Contos

Formoso doutor

quinta-feira, 16 de abril de 2009 Texto de

O su­jeito vindo lá de ou­tras ban­das era mesmo for­moso, dizia-se aos pu­nha­dos pe­las ruas afora e pe­las ca­sas aden­tro. As mo­ci­nhas fo­ram logo so­nhando com o Ge­o­nildo e suas ma­dei­xas alou­ra­das, os olhos bri­lhan­tes em azul forte, o na­riz pe­queno, a pele es­ti­cada, os bra­ços avo­lu­ma­dos, o queixo nem es­treito nem largo, a es­ta­tura boa, a voz ma­cia, o jeito doce, bem-educado ele. Veio pa­rar no po­vo­ado não se soube de onde, de um dia para o ou­tro, sem aviso pré­vio, atro­pe­lando as co­ma­dres que tudo viam e sa­biam, de­sa­fi­ando os co­ro­néis a quem se pe­dia bên­ção para ajuntar-se com os dali, in­qui­e­tando os mo­ços mais rús­ti­cos do lu­gar. O Ge­o­nildo veio e foi fi­cando.

No ter­ceiro dia, já ti­nha se es­ta­be­le­cido numa porta que ha­via muito encontrava-se fe­chada na rua do co­mér­cio. Mo­rava nos fun­dos e pôs os ar­ti­gos de couro para venda logo na en­trada, onde tam­bém ins­ta­lou seu pe­queno es­cri­tó­rio. Ali, pas­sava o dia com seus es­cri­tos, en­quanto um me­ni­note con­tra­tado para o ser­viço aten­dia aos cli­en­tes. Quem o co­nhe­ceu até aí foi só mesmo o Ja­nuá­rio, dono da pen­são onde ele co­mia o al­moço. O co­ro­nel An­to­nio das Amo­rei­ras interpelou-o a res­peito do fo­ras­teiro, mas não se achava de quê. Sentava-se, co­mia o prato que lhe ser­viam, to­mava o café e se­guia seu rumo, muito bem-educado. Por sua vez, o co­ro­nel Am­bró­sio des­con­fiou. Ha­ve­ria tra­paça em lu­gar de co­mér­cio. As­sim era fa­zia tempo nos lu­ga­res ci­vi­li­za­dos. O pro­gresso tra­zia suas in­con­ve­ni­ên­cias. O lou­ri­nho te­ria suas in­ten­ções. In­ves­ti­gou quem com­prava com ele. Os tes­te­mu­nhos, no en­tanto, constituíam-se em con­teú­dos idên­ti­cos: o cal­çado do me­nino, o re­ben­que novo, o ar­reio para o ca­valo, nada mais. 

Ge­o­nildo ainda não reu­nia ami­gos. Abria seu co­mér­cio bem cedo, e na boca da noite fechava-lhe as por­tas. Aos do­min­gos, em cima de pas­sos fir­mes, su­bia os cinco de­graus do adro, va­rava por en­tre as ro­di­nhas de mo­ças e com­pa­dres e sentava-se no úl­timo banco para ou­vir o pa­dre. Na hora da co­mu­nhão, as don­ze­las pro­cu­ra­vam o moço bo­nito lá atrás e, sem que­rer, mor­diam a hós­tia. Saía dis­cre­ta­mente di­reto para os fun­dos da loja, dei­xando atrás de si um ras­tro de olha­res.

A cu­ri­o­si­dade cres­ceu de­pois de duas se­ma­nas. A mando do pre­feito, o pa­dre foi ave­ri­guar. Con­ver­sou, con­ver­sou, e nada con­cluiu que pu­desse ser es­tra­nho. O ne­gó­cio jun­tava pro­du­tos de couro e, em seu es­cri­tó­rio, Ge­o­nildo só mesmo es­cre­via, em­bora o que não se sou­besse, por tratar-se algo as­sim de im­per­doá­vel bis­bi­lho­tice, in­fe­riu o pa­dre.

Veio ma­tar gente. O co­ro­nel Lau­rindo res­mun­gou, um tanto in­certo. De­pois, cha­mou o ca­panga Sen­siso e man­dou que fi­casse de olho nele. O Sen­siso fi­cou e não de­mo­rou a dar seu pa­re­cer: se fosse para ma­tar gente, tra­zia arma, o que não ha­via. Não, Ge­o­nildo em ver­dade não car­re­gava arma. Não era, en­tão, ja­gunço me­tido a es­perto, conformou-se o co­ro­nel Lau­rindo. En­tão, o que se­ria o tal Ge­o­nildo do Couro? Dou­tor da ca­pi­tal, as­sim de­ve­ria ser. Lembrou-se, o co­ro­nel, da­quele ou­tro, um certo Mo­raes, que abrira, dois ou três anos an­tes, uma bo­tica. Trou­xera junto um bo­ti­cá­rio e ele mesmo não fa­zia nada, se­não con­ver­sar so­bre tudo com to­dos. Pes­quisa! O dou­tor Mo­raes ti­nha feito uma pes­quisa, recordava-se o co­ro­nel Lau­rindo. Pois as­sim era: o tal Ge­o­nildo do Couro era dou­tor e ainda por cima um pes­qui­sa­dor.

