma sa­leta onde Vin­cenzo pou­cas ve­zes deixara-me en­trar. Era sua pe­quena bi­bli­o­teca, or­ga­ni­zada com es­mero e de­di­ca­ção. Ao me­nos uma vez por mês, ele re­ti­rava to­dos os li­vros das pra­te­lei­ras para limpá-los e folheá-los em busca de tra­ças. Meu in­gresso ali era li­mi­tado, mas isso não quer di­zer que eu não ti­vesse acesso aos li­vros. Ao con­trá­rio. Vovô fa­zia ques­tão de ler his­tó­rias dos li­vros dele para os ne­tos, e mais tarde, quando pas­sei a com­pre­en­der as le­tras, to­das as noi­tes ele tra­zia um exem­plar para que eu mesmo sa­bo­re­asse as de­lí­cias da lei­tura. Ele só guar­dava mui­tos ciú­mes da bi­bli­o­teca, ape­nas isso. En­tão, logo no dia de nossa che­gada, a vovó chamou-me a um canto, entregou-me uma chave dou­rada e disse aque­las pa­la­vras que fi­ze­ram es­cor­re­gar pelo meu rosto lá­gri­mas de fe­li­ci­dade: de agora em di­ante, você é o chefe da bi­bli­o­teca.

Acho que nem é pre­ciso di­zer que eu me fe­chei na sa­leta para deliciar-me com tan­tos li­vros, tan­tas his­tó­rias. Pri­meiro, per­corri o pe­queno qua­dri­lá­tero de pra­te­lei­ras, contornando-as e aca­ri­ci­ando as ca­pas du­ras, as plas­ti­fi­ca­das, as mais sim­ples e ju­di­a­das pelo tempo. Em se­guida, to­mei dois ou três exem­pla­res para cheirá-los. Eu sem­pre agia as­sim quando um da­que­les li­vros che­gava às mi­nhas mãos, e agora po­dia me­ter meu na­riz no meio das pá­gi­nas de to­dos eles, em­bora sur­gisse uma ponta de tris­teza a cada ins­tante de re­cor­da­ção do vovô. Lembro-me de es­tar ob­ser­vando, ex­ta­si­ado, as fi­lei­ras de tí­tu­los, quando chamou-me a aten­ção uma caixa pra­te­ada de me­tal numa ex­tre­mi­dade de um dos ar­má­rios. Mi­nha cu­ri­o­si­dade in­fan­til aguçou-se. De ime­di­ato, puxei-a so­bre a es­cri­va­ni­nha, bem no cen­tro da sa­leta. Sentei-me à ca­deira con­for­tá­vel de ma­deira en­ver­ni­zada e cui­da­do­sa­mente des­tam­pei o in­vó­lu­cro frio. Den­tro, re­pou­sava um grosso li­vro de bro­chura, com uma capa em branco. Pas­sei a folheá-lo, dessa ma­neira co­mum a quase todo mundo, do fim para o co­meço. As úl­ti­mas fo­lhas encontravam-se vir­gens, nada, só mesmo pe­que­ni­nas man­chas es­cu­ras do pró­prio pa­pel. Im­pa­ci­ente, pro­cu­rei abri-lo no iní­cio. Na se­gunda pá­gina, li: “Mi­nhas ex­pe­ri­ên­cias”.

