Contos

Aquela bala de hortelã – 2

quinta-feira, 16 de abril de 2009 Texto de

Ao re­cu­pe­rar a cons­ci­ên­cia, na santa casa de uma ci­dade vi­zi­nha, para onde fui le­vado na mesma hora em que me so­cor­re­ram du­rante o grande prê­mio, o ca­lor oprimia-me de tal ma­neira que tive a ní­tida im­pres­são de es­tar sendo co­zido para o jan­tar. Mi­nha mãe vigiava-me e não pôde con­ter as lá­gri­mas quando abri os olhos e sob a mais frá­gil das vo­zes disse aquela frase:

– Pre­ciso chu­par uma bala de hor­telã…

Era cu­ri­oso, mas sem­pre fui as­sim: en­quanto nos dias de muito ca­lor os ou­tros cos­tu­ma­vam banhar-se na pe­quena ca­cho­eira do re­gato que des­cia da mata, para mim bas­tava ti­rar do bolso uma bala verde de hor­telã e colocá-la na boca. Pronto. Uma sen­sa­ção re­fres­cante ocupava-me e eu fi­cava ali, de­baixo dos ga­lhos ape­nas ob­ser­vando a al­ga­zarra de­les den­tro da água. Sim, eu tam­bém apre­ci­ava a água, mas de­ci­di­da­mente o pa­la­dar já sig­ni­fi­cava uma es­pé­cie de con­du­tor de mi­nhas sen­sa­ções. Mi­nha mãe não car­re­gava con­sigo ne­nhuma bala de hor­telã no hos­pi­tal, e mesmo que a ti­vesse, cer­ta­mente não me te­ria dado an­tes de fa­zer o que fez: en­fiar o dedo na­quela cam­pai­nha que liga o quarto do pa­ci­ente à en­fer­ma­ria. Além do mais, ela foi to­mada por uma grande sur­presa ao cons­ta­tar um quase-milagre: mais tarde, muito mais tarde, pude sa­ber que as es­pe­ran­ças quanto à mi­nha re­cu­pe­ra­ção eram mí­ni­mas.

Dei­xei o hos­pi­tal duas se­ma­nas de­pois de cum­prir uma via cru­cis de exa­mes e de fi­car na fa­mosa ob­ser­va­ção, em que a úl­tima coisa que há é qual­quer ob­ser­va­ção, a não ser dos seus pa­ren­tes e ami­gos que vão visitá-lo. Claro, o mé­dico au­to­ri­zou que eu chu­passe quan­tas ba­las de hor­telã fossem-me pos­sí­veis. Quando a ci­da­de­zi­nha de Mi­rante Norte soube de meu re­torno, não houve dú­vi­das: o “quase” foi ex­tir­pado do termo que usei há pouco, per­ma­ne­cendo so­be­rano e in­dis­cu­tí­vel o “mi­la­gre”. Por al­gu­mas se­ma­nas, até que a po­eira bai­xasse, tornei-me uma certa ce­le­bri­dade. E foi até en­gra­çado, pois muita gente le­vou ao pé da le­tra os co­men­tá­rios so­bre a re­cu­pe­ra­ção mi­ra­cu­losa e, tal­vez obe­de­cendo in­cons­ci­en­te­mente a uma marca pró­pria da­que­les anos ses­senta, al­guns mo­ra­do­res, não ape­nas cri­an­ças, mas tam­bém adul­tos, pas­sa­ram a seguir-me em al­guns há­bi­tos. Por exem­plo, quando sou­be­ram que meu pri­meiro de­sejo ao acor­dar foi chu­par uma bala de hor­telã, cor­re­ram ao bar para es­to­car o pro­duto que de­ve­riam con­su­mir em nome de uma boa sorte. Se eu usava um boné cor de abó­bora, as ruas tingiam-se desse tom por um certo tempo. Na es­cola, eu po­dia mesmo re­cei­tar que tipo de ca­neta ou ca­derno meus co­le­gas de­ve­riam usar no de­cor­rer da­quele ano.

E quanto a essa parte da his­tó­ria, acon­te­ceu algo inu­si­tado. Num certo dia, fui com­prar ba­las de hor­telã no bar mais pró­ximo de mi­nha casa e elas ti­nham aca­bado. Só no mês que vem, quando che­gar a pró­xima re­messa, disse-me o seu Ar­geu. Tudo bem, ha­via ou­tros ba­res e tam­bém dois ar­ma­zéns. Per­corri toda Mi­rante Norte, e nada. Os es­to­ques de ba­las de hor­telã es­ta­vam es­go­ta­dos. Desse modo, pa­rei de chupá-las, e per­cebi que meus co­le­gas e to­dos os ou­tros as­sim tam­bém agi­ram. Não sei que fim ti­ve­ram tan­tas ba­las nos es­to­ques ca­sei­ros, mas de­pois, quando che­gou a nova re­messa, o ve­rão já aca­bara e o fri­o­zi­nho do ou­tono re­que­ria uma boa bala de ca­nela.

De pouco em pouco, dei­xei de ser o dono das aten­ções. A ci­dade esqueceu-se do mi­la­gre e voltou-se ao seu sos­se­gado co­ti­di­ano. E nós apro­vei­ta­mos para re­to­mar nos­sos gran­des prê­mios. Mas, na mi­nha ca­beça, além de uma ra­zoá­vel ci­ca­triz e de umas do­res que, em­bora de­ca­den­tes, ainda incomodavam-me às ve­zes, uma in­qui­e­ta­ção to­mava corpo: a lem­brança de Ho­mero e de sua mãe, o me­nino com as mãos co­brindo o rosto, aque­las pa­la­vras: po­bre­zi­nho, ma­mãe, que tombo feio!

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