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só – Texto de Thiago Roque

quinta-feira, 23 de abril de 2009 Texto de

a taça jaz em cima da pia, guar­dando um resto de vi­nho aban­do­nado.
vi­rada do avesso, num canto, de cas­tigo, a lem­brança está em­bur­rada.
sabe aquela cara de “eu não fiz nada”?
falta ape­nas ajo­e­lhar no mi­lho.
os te­le­fo­nes do disque-alguma coisa não aten­dem.
os cds da fi­ona ap­ple se can­sam de ro­dar.
luz do sol, bri­lho do luar, inin­ter­rup­tos, mar­cam o tempo.
já era hora de per­der as ho­ras.
para dor­mir, pí­lu­las.
para exis­tir, má­goas.
pa­la­vras cru­za­das, ser­viço de acom­pa­nhan­tes, po­e­mas de ri­mas tris­tes, sofá duro para des­can­sar sua dor.
ve­lhi­nha já, sabe? di­a­bé­tica tam­bém.
sa­co­las e sa­co­las de so­li­dão. com­pra do mês feita.
aceita tic­ket?
se pre­ci­sar, faz em­prés­timo.
mas en­trega em casa, por fa­vor.
jor­nais e sor­ri­sos ama­re­la­dos – al­guém quer ler sen­ti­men­tos an­ti­gos?
do ou­tro lado do si­lên­cio, tenta gri­tar seu de­ses­pero.
tudo para de ro­dar por um ins­tante.
e esse ins­tante, eterno con­tar de sus­pi­ros, se di­verte.
se­nhor de sua an­gús­tia, ri de boca aberta. sa­liva. ve­lho ba­bão, isso que é.
tudo fica maior e me­nor – só não fica do ta­ma­nho que de­ve­ria.
quanto veste a sa­tis­fa­ção? calça 42?
mas não com­bina com essa ca­mi­seta vermelho-desisto.
o olhar en­cara o nada, na ten­ta­tiva frus­trada de paquerá-lo e levá-lo pra cama.
despe-se da ti­mi­dez, ca­pri­cha na con­quista.
mas o mi­nis­té­rio dos co­ra­ções par­ti­dos ad­verte: amar, só com pro­te­ção.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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