Contos

Aquela bala de hortelã – 3

sexta-feira, 17 de abril de 2009 Texto de

Elisa. Esse é o nome da irmã mais ve­lha de Ho­mero. Na­quele ano que se ini­ci­ava, es­tu­da­ría­mos na mesma classe de pri­meira sé­rie gi­na­sial. En­gra­çado recordar-me disto, mas eu ja­mais ha­via re­pa­rado nela. Se­ria a idade? Na­quela época, es­tá­va­mos mais pre­o­cu­pa­dos com mui­tas ou­tras coi­sas an­tes de pen­sar­mos em ga­ro­tas. Se­ria a roupa de gi­na­si­ana: saia um pouco acima dos jo­e­lhos, com pre­gas que en­cor­pa­vam quem a ves­tisse, além de uma blusa branca que, fofa, em­pres­tava às me­ni­nas uma co­no­ta­ção de quase-mulher? Não sei di­zer o que se­ria, mas quando a vi sen­tada no pá­tio à es­pera da aula, chu­pei se­gui­da­mente um pa­cote in­teiro de ba­las de hor­telã.

Mi­nhas per­nas tre­me­ram no jan­tar da­quela noite quando, à mesa, eu disse a ma­mãe e pa­pai que Elisa es­tu­dava na mi­nha classe. Eles entreolharam-se de ma­neira es­tra­nha e de­pois, em si­lên­cio, não con­se­gui­ram dis­far­çar certo incô­modo. Ao meu lado, mi­nha irmã Helga fez, em meio às gar­fa­das, um co­men­tá­rio cu­jas con­seqüên­cias só ser­vi­ram para pi­o­rar as coi­sas:

– Ela está muito so­zi­nha este ano…

Helga é dois anos mais ve­lha do que eu e a ma­neira como se ex­pres­sou so­bre Elisa foi sin­to­má­tica, cra­vando no ar um olhar de co­mi­se­ra­ção. Eu sa­bia que ha­via algo er­rado, mas não po­dia in­ter­pe­lar mi­nha irmã ali, na frente de meus pais, cu­jas re­a­ções sus­ci­ta­das pela sim­ples men­ção ao nome de Elisa apre­sen­ta­ram um ar de ta­ma­nho des­con­forto. Até o fim do jan­tar, não se fa­lou mais so­bre o as­sunto. Tão logo Helga su­biu para o quarto, eu pude en­tão pedir-lhe al­gu­mas ex­pli­ca­ções.

Mi­nha irmã sem­pre foi muito dis­creta. Na­quela época, ela con­tava ca­torze anos, mas já pa­re­cia ser uma moça de de­zoito por seu com­por­ta­mento só­brio e não afeito a cri­an­ci­ces. Em­bora de iní­cio ela te­nha me cu­tu­cado so­bre o re­pen­tino in­te­resse por Elisa, já sus­pei­tando de meus sen­ti­men­tos, co­la­bo­rou con­forme mi­nhas in­ten­ções. Explicou-me que desde o ca­sa­mento da se­nhora Ma­da­lena com o re­pre­sen­tante co­mer­cial Da­mião Fausto, o que a tor­nou se­nhora Wan­der, em ra­zão do so­bre­nome dele, os mo­ra­do­res de Mi­rante Norte pas­sa­ram a afastar-se aos pou­cos de sua con­vi­vên­cia. Na ca­beça de mi­nha irmã, a ra­zão para isso era que a se­nhora Wan­der es­pe­rara muito pouco tempo para aban­do­nar a viu­vez e casar-se no­va­mente.