O ca­derno con­ti­nha cerca de cinqüenta pá­gi­nas pre­en­chi­das, to­das ma­nus­cri­tas e to­das re­ve­lando, como anun­ci­ava o tí­tulo, pe­que­nos ex­pe­ri­men­tos le­va­dos a cabo pelo vovô. Lá es­ta­vam ex­pli­ca­dos, in­cluindo al­gu­mas fi­gu­ras muito bem de­se­nha­das, uma forma de arado que sul­cava a terra com mais efi­ci­ên­cia; um mé­todo, que ele cha­mou de re­vo­lu­ci­o­ná­rio, para le­var água aos chu­vei­ros; um sis­tema de ir­ri­ga­ção para as pas­ta­gens; uma es­tufa para pro­te­ger as par­rei­ras; e uma sé­rie de ou­tras en­ge­nho­cas a se­rem uti­li­za­das no dia-a-dia do campo. Te­nho esse ma­nus­crito até hoje, guar­dado com muito ca­ri­nho no me­lhor lu­gar de mi­nha pró­pria bi­bli­o­teca. Ba­si­ca­mente, suas pá­gi­nas con­têm pro­je­tos, na mai­o­ria das ve­zes ape­nas su­per­fi­ci­ais, de vá­rios apa­re­lhos apri­mo­ra­dos de ou­tros já exis­ten­tes e, po­bre vovô, bo­ba­gens que não ser­vem para coisa al­guma, mas, jus­tiça seja feita, tam­bém reú­nem boas idéias que ainda po­dem dar o que fa­lar. Isso, con­tudo, eu pre­firo tra­tar numa ou­tra oca­sião. O caso é que na­quela época, com doze anos, tudo aquilo era muito es­ti­mu­lante, es­pe­ci­al­mente in­ven­ções cri­a­das e des­cri­tas pelo meu avô. Por isso mesmo, aban­do­nei mo­men­ta­ne­a­mente meu in­te­resse por to­dos os li­vros e detive-me à lei­tura ex­pli­ca­tiva da­que­las pa­ra­fer­ná­lias. E, as­sim como eu o fa­zia à noite, na cama, man­ti­nha a sa­leta es­cura e uti­li­zava a lan­terna. Meu pra­zer nes­sas ho­ras au­men­tava quando em mi­nha ima­gi­na­ção ha­bi­ta­vam as fi­gu­ras de pes­qui­sa­do­res que vão si­gi­lo­sa­mente às bi­bli­o­te­cas em busca de in­for­ma­ções pre­ci­o­sas para suas gran­des des­co­ber­tas. A lan­terna acen­dia mi­nha uto­pia de me­nino.

No se­gundo dia, eu pes­qui­sava a ar­qui­te­tura do tal arado mais efi­ci­ente, quando, lá fora, ouvi gri­tos de mi­nha mãe e mi­nha tia, e de­pois de mi­nha avó, e tam­bém de meus pri­mos, e daí formou-se um grande al­vo­roço. O Enzo, o pe­que­nino Enzo, de­sa­pa­re­cera. En­tre­ti­das com a ar­ru­ma­ção da mo­bí­lia, das rou­pas e de to­dos os afa­ze­res exi­gi­dos por uma grande mu­dança, as mu­lhe­res da casa descuidaram-se e deixaram-no em meio ao tu­multo in­fan­til no quin­tal. As pró­prias cri­an­ças de­ram por sua falta, mas já era tarde. Meu pai e meu tio fo­ram cha­ma­dos. Com eles, vi­e­ram os em­pre­ga­dos. Uma busca in­ces­sante seguiu-se du­rante todo o dia. No fim da tarde, veio a po­lí­cia. Um jipe preto e branco com a luz ver­me­lha da si­rene apa­gada des­pe­jou qua­tro po­li­ci­ais na porta do ca­sa­rão. Lá den­tro, o pranto, que de­pois se es­ten­deu pela noite, cor­tava um pe­sado si­lên­cio. A var­re­dura hu­mana, a esta al­tura já com a pre­sença da re­por­ta­gem do jor­nal e da rá­dio, per­cor­reu as ruas dos ca­fe­zais, as pas­ta­gens, as ca­po­ei­ras e as man­chas de ma­tas, os po­ma­res, os ran­chos e os ga­li­nhei­ros, os chi­quei­ros e as man­guei­ras, um açude, as ca­sas aban­do­na­das. Os mo­ra­do­res da colô­nia re­vi­ra­ram seus mó­veis, olha­ram em­baixo das ca­mas, abri­ram ar­má­rios, su­bi­ram nos te­lha­dos. Na ma­dru­gada, já quase pela ma­nhã, o de­le­gado cha­mou meu pai e meu tio e disse-lhes pou­cas pa­la­vras. Meu pai abai­xou a ca­beça, meu tio so­lu­çou. In­con­for­ma­dos, pe­di­ram que as bus­cas con­ti­nu­as­sem, até que pelo meio da ma­nhã houve algo que sa­cu­diu o ar e ge­lou pa­vo­ro­sa­mente as nos­sas al­mas.

