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solidão - Texto de Thiago Roque

sexta-feira, 18 de julho de 2008 Texto de

des­de pe­que­na, so­li­dão so­nha­va em ser pro­fes­so­ra - in­fluên­cia di­re­ta da mãe, dis­tân­cia, que le­ci­o­nou du­ran­te anos e anos no co­lé­gio da ci­da­de.
ma­gri­nha, cân­di­da, áu­rea de paz e de sor­ri­so sem­pre co­la­do ao ros­to (pa­re­cia ter nas­ci­do com ele), não ti­nha um (alu­no, pai, pro­fes­sor) que não se en­can­tas­se por ela.
da­va au­las aos pe­que­nos - que, além das pri­mei­ras le­tras e ope­ra­ções ma­te­má­ti­cas, des­co­bri­am os pri­mei­ros sin­to­mas da pai­xão em sa­la de au­la - cla­ro, is­so não cons­ta­va no con­teú­do pro­gra­má­ti­co.
e não só os me­ni­nos. as me­ni­nas tam­bém.
não sa­bi­am se era a saia sem­pre no jo­e­lho, que es­con­dia as co­xas (era um exer­cí­cio de ima­gi­na­ção de­li­ci­o­so fa­zer a ima­gem do cor­po da so­li­dão por bai­xo dos pa­nos), mas sem­pre dei­xa­va mar­car a bun­da ao vi­rar-se de cos­tas pa­ra a clas­se.
tal­vez fos­sem as blu­si­nhas, mei­gas, dis­far­çan­do os sei­os per­fei­tos, mas que pa­re­ci­am im­plo­rar pa­ra ser ar­ran­ca­das do cor­po de ime­di­a­to.
quem sa­be a fa­la man­sa, pa­re­cen­do sus­sur­rar “me de­se­je” a ca­da bom dia ou mes­mo pe­di­do de si­lên­cio.
po­de­ria até ser o jei­to de olhar, cas­ta­nho, di­re­to, des­con­cer­tan­te, a fu­zi­lar con­cen­tra­ção - eu ju­ro, ti­nha gen­te que des­vi­a­va o ros­to pa­ra não ser ata­ca­do por um des­ses e cair na ar­ma­di­lha des­se amor, platô­ni­co e im­pos­sí­vel, mas sem vol­ta.
não sa­bi­am.
o que se sa­bia é que to­dos se apai­xo­na­vam por so­li­dão.
e so­li­dão não da­va bo­la pra nin­guém.
nin­guém mes­mo.
à bo­ca pe­que­na, cor­ria que um amor ju­ve­nil trou­xe lá­gri­mas de­mais. a par­tir des­se dia, so­li­dão re­sol­veu se de­di­car ape­nas ao tra­ba­lho. nem bi­cho de es­ti­ma­ção ga­nha­va mais o co­ra­ção da jo­vem pro­fes­so­ra.
ago­ra, as lá­gri­mas vi­nham das cri­an­ças, com o fi­nal do ano le­ti­vo.
to­das apai­xo­na­das. to­das que­ren­do vi­ven­ci­ar, no au­ge de uma ino­cên­cia do­ce, fa­gu­lha do bem-que­rer da pro­fes­so­ra.
que ria.
so­li­dão acha­va gra­ça dos pre­sen­tes, das de­cla­ra­ções nas pro­vas e tra­ba­lhos, nas car­ti­nhas co­lo­ca­das à me­sa du­ran­te o re­creio, dos pe­que­nos que fa­zi­am ques­tão de se­rem re­pro­va­dos pa­ra con­ti­nu­a­rem ali por mais um ano.
não se aba­la­va. nun­ca. o mes­mo jei­to cân­di­do. o mes­mo sor­ri­so.
to­do ano era as­sim.
ao so­ar do si­nal da en­tra­da, é ho­ra de se apai­xo­nar.
ao so­ar do si­nal do fim das au­las, ca­da um le­va con­si­go um pou­co da so­li­dão.
é o de­ver de ca­sa.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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