Colaboradores

um texto feliz - Texto de Thiago Roque

sexta-feira, 8 de maio de 2009 Texto de

era um do­min­go de sol.
ele es­ta­va in­de­fec­tí­vel num con­jun­to azul-me­ni­no, tê­nis bran­co e um bo­né que lhe con­fe­ria um cer­to ar de ma­lan­dra­gem-ca­ri­o­ca-boê­mia – nem tan­to a ma­da­me sa­tã, nem tan­to a mar­ce­lo d2.
já ela, cor-de-ro­sa no ves­ti­do, ti­a­ra de prin­ce­sa, san­dá­lia fe­cha­di­nha pa­ra po­der cor­rer à von­ta­de. fashi­on. coi­sa de pas­sa­re­la.
o par­que era gran­de, com mui­to ver­de, com mui­ta gen­te.
mui­to... coi­sa que não se me­de.
em ou­tra oca­sião, eles não se en­con­tra­ri­am.
mas deus fez o mun­do, o ho­mem, a mu­lher, o des­ti­no – na ver­da­de, es­te úl­ti­mo ele con­tra­tou, pois de­ve­ria ter fei­to no sé­ti­mo dia, o dia da pre­gui­ça.
lá de ci­ma, o to­do-po­de­ro­so era só tor­ci­da.
mas ô du­pli­nha de­sa­fi­na­da.
ela pas­sa cor­ren­do e ele... não a vê.
ele gri­ta com os ami­gos pa­ra apa­re­cer, mos­trar que es­tá ali (coi­sa de ma­cho, sa­be? mar­car ter­ri­tó­rio...) e ela... es­tá no ba­nhei­ro.
os olha­rem pa­re­cem se cru­zar, mas al­go sur­ge no meio do ca­mi­nho: pi­po­quei­ro, sor­ve­tei­ro, fa­mí­li­as, la­ti­dos...
e o des­ti­no lá, te­men­do pe­lo seu em­pre­go. em épo­ca de cri­se, in­com­pe­tên­cia não tem vez.
as ho­ras es­co­an­do pe­lo bu­ei­ro do tem­po, e na­da dos dois se en­con­tra­rem.
até deus es­ta­va ten­so. se­rá que não se­ria des­sa vez?
fi­ca­ria tu­do pa­ra de­pois?
eles te­ri­am ou­tra chan­ce?
não pre­ci­sa­ram.
ela se le­van­tou com um pou­co de di­fi­cul­da­de, ca­mi­nhou em di­re­ção à ar­vo­re de cau­le gros­so e som­bra con­vi­da­ti­va. que­ria dar um tem­po do sol.
ele viu a mes­ma ár­vo­re, a mes­ma som­bra, o mes­mo mo­ti­vo, deu os mes­mos pas­sos na mes­ma di­re­ção.
aí, vi­rou ce­na de ro­man­ce me­la­do.
um pas­so de­la, ou­tro pas­so de­le. um de­la, ou­tro de­le.
ela. ele
ela.
ele.
e en­tão, fez-se a má­gi­ca.
o en­con­tro.
os olha­res.
ele ti­nha co­vi­nhas nas bo­che­chas.
o ca­be­lo de­la pa­re­cia mais loi­ro de per­to.
ele ti­nha os olhos ne­gros, ja­bu­ti­ca­bos.
ela ti­nha o olhar do­ce, cla­ro, hip­no­ti­zan­te.
pa­re­ci­am sem ar.
sen­ti­ram o co­ra­ção dar uma ace­le­ra­da.
deus já sor­ria. o des­ti­no, en­xu­ga­va o su­or - que du­re­za...
pa­ra­dos. um em fren­te ao ou­tro.
não sa­bi­am o que di­zer.
não sa­bi­am o que fa­zer.
não sa­bi­am.
mas era amor.
nas­ceu ali. fa­gu­lha. plan­ta­do. re­ga to­do dia que, an­tes da pri­ma­ve­ra, tá bo­ni­to, to­do flo­ri­do.
ela riu.
ele tam­bém.
ela ti­nha 5 anos.
ele, mais vi­vi­do, 6 anos e 4 me­ses.
ele apro­vei­tou e a cor­te­jou. es­ten­deu um ba­lão ver­me­lho - ga­nha­ra do pa­lha­ço do par­que, mas ela não pre­ci­sa­va sa­ber dis­so.
ela sor­riu.
pe­gou o ba­lão. sor­riu. e cor­reu.
an­tes de pu­lar no co­lo do pai pa­ra ver os ma­ca­cos (co­mo ela se di­ver­tia com os ma­ca­cos!), olhou pa­ra trás.
sor­riu.
três sor­ri­sos.
“amor”, ber­rou deus lá de ci­ma, as­sus­tan­do que­ru­bins e san­ti­da­des cas­tas.
“amor”, de­cre­tou mais uma vez o ve­lho bo­na­chão, emo­ci­o­na­do, en­can­ta­do.
deus pa­re­cia não acre­di­tar.
mas o me­ni­no lá em­bai­xo já sa­bia.
e des­de o pri­mei­ro sor­ri­so.

*** pa­ra lu­a­na, que acha que eu de­ve­ria es­cre­ver coi­sas mais ale­gres.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

Palavras-chave

Compartilhe