Um dos co­lo­nos lembrou-se da exis­tên­cia de um poço ve­lho, pró­ximo ao iní­cio das pas­ta­gens que des­ciam em di­re­ção ao rio. To­dos cor­re­ram, te­me­ro­sos, ao lo­cal. Em meio aos res­tos da cons­tru­ção de um vi­veiro de café e da qui­çaça, sur­giam os ti­jo­los ci­men­ta­dos que per­fa­ziam a baixa de­fesa em cír­culo. Na ver­dade, ha­via ali um grave des­leixo: uma leve fo­lha de zinco, em­bora bem en­cai­xada, co­bria a boca do fosso. Qual­quer cri­ança po­de­ria erguê-la para ali­men­tar a cu­ri­o­si­dade que to­dos te­mos de “olhar lá em­baixo”. Eu acom­pa­nhei a rá­pida pro­cis­são de to­dos aque­les ho­mens ner­vo­sos. Os po­li­ci­ais er­gue­ram o zinco e não foi pre­ciso lan­terna para ilu­mi­nar o bu­raco. O sol alto fazia-o bem. Vá­rios de­les olha­ram ao mesmo tempo. Eles ajoelharam-se à beira da mu­reta e de­bru­ça­ram so­bre o ci­mento. Meu pai e meu tio guar­da­ram certa dis­tân­cia, ao me­nos até que os ou­tros se cer­ti­fi­ca­ram de que ali não ha­via cri­ança. Dava para ver a água lá no fundo, a água sem qual­quer ob­jeto ou corpo a boiar. As­sim mesmo, providenciaram-se cor­das e um dos sol­da­dos des­ceu. Com a água pela cin­tura, ele com­pro­vou não ha­ver ali qual­quer coisa es­tra­nha. Meu Deus, lembro-me tão bem da sen­sa­ção es­qui­sita que me per­cor­reu quando o sol­dado gri­tou do fundo do poço que a cri­ança não es­tava lá: eu não sa­bia se fi­cava fe­liz ou triste. Eu sa­bia que se Enzo fosse en­con­trado no poço, di­fi­cil­mente es­ta­ria vivo, mas e agora? E agora, que não ha­via mais onde vas­cu­lhar?

En­quanto, reu­nido com meu pai e meu tio, e os ho­mens da fa­zenda os ro­de­ando, o de­le­gado le­van­tava vá­rias pos­si­bi­li­da­des para o de­sa­pa­re­ci­mento de Enzo, sur­giu por de­trás de to­dos, como uma apa­ri­ção per­tur­ba­dora, o ve­lho Dino. Acho que o Dino já con­tava mais de quinze anos na­quela época, uma idade con­si­de­rá­vel para um cão, em­bora eu não saiba di­zer o que isso re­pre­senta para um cão-lobo. De todo modo, ele apa­re­ceu re­pen­ti­na­mente e sua ima­gem, devo con­fes­sar, era ter­ri­vel­mente as­sus­ta­dora. Tra­zia bem na ca­beça al­guns ar­ra­nhões, a boca en­sangüen­tada, o corpo muito sujo de uma subs­tân­cia es­ver­de­ada, como um lodo, e, en­tre os den­tes, o que cau­sou pa­vor a to­dos: um re­ta­lho todo ras­gado, pos­si­vel­mente de uma roupa. Bem, era exa­ta­mente um pe­daço da ca­misa que Enzo ves­tia quando de­sa­pa­re­ceu. Tão logo confirmou-se o pano como sendo da blusa de meu primo, a cena con­ti­nuou hor­ri­pi­lante: meu tio sa­cou o re­vól­ver e dis­pa­rou tan­tas ve­zes quanto pôde con­tra o Dino. À me­dida que as ba­las va­ra­vam seu couro, ele retirava-se len­ta­mente, sem ros­nar, sem la­tir, sem qual­quer in­dig­na­ção, dis­creto como sem­pre vi­vera, até encostar-se ao tronco de uma ja­queira pró­xima e ali dor­mir para sem­pre. Ape­sar de tudo, ape­sar de to­das as evi­dên­cias, ainda tive muita pena da­quele ani­mal, aba­tido vi­o­len­ta­mente após tan­tos anos de sub­mis­são e ami­zade. Coi­sas as­sim nos mar­cam fundo. Eu ti­nha ape­nas doze anos, mas é como se fosse hoje. Na­quela hora, vendo o Dino morto, pen­sei no vovô. Será que ele te­ria per­mi­tido? Se­ria mesmo o ve­lho lobo cul­pado por tal des­graça? Não se­ria aquilo na­tu­ral para um ani­mal de ori­gem sel­va­gem? Em meio a es­ses pen­sa­men­tos, vi quando os po­li­ci­ais aproximaram-se e, com pu­nhais que re­fle­tiam o sol forte, rasgaram-no do peito às co­xas, ex­pondo suas vís­ce­ras abrup­ta­mente. Mas não ha­via nada lá, isto é, não ha­via par­tes de qual­quer corpo hu­mano. Ou­tra busca seguiu-se. Agora, o fim era en­con­trar o corpo, mas este tam­bém não apa­re­ceu. Por fim, de­pois de con­ta­tos com a po­lí­cia flo­res­tal, chegou-se à con­clu­são de que tal­vez o Dino ti­vesse car­re­gado o Enzo ou o que ha­via res­tado do Enzo para longe ou mesmo aban­do­nado o corpo no rio. Tal­vez ou­tros bi­chos sil­ves­tres das ma­tas pró­xi­mas ti­ves­sem au­xi­li­ado o lobo-cão em seu ins­tinto sel­va­gem.

