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A organização – Texto de Otávio Nunes

segunda-feira, 11 de agosto de 2008 Texto de

Gre­nó­lio sentou-se na ca­deira ao lado de um amigo e se po­si­ci­o­nou bem
para ou­vir o seu lí­der fa­zer o pri­meiro dis­curso da or­ga­ni­za­ção
recém-fundada. O pre­si­dente exal­tou a união en­tre os mem­bros e a
ne­ces­si­dade de a en­ti­dade se ex­pan­dir para po­der plei­tear mais
be­nes­ses. “Só o cres­ci­mento nos dará maior im­por­tân­cia e po­der.”

Na se­gunda reu­nião, ha­via o do­bro de pes­soas e Gre­nó­lio só con­se­guiu
sentar-se a muito custo. Na ter­ceira, mais gente. Na se­guinte, tam­bém.
Nosso per­so­na­gem, fiel a seu com­pro­misso com a or­ga­ni­za­ção, as­sis­tia a
tudo em pé, atur­dido com o vo­ze­rio da mul­ti­dão. Não ha­via mais
ca­dei­ras para tanto bum­bum.

Com o pas­sar dos anos, a or­ga­ni­za­ção cres­ceu tanto que não en­con­trava
mais am­bi­ente com es­paço que pu­desse com­por­tar os mi­li­tan­tes. En­tão, o
lí­der teve a idéia de pu­bli­car um jor­nal para os as­so­ci­a­dos co­nhe­cer
as de­ci­sões. Para o tra­ba­lho, con­tra­tou um com­pa­nheiro de lida, que
ti­nha pe­que­nos lam­pe­jos de le­trado. Não deu certo. O texto não saiu a
con­tento, com pa­la­vras er­ra­das, ra­ci­o­cí­nio torto. As fo­tos, en­tão,
ver­da­dei­ros bor­rões no pa­pel. O pre­si­dente da en­ti­dade re­sol­veu, após
in­ces­san­tes re­cla­ma­ções dos lei­to­res, con­tra­tar pro­fis­si­o­nais do ramo:
jor­na­lista e fo­tó­grafo.

Com o au­mento de tra­ba­lho in­terno na or­ga­ni­za­ção, vi­e­ram de­pois
mé­dico, eco­no­mista, psi­có­logo, as­sis­tente so­cial, pe­da­gogo, so­ció­logo,
an­tro­pó­logo, quí­mico, en­ge­nheiro e até um ci­en­tista po­lí­tico,
di­plo­mado em Yale e na Sor­bonne. Es­tes pro­fis­si­o­nais pas­sa­ram a ro­dar
em torno do lí­der como sa­té­li­tes con­se­lhei­ros. Tudo o que fosse
de­ci­dido te­ria de ter anuên­cia de­les. A or­ga­ni­za­ção, sem in­ten­ção de
tro­ca­di­lho, es­tava bem or­ga­ni­zada, com pes­soas ilus­tres e
pro­fis­si­o­nais em suas fun­ções.

Gre­nó­lio não par­ti­ci­pava mais de reu­niões, pois as mes­mas não mais
exis­tiam. Há anos não con­se­guia con­ver­sar com o lí­der e nem che­gar
pró­ximo a ele. Mas a or­ga­ni­za­ção era forte, seu po­der re­tum­bava como
tro­vão na so­ci­e­dade. Ele, en­tre­tanto, não en­ten­dia por­que a en­ti­dade
que aju­dara a criar e a ex­pan­dir não mais fa­lava sua lín­gua e os
in­te­res­ses já não eram mais os seus, nem de seus iguais.

E-mail: otanunes@gmail.com

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