Contos

Aquela bala de hortelã – 6

segunda-feira, 20 de abril de 2009 Texto de

Epílogo

De­pois da­quela tarde pa­vo­rosa, es­tive na casa de Elisa ape­nas uma vez, para despedir-me dela e tam­bém da mãe e do ir­mão. Com a morte de Da­mião Fausto, descobriram-se os me­an­dros de sua vida. Como suspeitava-se na­quela época em Mi­rante Norte, vi­via em meio a ati­vi­da­des cri­mi­no­sas, cu­jas ca­rac­te­rís­ti­cas pre­firo omi­tir neste mo­mento. Com a ajuda de fa­mi­li­a­res, a se­nhora Wan­der mudou-se para a ca­pi­tal, onde pas­sou a tra­tar o fi­lho com es­pe­ci­a­lis­tas. O ga­roto, no en­tanto, mor­reu pou­cos anos de­pois, por com­pli­ca­ções pul­mo­na­res.

Tudo isso fi­ca­mos sa­bendo ainda em Mi­rante Norte, nos dias em que se su­ce­de­ram às tra­gé­dias, a tra­gé­dia fa­mi­liar de­les e a tra­gé­dia amo­rosa mi­nha, se é que um ga­roto de doze anos pode ser le­vado a sé­rio quando se in­sere numa tra­gé­dia amo­rosa pró­pria. O que fi­quei sa­bendo há pouco foi que, ao mor­rer, Ho­mero tam­bém o fez de modo mis­te­ri­oso. So­mente os apa­re­lhos eram ca­pa­zes de mantê-lo res­pi­rando. Con­ven­cida pe­los mé­di­cos de que não ha­ve­ria re­torno, a se­nhora Wan­der, pen­sando, te­nho cer­teza disto, ape­nas no so­fri­mento do fi­lho, per­mi­tiu que fos­sem des­li­ga­dos. An­tes que isso ocor­resse, en­tre­tanto, Ho­mero recusou-se a se­guir as­pi­rando aquele ar que lhe era obri­ga­to­ri­a­mente en­fi­ado pe­las na­ri­nas. Mor­reu an­tes da hora.

– Acho que se ti­ves­sem cro­no­me­trado o tempo en­tre a morte e o mo­mento em que os mé­di­cos iriam des­li­gar os apa­re­lhos, se­riam dois mi­nu­tos.

Disse-me as­sim a pró­pria Elisa. Por um des­ses aca­sos, encontrei-a saindo de uma loja. Eu a re­co­nheci por tê-la visto, psi­qui­a­tra fa­mosa que é, em no­tí­cias de jor­nais e numa opor­tu­ni­dade tam­bém na te­le­vi­são. Dessa vez, não pre­ci­sei de ba­las de hor­telã. Con­ver­sei com ela sen­tindo o gosto de uma es­tra­nha nos­tal­gia, não sei se mar­cada pela tris­teza ou pela fe­li­ci­dade, ape­nas uma nos­tal­gia. Mas o que me ator­menta desde en­tão é ou­tra coisa. Será que eu de­ve­ria ter con­tado a ela so­bre o que se pas­sou na­quela tarde fa­tí­dica? O que só eu pude ver e nin­guém mais? Que an­tes do dis­paro feito pelo fa­zen­deiro con­tra Da­mião Fausto, e logo de­pois que Ho­mero bei­jou e es­fre­gou sua face na do pa­drasto, que já nesse mo­mento tes­te­mu­nhei, ater­ro­ri­zado, os lá­bios do me­nino, e mesmo seu rosto, man­cha­dos de um san­gue que ainda es­gui­cha­ria?

(Fim)

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