Dois dias de­pois do de­sa­pa­re­ci­mento, os po­li­ci­ais fo­ram em­bora e uma onda de tris­teza e me­lan­co­lia in­va­diu a fa­zenda. Mi­nha tia caiu do­ente, num ter­rí­vel la­mento pelo fi­lho morto, en­quanto mi­nha mãe a so­cor­ria, aju­dada pela vovó e pa­ren­tes que vi­e­ram da ci­dade. Fin­das as es­pe­ran­ças, res­tou à fa­mí­lia ava­liar a pos­si­bi­li­dade de pro­vi­den­ciar o en­terro sim­bó­lico. Ouvi quando vovó, cui­da­dosa, aven­tou a hi­pó­tese com meu pai e meu tio. Am­bos cho­ra­ram muito nessa hora, como se acor­das­sem de um transe, como se ape­nas ali a re­a­li­dade os ti­vesse des­per­tado para a tra­gé­dia. Ater­ro­ri­zado ao ima­gi­nar o en­terro de Enzo sem seu corpo, en­trei em de­ses­pero. É cu­ri­oso, mas, em­bora afun­dado numa do­lo­rosa an­gús­tia, eu não con­se­guia cho­rar, meu de­sa­bafo es­tava preso em meu peito, tal­vez por­que uma raiva pro­funda cor­ro­esse mi­nhas en­tra­nhas di­ante do frio as­sas­si­nato do Dino. Acho que foi essa a causa de mi­nha apa­rente fri­eza, mas que na ver­dade po­de­ria ser de­fi­nida como re­volta. En­quanto avolumava-se a con­versa em torno do en­terro sim­bó­lico, trancafiei-me na bi­bli­o­teca. Fi­quei lá, lendo com­pul­si­va­mente os pro­je­tos do vovô, fu­gindo de to­dos e de tudo que me opri­mia do lado de fora. Não sei di­zer ao certo, mas acre­dito que per­ma­neci na sa­leta por mais de três ho­ras. Eu lia e re­lia aque­las pá­gi­nas ma­nus­cri­tas, a le­tra bem de­fi­nida, quase mesmo en­fei­tada, agra­dá­vel de olhar e que aos pou­cos foi me acal­mando, mas só até o ponto em que en­con­trei, em meio ao texto so­bre o pro­jeto de ir­ri­ga­ção das pas­ta­gens, este frag­mento:

“…As­sim, de­ter­mi­nei que um poço fosse ca­vado e que a par­tir de sua pa­rede, uma ga­le­ria de apro­xi­ma­da­mente qui­nhen­tos me­tros de ex­ten­são e de mé­dio di­â­me­tro, em torno dos ses­senta cen­tí­me­tros, ras­gasse o solo, sob a pas­ta­gem, até de­sem­bo­car no açude, já pró­ximo ao rio. Essa ga­le­ria, cons­truída com ma­te­rial vul­ca­ni­zado, teve sua ins­ta­la­ção pre­vi­a­mente pre­pa­rada com per­fu­ra­ções, por ora pre­en­chi­das, que per­mi­ti­rão pos­te­ri­or­mente sua in­ter­li­ga­ção a um sis­tema hi­dráu­lico, este à flor da terra, pro­por­ci­o­nando as­sim a pos­si­bi­li­dade de uma ir­ri­ga­ção efi­ci­ente e ágil. Este sis­tema, tão logo tes­tado, po­derá ser es­ten­dido às di­ver­sas cul­tu­ras que ne­ces­si­tam de água du­rante a es­ti­a­gem. To­mei o cui­dado de le­var em conta, du­rante a cons­tru­ção da pri­meira etapa deste pro­jeto, as ca­rac­te­rís­ti­cas pró­prias do solo desta re­gião. Em al­guns lo­cais, os len­çóis freá­ti­cos apre­sen­tam certa ir­re­gu­la­ri­dade na va­zão, oca­si­o­nando uma os­ci­la­ção de seu ní­vel pro­du­tivo. As­sim, re­corri ao ex­pe­di­ente de ins­ta­lar a ga­le­ria já em parte sob o ní­vel da água, dando va­zão seqüen­cial ao poço, mesmo que às ve­zes di­mi­nuta, até que seja ins­ta­lada a bomba pro­pul­sora. Até que isso não ocorra, em cer­tos pe­río­dos do dia a água do poço po­derá es­cor­rer pela ga­le­ria, em maior ou me­nor in­ten­si­dade; daí, a pre­o­cu­pa­ção de fazê-la findar-se no açude…”