Ha­via, con­tudo, ou­tro mo­tivo, este sim de­ci­sivo para que o iso­la­mento da se­nhora Wan­der cres­cesse a cada dia: o tal Da­mião Fausto era visto com re­ser­vas pela so­ci­e­dade mi­ran­tina. Nin­guém sa­bia ao certo o que ele ven­dia e para qual em­presa tra­ba­lhava. Além disso, para alar­gar ainda mais a an­ti­pa­tia ge­ral, Da­mião Fausto ti­nha sido, há coisa de seis ou sete me­ses, res­pon­sá­vel di­reto pela morte do jo­vem pro­fes­sor Hil­de­brando, fi­lho do fa­zen­deiro To­nico For­tes, um dos ho­mens mais ri­cos de Mi­rante Norte. Re­su­mi­da­mente, o aci­dente deu-se as­sim: numa ma­dru­gada, Hil­de­brando dei­xava o clube so­cial, cuja sede localizava-se bem na en­trada da ci­dade, quando Da­mião Fausto apon­tou com seu au­to­mó­vel em alta ve­lo­ci­dade para os pa­drões da época. A rua es­tava de­serta e cho­via muito. Da­mião Fausto não pa­rou e o pro­fes­sor mor­reu ali mesmo, com a boca va­zando san­gue nos pa­ra­le­le­pí­pe­dos. No ou­tro dia, Da­mião Fausto ale­gou não ter per­ce­bido o atro­pe­la­mento em meio ao agua­ceiro, mesmo que o pára-choque de seu carro es­ti­vesse todo amas­sado. Bem, o fato é que mis­te­ri­o­sa­mente ele foi jul­gado e con­si­de­rado ino­cente. Com isso, a ci­dade, in­cluindo é claro o fa­zen­deiro To­nico For­tes, nunca se con­for­mou.

Es­sas in­for­ma­ções eu as ob­tive com mi­nha mãe. Ló­gico que os de­ta­lhes só che­ga­ram ao meu co­nhe­ci­mento muito mais tarde, mas grosso modo dava para com­pre­en­der por que sem­pre vi­ra­vam a cara para a po­bre se­nhora Wan­der e, de que­bra, para seus fi­lhos, Ho­mero e Elisa.

As se­ma­nas da­quele novo ano cor­re­ram feito lou­cas e, com o tempo e a ajuda de Helga, pude fa­zer ami­zade com Elisa. No in­ter­valo das au­las, sem­pre chu­pá­va­mos mui­tas ba­las de hor­telã. Meu Deus, eu nem me lem­brava mais das his­tó­rias a res­peito do Da­mião Fausto, tal era o meu de­sejo de per­ma­ne­cer ao lado dela. Um dia, to­mei co­ra­gem e pedi à mi­nha mãe para que me au­to­ri­zasse a fa­zer a li­ção de casa com ela, mas a res­posta foi ne­ga­tiva. Ló­gico, fui as­sim mesmo. A se­nhora Wan­der, que quase sem­pre encontrava-se so­zi­nha com Ho­mero e a fi­lha, pois o ma­rido vi­a­java cons­tan­te­mente, pas­sou a considerar-me muito. Po­bre­zi­nha, em to­das as ve­zes que lá es­tive na­que­les ou­tono, in­verno e co­meço de pri­ma­vera de 1962, acho que pre­sen­ciei ape­nas a vi­sita de uma ou duas pes­soas, as­sim mesmo uma sendo sua pa­rente de ou­tra ci­dade.

As­sim, en­quanto meus ami­gos acha­vam que eu es­tava em casa es­tu­dando, e mi­nha mãe pen­sava que eu ha­via saído com meus ami­gos, um ou dois dias por se­mana eu sem­pre dava um jeito de ir ver Elisa. Com essa freqüên­cia, foi im­pos­sí­vel não per­ce­ber al­gu­mas si­tu­a­ções es­tra­nhas pro­vo­ca­das pelo so­turno Ho­mero. Em­bora eu não pu­desse com­pre­en­der exa­ta­mente o que se pas­sava, por­que eu e Elisa es­tu­dá­va­mos longe dele, era algo per­cep­tí­vel o es­forço da se­nhora Wan­der para dis­far­çar cer­tas re­a­ções do fi­lho, pro­cu­rando des­fa­zer até mesmo o cons­tran­gi­mento que eu des­co­bria nos olhos de mi­nha amiga.

Numa oca­sião, es­tá­va­mos com os li­vros aber­tos no es­cri­tó­rio de Da­mião Fausto, quando ou­vi­mos o choro co­pi­oso de Ho­mero em seu quarto. Elisa cor­reu para lá, en­quanto eu, tal­vez por res­peito a algo que ima­gi­nava cons­tran­ge­dor para a fa­mí­lia, per­ma­neci ali, qui­eto, ape­nas ou­vindo o me­nino la­men­tar:

– Po­bre­zi­nha da vovó, po­bre­zi­nha da vovó…

De­mo­rei so­mente al­guns se­gun­dos para en­ten­der que Ho­mero pos­suía uma es­pé­cie de sexto sen­tido. Dali a pouco, en­quanto a se­nhora Wan­der con­so­lava o fi­lho, o te­le­fone preto to­cou na sala. Do ou­tro lado da li­nha, co­mu­ni­ca­ram a morte da avó de Elisa. En­farte.

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