O bo­ato espalhou-se de­pressa. Che­gou nas Amo­rei­ras e o co­ro­nel An­to­nio deu fé. Pas­sou pela es­trada de bois por onde se­guia o co­ro­nel Am­bró­sio, e ele ges­ti­cu­lou fes­tivo di­ante da boa nova. Uma vi­sita no­bre, de dou­tor pes­qui­sa­dor, me­re­cia re­co­nhe­ci­mento. Man­dou ma­tar meia dú­zia de car­nei­ros para o do­mingo, e quis que o dou­tor vi­esse para a fes­tança. Ru­mi­nando a ciu­meira por conta da ini­ci­a­tiva do co­ro­nel Am­bró­sio, tam­bém vi­e­ram os ou­tros dois co­ro­néis. As mo­ci­nhas enfeitaram-se e os ra­pa­zes es­pi­a­ram de tra­vés quando o Ge­o­nildo apon­tou na por­teira, ba­lan­çando o corpo bem ves­tido em terno de li­nho branco no lombo do me­lhor ca­valo dali, que lhe fora es­pe­ci­al­mente en­vi­ado pelo an­fi­trião.

O co­ro­nel Am­bró­sio fez as hon­ras, acom­pa­nhado dos ou­tros to­dos, e das ou­tras tam­bém. O lou­ri­nho sa­bia ser edu­cado. As­sim cor­reu o co­men­tá­rio no meio das car­nes e das be­bi­das. E não era exa­gero ad­mi­rar sua for­mo­sura. As mo­ças entreolhavam-se de­baixo do re­cato com von­tade de con­fes­sa­rem tudo a ele. Os mo­ços não ti­nham co­ra­gem de pu­xar con­versa com um dou­tor. Os co­ro­néis dei­xa­vam es­ca­par ba­na­li­da­des para não caí­rem do ca­valo. E o Ge­o­nildo a to­dos aten­dia com gen­ti­le­zas, mas sem­pre muito con­tido. Não pa­re­cia ser afeito às al­ga­zar­ras, ao fa­la­tó­rio gri­tado ou às gar­ga­lha­das des­com­pos­tas, muito co­muns en­tre aque­las pes­soas ale­gres que o re­ce­biam.

A certa al­tura, qui­se­ram sa­ber os co­ro­néis e to­das as au­to­ri­da­des ad­mi­nis­tra­ti­vas, po­lí­ti­cas e ecle­siás­ti­cas do lu­gar a quan­tas iam os ne­gó­cios. E, com pres­teza, o Ge­o­nildo res­pon­deu uma a uma as per­gun­tas, sem nada omi­tir. Dona Gre­gó­ria, a dona da casa, meteu-se tam­bém na en­tre­vista e foi quem lhe per­gun­tou em que mesmo era dou­tor? Mas não, o Ge­o­nildo res­pon­deu à boa se­nhora que não se tra­tava disso, de modo al­gum formara-se dou­tor um dia, era só mesmo ne­go­ci­ante. Em vista de uma sur­presa dessa monta, en­go­li­ram um rio de sa­liva to­dos eles, an­tes de re­cu­pe­ra­rem o rumo. E foi as­sim que o co­ro­nel Lau­rindo, de sos­laio, con­vi­dou com um olhar seu co­lega An­to­nio das Amo­rei­ras, e lá fora, em de­li­be­ra­ções con­ci­sas, logo con­cluí­ram que o co­ro­nel Am­bró­sio precipitara-se na re­cep­ção a um im­pos­tor.

Com a no­tí­cia espalhando-se pela festa, um si­lên­cio cres­ceu en­tre os con­vi­vas. Aqui e acolá, o as­sunto não era ou­tro se­não a des­co­berta que dona Gre­gó­ria fi­zera há pouco. Vi­ram do pouco que se pre­ci­sou para des­mas­ca­rar o tal Ge­o­nildo? A per­gunta, como ou­tras iguais, cir­cu­lava na boca dos mo­ços res­sen­ti­dos e logo fez-se ou­vir en­tre a mai­o­ria que ali es­tava, ino­cente e lu­di­bri­ada, para pres­tar uma ho­me­na­gem a um dou­tor que nem mesmo exis­tia.

A prin­cí­pio, en­tre as mo­ças, arrastou-se um ar pe­sa­roso. Mas, a des­peito da for­mo­sura e da boa edu­ca­ção do Ge­o­nildo, tam­bém en­tre elas configurou-se um sen­ti­mento de des­prezo. Ao her­deiro do co­ro­nel An­to­nio fal­ta­vam cul­tura e sen­si­bi­li­dade, mas de­certo não se­ria ele ca­paz de uma coisa des­sas. Uma disse as­sim, ao que a ou­tra respondeu-lhe so­bre o ca­çula do co­ro­nel Lau­rindo, cujo modo de tra­tar as pes­soas, sem­pre com gros­se­rias, nada mais in­di­cava do que sua ho­nes­ti­dade, pois nin­guém po­de­ria enganar-se a seu res­peito. E as­sim, con­forme a festa se­guia seu curso, aque­las pes­soas, in­cluindo as don­ze­las, dei­xa­ram de lado o Ge­o­nildo que não era dou­tor coi­sís­sima ne­nhuma.

Às três da tarde, de­baixo do sol bravo e no meio da po­eira que aos pou­cos ia aver­me­lhando seu terno de li­nho branco, Ge­o­nildo, a pé e so­zi­nho, to­mou a es­trada de volta à ci­dade. E, nas ani­ma­das con­ver­sas na casa do co­ro­nel Am­bró­sio, nin­guém mais se lem­brava do fo­ras­teiro.

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