Ao cor­rer os olhos so­bre es­sas le­tras, uma sen­sa­ção inex­pli­cá­vel tomou-me de as­salto. Com o co­ra­ção aos so­la­van­cos, levantei-me já ofe­gante de uma emo­ção ex­trema, pas­sei a mão na lan­terna, des­tran­quei a porta da bi­bli­o­teca e pus-me a cor­rer. Va­rei a roda de la­men­ta­ção que se fa­zia no am­plo al­pen­dre do ca­sa­rão e, como vão os cães à caça, lancei-me em dis­pa­rada rumo a bai­xada cheia de pas­tos que le­vava ao açude. Vendo-me da­quela ma­neira, meu pai, meu tio e os de­mais que ali se en­con­tra­vam, tam­bém puseram-se ao meu en­calço. Eu os ou­via gri­tando sem pa­rar, perguntando-me o mo­tivo da cor­rida de­sen­fre­ada, mas eu não res­pon­dia, eu ape­nas cho­rava e cor­ria, cho­rava e cor­ria. Quem já pôde ob­ser­var uma cri­ança cor­rendo e cho­rando, cer­ta­mente vi­su­a­li­zará a cena. Uma cri­ança que chora e corre ao mesmo tempo, con­se­gue cor­rer muito, muito mesmo, e eu cor­ria muito, muito mesmo, e atrás, to­dos eles. Ra­pi­da­mente aproximei-me do açude e, sem que ainda me ti­ves­sem al­can­çado, con­tor­nei os pe­que­nos ar­bus­tos da mar­gem, tro­pe­çando e cho­rando, afundei-me no barro perto da bar­ranca que caía do gra­mado em de­clive e num se­gundo avis­tei a boca da ga­le­ria de­certo aban­do­nada há mui­tos anos, cer­cada de su­jeira e muito lodo, pra­ti­ca­mente es­con­dida, avizinhando-se do lago num ponto onde flo­res­ciam os agua­pés. Sem que ainda me com­pre­en­des­sem, en­trei pela boca suja do cano e, com a lan­terna se­gura numa das mãos, avan­cei, lu­tando con­tra o lodo es­cor­re­ga­dio e as ba­ra­tas que ali se ani­nha­vam. Eu não sei ex­pli­car a fonte de mi­nhas for­ças, mas, se­gundo disseram-me de­pois, ras­te­jei por cerca de du­zen­tos me­tros até uma junta da ga­le­ria, onde uma grade de ferro com­pu­nha uma es­pé­cie de fil­tro a im­pe­dir que ani­mais do ta­ma­nho de uma pe­quena rã pu­des­sem su­bir do açude ao poço. Eu já ima­gi­nava o que iria en­con­trar em al­gum ponto da­quela ga­le­ria. Eu sa­bia que dali eu res­ga­ta­ria o corpo de Enzo, que de­sa­bara pela boca do poço e des­li­zara com a água pela ga­le­ria abaixo. Eu o res­ga­ta­ria para que ao me­nos seu en­terro fosse cum­prido com suas for­ma­li­da­des, in­clu­sive com sua pre­sença de carne. De tudo isso eu sa­bia, desde a hora em que li o ma­nus­crito do vovô. Mas, ad­mito, ja­mais se­ria ca­paz de ima­gi­nar que na­quele corpo fe­rido pu­des­sem ainda bri­lhar na es­cu­ri­dão dois olhos fa­min­tos pela vida que trans­cor­ria al­guns me­tros acima. Eu não pude se­quer bal­bu­ciar pa­la­vra, ta­ma­nha mi­nha co­mo­ção. Lá atrás, os ho­mens gri­ta­vam para mim. Era di­fí­cil que um de­les pu­desse en­trar e movimentar-se como eu. Qual­quer um