era um do­mingo de sol.
ele es­tava in­de­fec­tí­vel num con­junto azul-menino, tê­nis branco e um boné que lhe con­fe­ria um certo ar de malandragem-carioca-boêmia – nem tanto a ma­dame satã, nem tanto a mar­celo d2.
já ela, cor-de-rosa no ves­tido, ti­ara de prin­cesa, san­dá­lia fe­cha­di­nha para po­der cor­rer à von­tade. fashion. coisa de pas­sa­rela.
o par­que era grande, com muito verde, com muita gente.
muito… coisa que não se mede.
em ou­tra oca­sião, eles não se en­con­tra­riam.
mas deus fez o mundo, o ho­mem, a mu­lher, o des­tino – na ver­dade, este úl­timo ele con­tra­tou, pois de­ve­ria ter feito no sé­timo dia, o dia da pre­guiça.
lá de cima, o todo-poderoso era só tor­cida.
mas ô du­pli­nha de­sa­fi­nada.
ela passa cor­rendo e ele… não a vê.
ele grita com os ami­gos para apa­re­cer, mos­trar que está ali (coisa de ma­cho, sabe? mar­car ter­ri­tó­rio…) e ela… está no ba­nheiro.
os olha­rem pa­re­cem se cru­zar, mas algo surge no meio do ca­mi­nho: pi­po­queiro, sor­ve­teiro, fa­mí­lias, la­ti­dos…
e o des­tino lá, te­mendo pelo seu em­prego. em época de crise, in­com­pe­tên­cia não tem vez.
as ho­ras es­co­ando pelo bu­eiro do tempo, e nada dos dois se en­con­tra­rem.
até deus es­tava tenso. será que não se­ria dessa vez?
fi­ca­ria tudo para de­pois?
eles te­riam ou­tra chance?
não pre­ci­sa­ram.
ela se le­van­tou com um pouco de di­fi­cul­dade, ca­mi­nhou em di­re­ção à ar­vore de caule grosso e som­bra con­vi­da­tiva. que­ria dar um tempo do sol.
ele viu a mesma ár­vore, a mesma som­bra, o mesmo mo­tivo, deu os mes­mos pas­sos na mesma di­re­ção.
aí, vi­rou cena de ro­mance me­lado.
um passo dela, ou­tro passo dele. um dela, ou­tro dele.
ela. ele
ela.
ele.
e en­tão, fez-se a má­gica.
o en­con­tro.
os olha­res.
ele ti­nha co­vi­nhas nas bo­che­chas.
o ca­belo dela pa­re­cia mais loiro de perto.
ele ti­nha os olhos ne­gros, ja­bu­ti­ca­bos.
ela ti­nha o olhar doce, claro, hip­no­ti­zante.
pa­re­ciam sem ar.
sen­ti­ram o co­ra­ção dar uma ace­le­rada.
deus já sor­ria. o des­tino, en­xu­gava o suor – que du­reza…
pa­ra­dos. um em frente ao ou­tro.
não sa­biam o que di­zer.
não sa­biam o que fa­zer.
não sa­biam.
mas era amor.
nas­ceu ali. fa­gu­lha. plan­tado. rega todo dia que, an­tes da pri­ma­vera, tá bo­nito, todo flo­rido.
ela riu.
ele tam­bém.
ela ti­nha 5 anos.
ele, mais vi­vido, 6 anos e 4 me­ses.
ele apro­vei­tou e a cor­te­jou. es­ten­deu um ba­lão ver­me­lho – ga­nhara do pa­lhaço do par­que, mas ela não pre­ci­sava sa­ber disso.
ela sor­riu.
pe­gou o ba­lão. sor­riu. e cor­reu.
an­tes de pu­lar no colo do pai para ver os ma­ca­cos (como ela se di­ver­tia com os ma­ca­cos!), olhou para trás.
sor­riu.
três sor­ri­sos.
“amor”, ber­rou deus lá de cima, as­sus­tando que­ru­bins e san­ti­da­des cas­tas.
“amor”, de­cre­tou mais uma vez o ve­lho bo­na­chão, emo­ci­o­nado, en­can­tado.
deus pa­re­cia não acre­di­tar.
mas o me­nino lá em­baixo já sa­bia.
e desde o pri­meiro sor­riso.

*** para lu­ana, que acha que eu de­ve­ria es­cre­ver coi­sas mais ale­gres.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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