Aquela bala de hortelã – 6

Epílogo

Depois daquela tarde pavorosa, estive na casa de Elisa apenas uma vez, para despedir-me dela e também da mãe e do irmão. Com a morte de Damião Fausto, descobriram-se os meandros de sua vida. Como suspeitava-se naquela época em Mirante Norte, vivia em meio a atividades criminosas, cujas características prefiro omitir neste momento. Com a ajuda de familiares, a senhora Wander mudou-se para a capital, onde passou a tratar o filho com especialistas. O garoto, no entanto, morreu poucos anos depois, por complicações pulmonares.

Tudo isso ficamos sabendo ainda em Mirante Norte, nos dias em que se sucederam às tragédias, a tragédia familiar deles e a tragédia amorosa minha, se é que um garoto de doze anos pode ser levado a sério quando se insere numa tragédia amorosa própria. O que fiquei sabendo há pouco foi que, ao morrer, Homero também o fez de modo misterioso. Somente os aparelhos eram capazes de mantê-lo respirando. Convencida pelos médicos de que não haveria retorno, a senhora Wander, pensando, tenho certeza disto, apenas no sofrimento do filho, permitiu que fossem desligados. Antes que isso ocorresse, entretanto, Homero recusou-se a seguir aspirando aquele ar que lhe era obrigatoriamente enfiado pelas narinas. Morreu antes da hora.

- Acho que se tivessem cronometrado o tempo entre a morte e o momento em que os médicos iriam desligar os aparelhos, seriam dois minutos.

Disse-me assim a própria Elisa. Por um desses acasos, encontrei-a saindo de uma loja. Eu a reconheci por tê-la visto, psiquiatra famosa que é, em notícias de jornais e numa oportunidade também na televisão. Dessa vez, não precisei de balas de hortelã. Conversei com ela sentindo o gosto de uma estranha nostalgia, não sei se marcada pela tristeza ou pela felicidade, apenas uma nostalgia. Mas o que me atormenta desde então é outra coisa. Será que eu deveria ter contado a ela sobre o que se passou naquela tarde fatídica? O que só eu pude ver e ninguém mais? Que antes do disparo feito pelo fazendeiro contra Damião Fausto, e logo depois que Homero beijou e esfregou sua face na do padrasto, que já nesse momento testemunhei, aterrorizado, os lábios do menino, e mesmo seu rosto, manchados de um sangue que ainda esguicharia?

(Fim)

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