cor­ria o risco de fi­car en­ta­lado no meio da su­jeira que for­rava a ga­le­ria. Amar­rei a lan­terna à ca­misa e for­cei a grade de pre­si­lhas en­fer­ru­ja­das. Na ten­ta­tiva de soltá-la, pude ver, à luz da lan­terna, pre­sos à grade, chu­ma­ços de lon­gos pê­los le­ve­mente dou­ra­dos. Quase ao mesmo tempo, senti algo ma­cio decompondo-se de­baixo de meus jo­e­lhos. Ilu­mi­nei e o que vi me cau­sou ar­re­pio: duas ra­ta­za­nas mor­tas, di­la­ce­ra­das e exan­gues. Num lapso, com­pre­endi en­tão o que se pas­sara, pude mesmo ver a ten­ta­tiva de­ses­pe­rada do ve­lho lobo-cão, do ve­lho e de­ci­di­da­mente bom Dino, para res­ga­tar meu primo Enzo, es­tra­ça­lhando os ro­e­do­res e, atra­vés das fa­lhas cau­sa­das pela oxi­da­ção da grade, in­ves­tindo para pu­xar a cri­ança pela ca­misa, até arranchar-lhe o fa­tí­dico re­ta­lho. Deus, a re­volta pelo des­tino in­justo do nosso Dino concedeu-me for­ças ine­fá­veis, tal­vez des­sas em que, inex­pli­ca­vel­mente, uma pes­soa to­mada pelo de­ses­pero de um aci­dente con­se­gue er­guer um carro com as pró­prias mãos. As pre­si­lhas ce­de­ram e a grade se abriu. O corpo can­sado de Enzo es­cor­re­gou aos meus bra­ços e, en­tão, ras­te­jando ao con­trá­rio, mas agora con­tando com a ajuda da su­per­fí­cie es­cor­re­ga­dia e do leve de­clive da ga­le­ria, fiz o ca­mi­nho de volta. O que de resto de­cor­reu es­teve, ao con­trá­rio desta his­tó­ria, sem­pre den­tro da to­tal nor­ma­li­dade, o que por si só causa de­sin­te­resse a um re­lato mais ex­tenso. Basta di­zer que Enzo per­ma­ne­ceu sob cui­da­dos mé­di­cos du­rante se­ma­nas, mas recuperou-se a tempo de co­nhe­cer a bi­bli­o­teca, da qual pas­sei a ser chefe, e o li­vro que o sal­vou da morte.

Hoje, trinta anos de­pois, um es­tra­nho im­pulso obriga-me a re­vi­rar com certa freqüên­cia as ga­ve­tas onde guardo mi­nhas ve­lha­rias, ape­nas para re­ver dois re­gis­tros da época. Num de­les, uma fo­lha de jor­nal ama­re­lada pelo tempo traz a no­tí­cia so­bre o in­crí­vel re­a­pa­re­ci­mento de Enzo na ga­le­ria aban­do­nada. Por mais que eu a te­nha lido e re­lido desde en­tão, ja­mais pude acei­tar a grave omis­são a res­peito da par­ti­ci­pa­ção emo­ci­o­nante e per­tur­ba­dora do ve­lho lobo no epi­só­dio. É ver­dade que a in­jus­tiça não se­ria cor­ri­gida, mas nossa fa­mí­lia po­de­ria redimir-se em parte do ab­surdo co­me­tido. O ou­tro re­gis­tro é o que eu gosto mais: uma foto em preto e branco mos­tra toda a mag­ni­tude do Dino la­de­ado pe­los seus ir­mãos, di­ga­mos, co­muns. Os cães divertem-se às suas cus­tas, empinando-se e mordiscando-lhe o couro, mas ele pa­rece ignorá-los, prega o olhar fi­xa­mente em di­re­ção à lente da má­quina, olhos ar­re­ga­la­dos e a fei­ção ale­gre ofe­re­cida, como se em sua sa­be­do­ria ani­mal pu­desse, ina­tin­gí­vel, des­pre­zar os ul­tra­jes e a sor­di­dez de seu mais ter­rí­vel pre­da­dor: o ho­mem.

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